COMEÇO  DO  DEBATE
NO. 1

Resposta do Prof. Azenilto G Brito

        Inicialmente, permitam-me oferecer um histórico desse debate ora iniciado. Eu estava trocando mensagens com alguns católicos sobre temas teológicos, e numa ocasião um deles enviou-me um artigo intitulado “Grandes Heresias”, em que o nome do Prof. Carlos Ramalhete aparecia como um dos co-autores. Havia uma discussão sobre os “judaizantes” que perturbaram a nascente igreja cristã no primeiro século que assim se encerra: “Uma forma ‘light’ desta heresia é a dos Adventistas de Sétimo Dia e outras seitas sabatistas”.
        Mostramos a nossos amigos que essa alegação é inteiramente falsa porque, na verdade, se analisarmos o episódio à luz de seu contexto, veremos que o concílio da igreja que se reuniu para resolver o problema não tratou em absoluto da questão do sábado (ver Atos 15:20) . Argumentamos adicionalmente demonstrar isso que o sábado não estava sendo agitado pelos judaizantes, entre outras coisas que queriam exigir dos cristãos convertidos do judaísmo.  A razão para não abordarem o sábado é simples—eles não tinham tal preocupação pois não agitariam algo sobre que todos concordavam: os cristãos primitivos observavam o sábado, não o domingo que surgiu como costume religioso muito mais tarde por uma série de razões políticas, sociais e religiosas.  Daí um dos amigos insistiu que trouxéssemos esse debate a uma comunidade maior de católicos com participação do Prof. Ramalhete, assim, aqui estamos.
        O tema sábado/domingo foi devidamente tratado numa monumental obra que recomendaria sem hesitação a qualquer católico-romano, e por uma razão muito especial—trata-se de um livro com o Imprimatur da Igreja Católica. O livro tem por título Do Sábado Para o Domingo e analisa como a data da Páscoa foi resultado de uma longa discussão da Igreja nos séculos 2o. e 3o., para que os cristãos se destacassem mais e mais dos judeus. O Imperador Adriano, pelo ano 130 DC  criou leis severas contra os judeus, e os cristãos foram induzidos por seus líderes em Roma, a capital do Império, a abandonarem a data da Páscoa que celebravam na mesma data dos judeus, o 14 de Nisã do calendário israelita. Criou-se, assim, o “domingo de Páscoa”, mas nem todos aceitaram isso, dando-se o que ficou conhecido como “Controvérsia Quartodecimana” em que milhões de cristãos orientais foram excomungados pelo bispo de Roma, Vitor.
        O autor do referido livro que discute em detalhes tudo isso e analisa em profundidade a documentação bíblica e histórica pertinente é o Dr. Samuele Bacchiocchi, um estudioso adventista que seguiu um programa doutoral na Pontifícia Universidade Gregoriana do Vaticano em meados da década de 70. Ele foi o primeiro e, aparentemente, único não-católico a ali estudar após 450 anos de história dessa instituição educacional católica do mais elevado nível, fundada por Inácio de Loyola em 1541. Sua tese, sobre as origens do domingo em substituição ao sábado bíblico, foi publicada pela gráfica da Universidade, daí tendo o Imprimatur da Igreja Católica. Portanto, qualquer católico poderá lê-lo sem ferir sua consciência religiosa.
Samuele Bacchiocchi até ganhou uma medalha de ouro do Papa Paulo VI pela qualidade de seu trabalho acadêmico. Valendo-se de documentos que encontrou nos arquivos das bibliotecas vaticanas, riquíssimas em documentação histórica, ele demonstra como os cristãos, a fim de serem vistos como diferentes dos judeus, por medo dos decretos anti-judaicos de Adriano, terminaram adotando também o venerabili dies solis [venerável dia do sol] dos pagãos romanos em lugar do sábado. Esta é a origem do descanso dos cristãos aos domingos, em lugar de ser no sábado, como ordenam os Dez Mandamentos da Bíblia (leia Êxodo capítulo 20, vs. 8-11).
        O livro Do Sábado Para o Domingo foi traduzido para o português e temos oferecido a muitos amigos um bem documentado artigo que traz uma síntese da tese do erudito adventista e que enviaremos a quem o desejar gratuitamente. Basta confirmar o interesse mandando-nos um e-mail com tal pedido.

Aliás, permitam-me adicionar opiniões de eruditos católicos sobre o valor de tal obra:

* Thomas A. Krosnicky, S. V. D. DSLit.,
Diretor Executivo da Comissão Sobre Liturgia dos Bispos Católicos:

“Em Do Sábado Para o Domingo o Dr. Bacchiocchi tenta assegurar a gênese histórica da observância do domingo mediante uma investigação exaustiva de fatores judaicos, pagãos e do cristianismo primitivo que para isso contribuíram. As suas descobertas são significativas e merecem a cuidadosa consideração de todos”.

* John T. Pawlikowski, OSM, Ph. D.,
Chefe do Departamento de Estudos Religiosos
União Teológica Católica, Chicago:

“Pode dar-se o caso de que uma das formas mais poderosas de antijudaísmo na igreja hoje seja a própria estrutura de sua liturgia. Daí Do Sábado Para o Domingo deve ser bem acolhido como uma nova e bem fundamentada pesquisa para levantar discussão nesta área vital. É um campo de estudo que merece nossa atenção. E não se poderia encontrar um melhor ponto de início para tal exploração do que o último volume do Dr. Bacchiocchi. Eu grandemente o recomendo”.

      Pois bem, nossa idéia era discutir mais a fundo esta questão. Mas sendo que o Prof. Ramalhete insiste em que primeiro analisemos a posição protestante histórica da “Sola Scriptura”, submetendo-nos um questionário de cinco perguntas, vamos primeiro buscar respondê-las. Contudo, acrescentamos ao final também 5 perguntas que esperamos serem respondidas pelo Prof. Ramalhete. Assim haverá maior justiça e democracia na análise desses empolgantes temas.
      Então, vamos às suas perguntas:

1o. – Por favor, diga-me uma razão para aceitar a Bíblia que um muçulmano não poderia usar para considerar o Corão inspirado por Deus.

        Não conheço suficientemente a doutrina muçulmana sobre o seu livro sagrado, assim não há como fazer uma comparação dessas. O que sei é que Jesus Cristo tratou as Escrituras com todo respeito, citou-as exclusivamente quando defrontou a tentação no deserto e derrotou Satanás com a autoridade do “está escrito”. No Seu tempo havia muitas tradições messiânicas, muitas interpretações paralelas dos judeus em seus talmudes e midrashes, mas Jesus jamais recorreu a essas tradições ou comentários judaicos da lei. Pelo contrário, a referência que faz à tradição foi inteiramente negativa: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição do homens” (Marcos 7:7 e 8).
        A esses mesmos que colocavam a tradição acima das Escrituras Jesus disse: “Errais não conhecendo as Escrituras. . .” Mateus 22:29.
        Jesus para os cristãos é o “verbo” que se fez carne. Ele é a própria palavra de Deus que assumiu a natureza humana. Portanto, o livro sagrado dos cristãos tem esta característica—transmite a mensagem de amor de Deus centralizada na pessoa e missão de Jesus Cristo.
        Sei que o Corão não ensina o princípio de amor de Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos do modo objetivo e claro como encontramos na Bíblia. Muito menos contem palavras tais como “amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos perseguem”. Por exemplo, na Surata 9:5 lemos: “Lutai e matai os pagãos [aqueles que não acatam o Islã] onde quer que os encontreis, e dominai-os, cercai-os, e ficai à espreita deles em todo estratagema de guerra”. De acordo com o Corão, aqueles que resistem ao Islã: “serão postos à morte ou crucificados ou terão mãos e pés cortados  em lados alternados. . .” (Surata 5:51).
        Os muçulmanos são instruídos a não se associarem com os cristãos: “Crentes, não façais nem judeus nem cristãos vossos amigos. Eles são amigos entre si. Quem quer dentre vós que buscar amizade com eles se tornará um deles. Alá não guia os malfeitores”. (Surata 5:51). Portanto, como diz aquela piadinha clássica: “Há uma diferença, e que diferença. . .!”
        Mas há uma boa razão para aceitarmos a Bíblia que o muçulmano não possui: a Bíblia é a revelação e expressão do pensamento Daquele que pôde dizer: “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por Mim”. Pôde Maomé dizer tais palavras?

2o. – Por favor, diga-me por que você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo - aliás, junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora - e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade você o faz.

          Aceitamos a Bíblia completa como reconhecida por aqueles que, segundo a Bíblia, em Romanos 3:2, são “portadores dos oráculos de Deus”—os judeus. Os livros apócrifos adicionados na Contra-Reforma definitivamente pela Igreja Católica por mera conveniência ideológica, após muito debate ao longo dos séculos sobre sua canonicidade, representam uma coletânea útil de valor histórico, com informações importantes sobre o período intertestamentário, mas comparados com os livros que tradicionalmente compunham o cânon judaico deixam muitíssimo a desejar. Estão repletos de contradições gritantes, lendas, mágica, e até um anjo mentiroso!

3o. – Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode ler e entender.

          Ninguém bem informado alega que por 1.600 anos não havia quem entendesse devidamente a Bíblia. Não sei de onde o Prof. Ramalhete extraiu tal conceito. Aliás, em que sentido fala de “entender a Bíblia?” ninguém pode alegar que entende a Bíblia perfeita e completamente, nem agora, nem no período dos próprios apóstolos, pois Pedro escreveu que Paulo aborda certos temas  com linguagem “difícil de entender” (2 Pedro 3:16), e que “os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles”.
          Quem pode entender plenamente todos os textos simbólicos do Apocalipse, Ezequiel, Daniel e outros livros com esse tipo de linguagem especial? O importante é o que esse livro nos transmite sobre o plano divino para salvar o homem e isso nos vem em linguagem por demais clara e fácil de entender. Qualquer criança entenderia a linguagem de João 3:16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que nos deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
        O apóstolo Paulo de modo singelo e objetivo nos dá uma síntese da temática de sua incansável pregação da mensagem de Deus para os homens: “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Cor. 15:1-4).
        Parece que foi Agostinho que teria sido abordado certa feita por alguém que alegava: “A Bíblia é um livro muito difícil de entender”, ao que ele lhe perguntou: “Você gosta de comer peixe?” “Sim”, teria sido a resposta do interlocutor, “na verdade é um de meus pratos prediletos”. “E o que faz com as espinhas dos peixes?”, prosseguiu Agostinho. “Eu as separo, deixo-as de lado no prato”. “Então”, conclui o famoso cristão, “faça o mesmo com a Bíblia. Aproveite suas partes fáceis de entender e deixe de lado as complexidades”. Esta historieta tradicional (assim, há coisas proveitosas na tradição cristã) ilustra bem a questão do estudo da Bíblia.
        Talvez o que falte a muitos é uma metodologia prática para estudar e buscar compreender a mensagem bíblica. Eis a que busco seguir:

a) O Novo Testamento interpreta o Velho.
b) As Epístolas interpretam os Evangelhos.
c) O didático, ou expositivo, interpreta o simbólico.
d) O sistemático deve interpretar o incidental.
e) O universal deve interpretar o local.

        Contudo, tais regras de modo algum são substitutas do Espírito Santo, porque sem uma dependência consciente de Sua direção e iluminação tudo está perdido. Foi o que Jesus prometeu em João 7:17; 14:26; 16:13.
        Por outro lado muitos devem ser lembrados que o Espírito Santo não anula a necessidade de que o agente humano se aproxime da Bíblia através de um estudo dedicado e intenso.

4o. – Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se ele só pode confiar na Bíblia, e em mais nada; afinal existem cerca de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

      É verdade, há uma infinidade de organizações eclesiásticas, mas não são tão exclusivistas e opostas entre si, como o Prof. Ramalhete e muitos católicos imaginam. Eu diria, em síntese que nem os protestantes são tão competidores entre si e tão divididos ideologicamente, nem os católicos são tão unidos como querem nos fazer crer.
      Muitos católicos destacam  a  questão de “igrejas”, preocupados com a instituição, a estrutura. Mas isso não é o mais importante. Embora divididos em vários grupos, há uma unidade em torno de pontos fundamentais entre as várias igrejas evangélicas. Prova disso é que nos folhetos distribuídos por muitas igrejas, há ao final apelos do tipo: “Procure a igreja evangélica mais próxima de sua casa”. Como vê, não há um direcionamento como “só esta determinada denominação é o caminho da verdade, com exclusão de todas as demais”.
      Agora, se em termos doutrinários há grandes divisões entre os evangélicos e protestantes, no catolicismo vê-se também uma notória divisão quanto à tradição: ocorrem tantas tradições diferentes segundo diferentes regiões e culturas: a tradição do Círio de Nazaré, do Pará, a tradição dos Santos Reis, de Minas Gerais, a tradição de Fátima, em Portugal, a tradição da Virgem de Guadalupe, no México, diferentes tradições com misto de animismo na África, etc, etc.  Seriam também diferentes modos de encarar a religião e destacar aspectos diferentes na prática religiosa.
      Assim, se há diferentes visões do que é mais importante no meio evangélico, não seriam essas diferentes tradições católicas algo comparável? Também deve-se recordar que bem antes da Reforma o próprio catolicismo já havia experimentado uma grande divisão em 1054 com o afastamento dos chamados “católicos orientais”, ou Ortodoxos.
      Também, Lutero não foi o primeiro a levantar-se contra os abusos e erros doutrinários do catolicismo. Antes de Lutero houve Huss, os valdenses, os lolardos, os albigenses e pequenos movimentos e indivíduos que já protestavam contra as doutrinas antibíblicas adotadas por Roma. O movimento de Lutero se expandiu e fortaleceu rapidamente porque ele pôde contar com um forte aliado: a imprensa de tipos móveis, vantagem com que seus antecessores “protestantes” não contaram.
      Dentro do catolicismo também há discordâncias várias, como os que negam a infalibilidade papal (teólogos Hans Küng e Leonardo Boff, como exemplo), os que a defendem, os que favorecem o casamento dos clérigos, os que se batem por conservar o celibato sacerdotal, os que são favoráveis ao controle de natalidade, os que não acatam tal norma, os carismáticos, os anti-carismáticos, os que se insurgiram à norma do Vaticano II para as missas serem rezadas em idiomas nativos e conservam o latim e a celebração de missa “de costas” para a congregação (bispo Lefèvre, da Suíça), os anti-comunistas, como os adeptos do TFP, inimigos figadais da reforma agrária, os pró-PT, a favor da reforma agrária. A diferença é que não criam organizações, com registro no cartório, do tipo, “Igreja Católica dos Que Defendem a Reforma Agrária”, “Igreja Católica dos Que Defendem o Fim do Celibato Sacerdotal”, “Igreja Católica dos Que Exigem a Missa em Latim”, etc.
      Aliás, curiosamente, existe um livro chamado “Como Lidar com as Seitas”, do padre Paulo H. Gozzi, que diz textualmente, ao tratar das divergências internas da Igreja de Roma: “Há lugar para todo mundo na Igreja, para cada jeito de viver a fé e a comunhão. Há variedade de serviços, de dons, de atividades, mas o Espírito que dá essa diversidade é o mesmo. As diferenças existem para o enriquecimento espiritual de uns e outros, jamais para dividir e separar uns dos outros. Quem não gosta do jeito de um grupo, não precisa participar dele, participe de outro. Quando é que vamos aprender a viver em paz e harmonia e pluralismo, aceitando o jeito diferente de cada um ser o que é, dentro da mesma Unidade?” (Op. Cit., págs. 64 e 65, 4a. edição, Editora Paulus).
      É bom mesmo que esse padre pense assim, pois ele diz na página 39, ao falar sobre o saravá—o baixo espiritismo: “Não devemos fazer acusações injustas, achando que essas religiões são do demônio. . . .  E nessa cultura tribal foram criando mitos e lendas religiosas que explicam os mistérios da vida, passando tudo isso de pai para filho. Essas religiões africanas são belas, puras e merecem o nosso profundo respeito”. Garanto que o Vaticano não pensa assim.  Onde está a unidade doutrinária? Afinal não é este um livro publicado por uma editora católica?
      E que dizer do Padre Quevedo, que diz que o diabo não existe e não existem possessões demoníacas, contrariando o próprio Evangelho? Onde está a orgulhosa unidade católica, já que um herege como este não é excomungado por chamar o próprio Jesus de mentiroso?
      Mais importante que o hiato temporal, é o hiato Doutrinário, e nesse aspecto a Igreja Protestante ficou muito mais perto de Cristo ao voltar-se SOMENTE aos escritos apostólicos, recusando as dezenas de dogmas errados da igreja de Roma, mediante o lema “SOLA SCRIPTURA”.

5o. - Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (ou seja, a única fonte de Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

        O que a Bíblia diz a respeito de si própria? Autoriza ou incentiva ela a busca por outras fontes de verdade? Jesus disse aos chefes religiosos judaicos: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de Mim” (João 5:39).
      Quando Jesus quis demonstrar aos discípulos quem era logo após a Ressurreição, recorreu às Escrituras dos judeus, não a sua tradição: “A seguir Jesus lhes disse: São estas as palavras que Eu vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de Mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lucas 24:44).
       Em 1 Coríntios 4:6 Paulo adverte: “Estas cousas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: Não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro”. Na mesma epístola ele mais adiante declara: “De fato eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes as tradições assim como vo-las entreguei” (1 Cor. 11:2). Claramente ele não está se referindo a algum depósito de noções, idéias, relatos de criaturas santas ou ordinárias mantido pelo magistério eclesiástico e circulado a boca pequena pela comunidade cristã. Ele não se refere a material à parte dos textos escritos, contendo verdades importantes, essenciais à fé cristã.
      Pedro refere-se à palavra do Senhor que “permanece eternamente”: “Ora, esta é a palavra que vos foi evangelizada” (1 Pedro 1:25). Interessante, se Pedro tivesse sido o primeiro papa, não é de estranhar que não faça qualquer referência ao suposto “depósito de verdades” da igreja nas suas tradições? Pelo contrário, ele exalta as Escrituras como fonte de verdade e iluminação, como tendo sido dadas por Deus através de “homens santos . . . movidos pelo Espírito Santo” (ver 2 Pedro 1:19;  2:1, 3:1, 2).
      Por fim, se Jesus disse, “santifica-os na verdade, a Tua Palavra é a verdade” (João 17:17) fica o ônus da prova para quem ensina que a tradição é considerada Palavra de Deus por Jesus ou qualquer autor bíblico. A referência à “palavra de Deus” na Bíblia é sempre ao texto inspirado escrito por “homens santos, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21), nunca a noções do “povão” acatadas pela igreja, por conveniência.

      Muito bem, agora vamos às perguntas que eu submeto ao Prof. Ramalhete. Por favor, professor, busque responder com a disposição com que busquei responder às suas.

1o. – Que provas bíblicas e históricas tem de que a Igreja Cristã  primitiva manteve-se pura, inalterável em seus ensinos ao longo dos séculos, correspondendo inteiramente aos ideais divinos? Ou acatou ela ensinos errôneos, desviou-se dos ideais divinos, com isso necessitando de mudanças de doutrina e prática, com novas “verdades” sendo acrescentadas e entendimentos acatados por meio de concílios e decretos de autoridades religiosas para fazê-la voltar a suas origens?

2o. – Como podem os católicos condenar tanto o princípio do livre exame individual da Bíblia, com certo amigo católico chegando a dizer ser isso “ridículo”, “absurdo”, “sem fundamento”, quando lemos em Atos 17:11: “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram de fato assim”? Os bereanos não foram ridicularizados pelos apóstolos por seu apelo à Bíblia e busca de confirmar individualmente o que ouviam desses apóstolos. Antes, foram por eles ELOGIADOS por seu “livre exame”. . .

3o. – Vi num site católico, sob o nome “lepanto”, uma breve discussão da questão sábado/domingo em que o apologeta dizia que a Igreja Católica conta com um líder que teria o direito de mudar o dia de observância religiosa e assim o fez. Pode um ser humano, limitado no tempo e espaço, pecador, falho, carente de submissão a Deus como qualquer um de nós, arvorar-se o direito de alterar os termos da lei de Deus solenemente proclamada sobre o Sinai e registrada com o próprio divino dedo em tábuas de pedra? A Bíblia diz que “a lei do Senhor é perfeita”, “santa, justa e boa” (Salmo 19:7; Romanos 7:12), então como pôde tal líder eliminar todo um mandamento que condena a mera confecção de imagens de esculturas, quanto mais utilizá-las como elemento de culto, e criar uma norma alheia à disposição divina, “guardar domingos e festas”, por influência do paganismo romano?

4o. – Se a pergunta 5 do Prof. Ramalhete deixa implícito que a Bíblia não é a única Palavra de Deus, onde na Bíblia é dito que ela não é a única Palavra de Deus e a que outra fonte de verdade salvadora apontaria ela objetiva e claramente?

5o. – Por que os católicos insistem tanto nessa questão da negação da Bíblia como suprema autoridade em questões de doutrina e prática, exaltando a tradição até acima dela? Não seria para justificar ensinos e práticas que contrariam de modo evidente as doutrinas bíblicas, como a mudança do sábado para o domingo, o uso de imagens como elemento de culto, a imortalidade da alma, a hiperdulia de Maria, a própria valorização da tradição acima da Bíblia, etc., etc.?

      Assim, justiça se faça. Eu respondi às cinco perguntas que o Prof. Ramalhete me submeteu. Ele agora deve empenhar-se em responder às minhas cinco, combinado?

      Nosso objetivo deve ser acima de tudo crescer “na graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, como recomendou Pedro no finalzinho de sua 2a. epístola. Se houver um espírito construtivo e humilde nessa troca de idéias tal meta poderá ser alcançada. Afinal, o próprio Deus propõe: “Vinde, pois, arrazoemos, diz o Senhor” (Isa. 1:18).

Prof. Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura

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