Livro: Imortalidade ou
Ressurreição?
Autor: Dr. Samuele
Bacchiocchi
CAPÍTULO III
A VISÃO DA NATUREZA DO HOMEM
NO NOVO TESTAMENTO
Em nossas Bíblias, a
primeira página do Novo Testamente segue-se imediatamente
à última página do Velho Testamento. Isso pode
sugerir a leitores desinformados que não há um intervalo
de tempo entre os dois testamentos. Na realidade, cerca de quatro
séculos os separam. Durante esse período
inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu
lar, na Palestina, quanto na diáspora (dispersão),
à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de grande
influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo
é evidente em muitas áreas, inclusive na
adoção do dualismo grego por algumas obras
literárias judaicas produzidas nessa época.
A literatura judaica produzida
durante o período inter-testamentário é geralmente
conhecido como livros apócrifos ou pseudepígrafos.1
A maioria dos cristãos não considera esses livros
não-canônicos como divinamente inspirados e como tendo
autoridade como livros da Bíblia. Isso não diminui o seu
valor histórico, uma vez que eles são uma importante
fonte de informação sobre ocorrências
históricas e ideológicas da época.
No que diz respeito à
natureza e destino humanos, duas principais escolas de pensamento
judaico mantiveram-se leais ao ponto de vista holístico da
natureza humana do Velho Testamento e propiciam um destacado pano de
fundo para a compreensão do Novo Testamento. O judaísmo
palestino via a morte como um sono inconsciente da pessoa inteira e
destacava a necessidade da ressurreição final do corpo. A
importância desse ponto de vista para o estudo do Novo Testamento
pode ser ilustrado pelo livro apócrifo Apocalipse de Baruque
(conhecido como 2 Baruque), que foi escrito por um judeu palestino na
última metade do primeiro século da era cristã. O
autor ensina que os mortos “dormem na terra” e quando o Messias
retornar “todos os que adormeceram na esperança Dele
ressuscitarão novamente”.2 Todos os justos
serão reunidos num instante e os ímpios
lamentarão, pois o tempo de seu tormento é chegado.3
Tal ponto de vista é impressionantemente semelhante ao ensino
neotestamentário da ressurreição do corpo que
é parte do conjunto de idéias que pareciam “loucura” para
os gregos (1 Cor. 1:23).
A segunda escola de pensamento
é o judaísmo helenístico, que era grandemente
influenciado pelo dualismo grego. O judaísmo helenístico
floresceu especialmente em Alexandria, o lar de Filo, o bem conhecido
filósofo judeu que tentou empreender uma síntese das
idéias hebraicas e gregas. Nos escritos dos judeus helenistas
encontramos claras referências à sobrevivência e
imortalidade da alma. A existência desincorporada parece ser o
destino eterno dos salvos. Por exemplo, o Livro dos Jubileus,
apócrifo (cerca de 135 A.C.) ensina que “os ossos” jazem na
sepultura enquanto os “espíritos” vivem independentemente: “E
seus ossos repousarão na terra, e os espíritos deles
terão muito gozo, e eles saberão que é o Senhor
que executa julgamento, e revela misericórdia a . . . todos
quantos O amam” (23:31).4
Numa linha semelhante de
pensamento, A Sabedoria de Salomão, escrita por um judeu
helenista entre 50 e 30 A.C., declara que “as almas dos justos
estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento jamais os
tocará . . . eles estão em paz . . . sua esperança
é plena imortalidade” (3:1, 3, 4).5 A mesma
visão é encontrada em 4 Macabeus, um tratado
filosófico escrito por um judeu helenista pouco antes da era
cristã. Os mortos justos ascendem imediatamente para a ventura
eterna,6 enquanto os ímpios descem ao tormento
eterno, variando em intensidade.7
Em suma, durante o período
inter-testamentário, como adequadamente expresso por Wheeler
Robinson: “A interpretação dualística da
relação do corpo e alma (ou espírito) é
encontrado na linha helenista do judaísmo (Sab. 9:15); mas
é alheio à linha de pensamento palestiniana, que liga o
pensamento do Velho Testamento com muito do Novo”.8
Ao lidarmos com o estudo da
visão neotestamentária da natureza humana, não
podemos ignorar a possível influência do judaísmo
helenista sobre os autores dos livros do Novo Testamento. Afinal de
contas, com a possível exceção de Mateus, todos os
livros do Novo Testamento foram escritos em grego e empregam quatro
grandes palavras gregas antropológicas: psychê-alma, pneuma-espírito, soma-corpo, e sarx-carne. Estas palavras eram
comumente empregadas nos tempos do Novo Testamento com um sentido grego
dualístico. A alma e espírito denotam a parte imaterial e
imortal da natureza humana, enquanto o corpo e a carne descreviam a
parte material e mortal.
A questão então
é: Em que extensão é o sentido dualístico
dessas importantes palavras gregas refletido nos escritos do Novo
Testamento? Surpreendementemente, como veremos neste capítulo, o
sentido e uso dualístico desses termos está ausente no
Novo Testamento. Mesmo aquelas passagens que parecem ser
dualísticas em seu contraste entre carne e espírito, num
exame mais detido revelam um entendimento holístico da natureza
humana. Carne e espírito não se configuram como duas
partes separadas e opostas da natureza humana, mas dois diferentes
tipos de estilo de vida: centralizado no eu versus centralizado em Deus.
A razão para a
ausência de influência dualística no Novo Testamento
é que seus autores utilizaram importantes palavras gregas da
natureza humana em harmonia com seus equivalentes originais no Velho
Testamento, onde as idéias se originaram, e não consoante
os sentidos prevalecentes na sociedade helenista.
Sempre devemos ter em mente que “o
elo entre o Velho Testamento hebraico e o Novo Testamento Grego
é a grande versão Septuaginta (grega) do Velho Testamento
realizada em Alexandria no terceiro século A.C. A
tradução foi feita por judeus, que obviamente entendiam o
sentido das palavras hebraicas e tencionavam fazer com que os termos
gregos que utilizavam lhes correspondessem. Destarte, a Septuaginta
segue o hebraico, e o Novo Testamento segue a Septuaginta. A
versão Septuaginta não foi inspirada, mas na
providência divina ela propiciou este valioso elo
lingüístico entre o Velho e o Novo Testamentos”.9
A assimilação do dualismo grego na tradição
cristã ocorreu após o Novo Testamento ter sido escrito.
J. Robinson oferece alguns excelentes exemplos de como Paulo usou
palavras gregas segundo o significado dos termos hebraicos
correspondentes, e não segundo o uso grego prevalecente. Por
exemplo, a frase de Paulo “a mente carnal” (Col. 2:18), não
fazia sentido à mentalidade grega, porque a mente (nous) sempre era associada à
alma (psychê) e nunca à carne.
Semelhantemente, as
referências paulinas ao corpo espiritual (1 Cor. 15:44, 46) e
à contaminação da carne e espírito (2 Cor.
7:1) “teriam parecido um absurdo para os gregos”10 porque
segundo eles, o corpo não era espiritual e o espírito
não podia ser contaminado. Indicações desse tipo
demonstram que o ponto de vista neotestamentário da natureza
humana reflete o pensamento hebraico (Velho Testamento) e não o
grego.
Objetivos do Capítulo.
Este capítulo busca entender a perspectiva da natureza humana no
Novo Testamento pelo exame de quatro destacados termos
antropológicos, quais sejam, alma, espírito, corpo, e
coração. Estes são os mesmos quatro termos que
examinamos no capítulo anterior em nosso estudo da visão
da natureza humana do Velho Testamento. Os vários significados e
empregos desses termos são estudados para determinar se eles
seguem os significados e utilizações dos termos hebraicos
correspondentes no Velho Testamento.
Nosso estudo revela prevalece uma
continuidade definida entre o Velho e Novo Testamentos no entendimento
holístico da natureza humana. A noção de
imortalidade da alma, conquanto popularmente crida por outros ao tempo
de redação do Novo Testamento, está ausente dos
escritos do Novo Testamento porque seus autores foram fiéis aos
ensinos do Velho Testamento.
O Novo Testamento revela
não só continuidade com o Velho Testamento no
entendimento da natureza e destino humanos, mas também uma
compreensão ampliada à luz da encarnação e
ensinos de Cristo. Afinal de contas, Cristo é a verdadeira
cabeça da raça humana, desde que Adão “era um tipo
daquele que havia de vir” (Rom. 5:14). Enquanto no Velho
Testamento a natureza humana primariamente se relaciona com Adão
por virtude da criação e Queda, no Novo Testamento a
natureza humana se relaciona com Cristo por virtude de Sua
encarnação e redenção. Cristo é o
cumprimento da revelação sobre a natureza humana, seu
significado e destino. Cristo oferece um significado mais profundo da
alma, corpo e espírito humanos porque o efeito imediato de Sua
redenção foi a dádiva de Seu Espírito que
“habita convosco e está em vós” (João 14:17).
PARTE I: A
NATUREZA HUMANA COMO ALMA
A palavra grega psychê-alma
é
empregada no Novo Testamento em harmonia com os significados
básicos do hebraico nephesh-alma
que encontramos no Velho Testamento. Passaremos brevemente em revista o
significado básico de psychê-alma,
dando especial atenção ao significado expandido da
palavra à luz dos ensinos e ministério redentor de Cristo.
Alma
Como Pessoa. A alma-psychê
no Novo Testamento denota a pessoa integral no mesmo sentido de nephesh no Velho Testamento. Por
exemplo, em sua defesa perante o Sinédrio, Estêvão
menciona que “setenta e cinco almas-[psychê]”
da família de Jacó desceram ao Egito, um numeral e
emprego encontrado no Velho Testamento (Gên. 46:26, 27;
Êxo. 1:5; Deut. 10:22). No dia de Pentecoste, “três mil
almas-[psychê]” (Atos
2:41) foram batizadas e “em cada alma-[psychê]
havia temor” (Atos 2:43). Falando da família de Noé,
Pedro declara que “oito almas-[psychê]
foram salvas pela água” (1 Ped. 3:20). É evidente que em
textos como esses a “alma-psychê”
é empregada como um sinônimo para pessoa.
Dentro deste contexto, mencionamos
a famosa promessa de Cristo de descanso para as “almas-[psychê]” daqueles que aceitam
o Seu jugo (Mat. 11:28). A expressão “descanso para as vossas
almas-[psychê]” procede
de Jeremias 6:16, onde descanso para a alma é prometido
àquele que caminha de acordo com os mandamentos de Deus. O
descanso que Cristo concede à alma, como Edward Schweizer
assinala, “difere completamente do que encontramos no mundo grego, onde
a alma encontra descanso quando é libertada do corpo, pois aqui
a unidade e totalidade do homem é mantida. Nos seus atos
físicos em obediência é que o homem encontra o
descanso de Deus”.11 Cristo dá descanso (paz e
harmonia interiores) às almas daqueles que aceitam Sua graciosa
provisão de salvação (“vinde a Mim”) e vivem em
harmonia com os princípios de vida que Ele ensinou e
exemplificou (“aprendei de Mim”).
Alma
Como Vida. O sentido mais freqüente da palavra alma-psychê no Novo Testamento
é o de “vida”. De acordo com uma contagem, 46 vezes psychê é traduzida
como “vida”.12 Nesses casos, “vida” propicia uma
tradução adequada do grego psychê porque é
empregada com referência à vida física. Para
facilitar a identificação da palavra alma-psychê encontrada no texto
grego, psychê
será traduzida literalmente como “alma” em lugares onde a RSV
[Revised Standard Version, em inglês] verte como “vida”.
No auge da tempestade, Paulo
dá garantias aos membros da embarcação de que
“nenhuma vida se perderá” (Atos 27:22; cf. 27:10). Neste
contexto, o termo grego psychê
é corretamente traduzido como “vida” porque Paulo está
falando a respeito da perda de vidas. Um anjo disse a José:
“Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra
de Israel; porque já morreram os que atentavam contra a vida [psychê, “alma”-VKJ] do
menino” (Mat. 2:20). Esta é uma das muitas referências de
buscar, matar e salvar a alma-psychê,
expressões todas que sugerem que a alma não é uma
parte imortal da natureza humana, mas a própria vida
física que pode estar sob perigo. Segundo o Velho Testamento, a
alma-psychê é
posta à morte quando o corpo morre.
Jesus associou a alma com alimento
e bebida. Disse ele: “Não andeis ansiosos pela vossa vida
[“alma”-VKJ], quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso
corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida
[“alma”-VKJ] mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?”
(Mat. 6:25). Aqui a alma-psychê
associa-se a comida e bebida e o corpo (o exterior visível) com
roupa. Ao associar a alma com comida e bebida, Jesus mostra que a alma
é o aspecto físico da vida, conquanto Ele explique que
há mais a se cuidar na vida do que comida e bebida. Os crentes
podem elevar seus desejos e pensamentos às coisas celestiais e
viver para Cristo e para a eternidade. Assim, Cristo expandiu o
significado de “alma” por incluir a vida mais elevada ou vida eterna
que veio oferecer à humanidade. Permanece o fato, contudo, de
que por associar a alma com comida e bebida, Cristo revela que a alma
é o aspecto físico de nossa existência e não
um componente imaterial de nossa natureza.
Salvando a Alma Por Perdê-la.
No Velho Testamento, descobrimos que a alma-nephesh é empregada
freqüentemente para denotar a incerteza da vida, constantemente
defrontando a possibilidade de ferir-se ou mesmo de
destruição. Por conseguinte, os antigos israelitas
preocupavam-se com a salvação da alma, livrar a alma,
restaurar a alma à segurança, e suster a alma mediante
provisões, especialmente alimento. Nesse contexto, deve ter
parecido algo paradoxal para os judeus ouvirem Cristo dizer: “Quem
quiser, pois, salvar a sua vida [psychê],
perdê-la-á; e quem perder a sua vida [psychê] por causa de mim e do
evangelho, salva-la-á” (Marcos 8:35; cf. Mateus 16:25; 10:39;
Lucas 9:24; 17:33; João 12:25).
O impacto da
declaração de Cristo sobre os judeus deve ter sido
dramático, porque Ele teve a audácia de proclamar que
suas almas só poderiam salvar-se por perdê-las nesse
propósito. A noção de salvar almas por
perdê-las era desconhecida para os judeus porque não se
acha no Velho Testamento. Cristo demonstrou o Seu ensino agindo
num modo que culminou em Sua própria crucifixão. Ele veio
“dar a sua vida [psychê]
em resgate por muitos” (Mateus 20:28). Como o Bom Pastor, Ele
“dá a vida [psychê]
pelas ovelhas” (João 10:11). Ao ensinar que a fim de salvar a
alma é necessário que o indivíduo a perca, a ela
renunciar e perdê-la Cristo ampliou o sentido
veterotestamentário de nephesh-alma
como vida física tornando-a inclusiva da vida eterna recebida
por aqueles desejosos de sacrificar a vida presente (alma) por Sua
causa.
Encontramos
confirmação para o sentido ampliado de alma na
redação de João da mesma declaração
de Cristo: “Quem ama a sua vida [psychê],
perde-a; mas aquele que odeia a sua vida [psychê] neste mundo,
preserva-la-á para a vida eterna” (João 12:25). A
correlação entre “este mundo” e “vida eterna” indica que
alma-psychê é
empregada para referir-se tanto à vida terrena quanto à
vida eterna. Na versão joanina da declaração de
Cristo é evidente que a alma não é imortal,
porque, como Edward Schweizer assinala, “doutro modo não
devíamos ser instados a detestá-la. Psychê é a vida dada
ao homem por Deus e que mediante a atitude do homem para com Deus
recebe o seu caráter como mortal ou eterno. . . . Daí
nunca lermos da psychê aionios ou athanatos (alma eterna ou imortal),
somente da psychê
(alma) que é dada por Deus e mantida por Ele para zoe aionios [vida eterna]”.13
O significado de alma como vida
eterna aparece também em Lucas 21:19, onde Cristo declara:
“É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas”.
O contexto indica que Cristo não está falando da
preservação da vida terrena, porque Ele prediz que alguns
de seus seguidores serão traídos e postos à morte
(v. 16). Aqui a alma-psychê
é claramente entendida como vida eterna conseguida por aqueles
dispostos a fazerem um compromisso total, sacrifical com Cristo.
A promessa de que a alma-vida
será salva quando é sacrificada por Cristo demonstra que
o que Cristo tinha em vista é a vida plena e verdadeira que Ele
oferece àqueles que O aceitam como Seu Salvador. A vida em
Cristo não difere da vida natural porque é a vida
experimentada por aqueles que estão livres de tentar
preservá-la. É uma vida liberta, aberta, que oferece um
senso de cumprimento à vida natural. Este é o sentido
ampliado que Cristo atribui à alma; um sentido que nega a
noção da alma como uma entidade imaterial, imortal que
coexiste com o corpo.
A Igreja Apostólica
assimilou este sentido ampliado da alma como denotando uma vida de
total comprometimento com o Salvador. Judas e Silas tornaram-se homens
que “têm exposto a vida [psychê]
pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 15:26). Epafrodito
arriscou “sua vida [psychê]”
pela obra de Cristo (Fil. 2:30). O próprio apóstolo Paulo
testificou: “Em nada considero a vida [psychê]
preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o
ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o
evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Se Paulo cria que a
alma é imortal, é improvável que a teria visto
como sem valor e digna de ser perdida pela causa do evangelho. Estes
textos mostram que a Igreja Apostólica vivia segundo o novo
sentido ampliado da alma por viver uma vida de total comprometimento
sacrifical para com Cristo. Os crentes compreendiam que suas almas como
vida física podiam ser salvas somente por consagrá-las ao
serviço de Cristo.
O erro mais tolo que qualquer um
pode cometer é “ganhar o mundo todo e perder a sua alma [psychê]”. (Mar. 8:36).
É essa alma-psychê,
a vida que transcende a morte, que é o objeto primário da
redenção (Heb. 10:39; 13:17; Tiago 1:21; 1 Ped. 1:9, 22).
Conquanto o termo “alma” seja empregado com consideravelmente menos
freqüência no Novo Testamento do que no Velho, essas
passagens-chave indicam uma significativa expansão em seu
sentido. O termo chegou a incluir o dom da vida eterna recebido por
aqueles que estão dispostos a sacrificar sua vida presente pela
causa de Cristo.
Em bem poucos casos é a
alma-nephesh empregada no
Velho Testamento para denotar a vida que transcende a morte. Um exemplo
disso é o Salmo 49:15: “Deus remirá a minha alma do poder
da morte, pois Ele me tomará a Si”. É esse sentido de
alma como vida além da morte que chega a ser ampliado no
ensino de Jesus a respeito de perder e achar a alma. A continuidade
entre a vida presente e futura é garantida, não pela
residência de uma alma imortal no homem, mas pela fidelidade de
Deus que concederá vida eterna aos crentes.
A vida física e a vida
eterna não são duas realidades diferentes, porque ambas
são concedidas por Deus. A alma abrange ambas porque a vida
eterna é a vida física vivida para Deus. Afinal de
contas, a vida física é a única forma de
existência de que temos conhecimento. Mas o sentido ambivalente
de alma serve para nos recordar que a vida humana não é
apenas saúde e riqueza; é uma vida vivida em
relacionamento com Deus.
O duplo sentido bíblico de
alma como vida física e eterna nega a distinção
helenista entre corpo e alma, entre a vida do corpo na terra e a vida
da alma no céu. De um ponto de vista bíblico, a vida do
corpo é a vida da alma, porque a forma como uma pessoa vive esta
presente vida determina o destino da alma como sendo vida eterna ou
destruição eterna. A alma, pois, não é uma
substância que sobrevive ao corpo por ocasião da morte;
é a vida que vivemos pela graça de Deus e que será
revelada e consumada por Deus no Juízo Final.
A Alma
e a Carne. Um
importante texto no Novo Testamento põe a alma-psychê em
clara antítese com a carne-sarx.
Acha-se em 1 Pedro 2:11 onde o apóstolo declara: “Amados,
exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das
paixões carnais [sarx]
que fazem guerra contra a alma [psychê]”.
Edward Schwizer declara que este é o emprego mais
helenístico de alma no Novo Testamento, uma vez que a clara
antítese entre alma-psychê
e carne-sarx pode sugerir uma
composição dualística da natureza humana.
Um exame mais detido do texto,
contudo, mostra que Pedro foi influenciado, não pelo dualismo
grego, mas pelo entendimento neotestamentário de alma-nephesh. No Velho Testamento,
descobrimos que a alma-nephesh
estava constantemente em perigo e precisava ser protegida. O mesmo
é verdade na admoestação de Pedro. A
diferença é que Pedro está-se referindo a um
inimigo “interno” que ataca a alma a partir de dentro. O inimigo
são as paixões carnais que fazem guerra contra a alma
levando uma pessoa a viver somente para satisfazer os apetites
físicos.
Pedro vê a alma, não
como uma entidade imaterial que sobrevive ao corpo por ocasião
da morte, mas como a vida de fé santificada pela
obediência à verdade revelada de Deus. Ele expressa este
ponto de vista na mesma epístola ao dizer: “obtendo o fim da
vossa fé, a salvação das vossas almas [psychê]” (1 Ped. 1:9), “tendo
purificado as vossas almas [psychê],
pela vossa obediência à verdade” (1 Ped. 1:22). Uma vez
que a salvação da alma (vida eterna) é o resultado
de uma vida de fiel obediência à verdade, as
paixões carnais ameaçam a alma (vida eterna) porque levam
uma pessoa a viver de modo infiel e em desobediência à
verdade. Destarte, a antítese entre carne e alma nesta passagem
é ética e não ontológica, ou seja, é
entre uma vida de desobediência (carne) e uma de obediência
(alma). Veremos logo mais que Paulo expressa a mesma antítese
contrastando a carne com o espírito.
Deus
Tem Poder de Destruir a Alma. Esse sentido ampliado do termo
alma-psychê nos ajuda a compreender uma bem-conhecida,
porém muito mal-entendida declaração de Cristo:
“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a
alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma
como o corpo” (Mat. 10:28; cf. Lucas 12:4). Os dualistas encontram
neste texto apoio para o conceito de que alma é uma
substância imaterial que é mantida em segurança e
sobrevive à morte do corpo. Robert Morey, por exemplo, alega que
“Cristo aqui [Mat. 10:28] claramente diz que enquanto podemos matar ou
eliminar a vida física de um corpo, não podemos matar ou
prejudicar a alma, ou seja, o eu transcendente e imaterial, a mente ou
ego. Ele emprega a dicotomia corpo/alma que se acha por toda parte na
Escritura”.14
Essa interpretação
reflete o entendimento dualístico grego da natureza humana e
não o ponto de vista holístico bíblico. A
referência ao poder de Deus de destruir a alma [psychê] e o corpo no inferno
nega a noção de uma alma imortal, imaterial. Como pode a
alma ser imortal se Deus a destrói com o corpo no caso dos
pecadores impenitentes? Oscar Cullmann apropriadamente observa que
“ouvimos na declaração de Jesus em Mateus 10:28 que a
alma pode ser morta. A alma não é imortal”.15
Na discussão precedente
vimos que Cristo expandiu o sentido da alma-psychê para denotar
não somente a vida física, mas também a vida
eterna recebida por aqueles que estão dispostos a assumir um
compromisso sacrifical a Ele. Se este texto for lido à luz do
sentido ampliado dado por Cristo à alma, o significado da
declaração será: “Não temais aqueles que
podem trazer vossa existência terrena (corpo-soma) a um fim, mas não
podem eliminar vossa vida eterna em Deus; mas temais o Deus que
é capaz de destruir vosso ser integral eternamente”.
A
Morte da Alma É Morte Eterna. A advertência de
Cristo dificilmente ensina a imortalidade da alma. Antes, ensina que
Deus pode destruir a alma bem como o corpo. Edward Fudge acentua
acertadamente que “a menos que Jesus esteja fazendo ameaças
à toa, a própria advertência implica que Deus
executará tal sentença sobre aqueles que persistentemente
se rebelam contra Sua autoridade e resistem a toda abertura de
misericórdia”.16 Fudge prossegue declarando: “A
advertência de Nosso Senhor é clara. O poder do homem para
matar detém-se com o corpo e o horizonte da Presente Era. A
morte que o
homem inflige não é final, pois Deus chamará os
mortos da Terra e concederá a imortalidade aos justos. A
habilidade de Deus em matar e destruir não conhece limites.
Atinge mais profundamente do que o físico e vai além do
presente. Deus pode matar o corpo e a alma, tanto agora quanto no
além”.17
Lucas reproduz a
declaração de Cristo omitindo a referência à
alma. “Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada
mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer:
Temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no
inferno” (Lucas 12:4, 5). Lucas omite a palavra alma-psychê, referindo-se, em vez
disso, à pessoa integral que Deus pode destruir no inferno.
É possível que a omissão do termo “alma-psychê” fosse intencional
para impedir um malentendido na mente de leitores gentios acostumados a
pensar na alma como um componente independente e imortal que sobrevive
à morte. Para tornar claro que nada sobrevive
à destruição divina de uma pessoa, Lucas evita
empregar o termo “alma-psychê”
que poderia ser confuso para os seus leitores gentios.
Achamos confirmação
para esta interpretação em Lucas 9:25, onde ele novamente
omite o termo psychê-alma;
“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou
a causar dano a si mesmo [eauton]?”.
Presumivelmente, Lucas empregou aqui o pronome “ele” em lugar de alma-psychê, como empregado em
Marcos 8:36, porque o último, como Edward Schweizer sugere,
“poderia ser mal entendido [pelos leitores gentios] como
punição da alma após a morte”.18 Por
empregar, em vez disso, o pronome “ele”, Lucas indica que Jesus quis
dizer a perda da pessoa inteira.
Quando temos em mente o sentido
ampliado que Cristo faz do termo “alma”, então o sentido de Sua
declaração faz-se clara. Matar o corpo significa tirar a
vida presente de sobre a Terra. Mas isso não mata a alma, ou
seja, a vida eterna recebida por aqueles que aceitaram a
provisão da salvação de Cristo. Tirar a vida
presente significa pôr uma pessoa a dormir, mas uma pessoa
não é finalmente destruída até a segunda
morte, a qual, como veremos, é comparada na Escritura com o
inferno.
O sentido da
declaração de Cristo em Mateus 10:28 é ilustrado
por Suas palavras quanto à filha de Jairo, de que ela não
estava morta, mas dormia (Mat. 9:24). Ela estava de fato morta (“matar
o corpo”), mas, uma vez que iria despertar na
ressurreição, poderia com justiça ser tida por
apenas adormecida. O seu destino final não havia sido ainda
decidido. Do mesmo modo, uma vez que todos os mortos serão
ressuscitados no dia final, ao jazerem em suas sepulturas suas almas,
ou seja, a vida que têm vivido por ou contra Jesus Cristo, ainda
está no aguardo de seu destino final: salvação
eterna para os crentes e destruição eterna do corpo e
alma no inferno, sobre que Jesus advertiu.
A preservação da
alma no ensino de Cristo não é um processo
automático no poder da própria alma, mas um dom de Deus
recebido por aqueles que estão dispostos a sacrificarem sua alma
(a vida presente) por Ele. Esse sentido expandido de alma relaciona-se
intimamente com o caráter ou personalidade de um crente. Pessoas
ou forças malignas podem matar o corpo, a vida física,
mas não podem destruir a alma, o caráter ou personalidade
de um crente. Deus comprometeu-Se a preservar a individualidade,
personalidade, e caráter de cada crente. Por ocasião de
Sua vinda, Cristo ressuscitará aqueles que morreram Nele,
restaurando-lhes a alma, isto é, seu caráter e
personalidade distintos.
A
Alma de Um Corpo Morto. À luz da discussão
precedente, agora consideraremos outra declaração
freqüentemente mal interpretada feita por Paulo quando da
ressurreição de Eutico. Durante uma reunião de
despedida em Troas, onde Paulo falou extensamente, um jovem, chamado
Eutico, caiu em sono profundo, e desabou do terceiro andar, e morreu.
Em Atos 20:10 lemos que “Descendo, porém, Paulo inclinou-se
sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que
a vida nele está”.
Este evento faz paralelo com a
ocasião em que Elias (1 Reis 17:17) e mais tarde Eliseu (2 Reis
4:32-36) deitaram-se sobre uma criança cuja alma [nephesh] a ele retornou. Os
dualistas interpretam esses episódios como indicadores de que a
alma é uma entidade independente que pode retornar após
deixar o corpo. Essa interpretação é desacreditada
por duas destacadas considerações. Primeiro, no caso de
Eutico, Paulo disse, “sua alma [psychê,
VKJ] está nele”, conquanto seu corpo jazesse morto. Isso
significa que Paulo não cria que a alma é uma entidade
imaterial que deixa o corpo por ocasião da morte. A alma ainda
estava em Eutico, não porque não houvesse partido ainda,
mas porque, ao abraçar-se com o jovem, Paulo sentiu que a sua
respiração estava retornando e assim ele recobrava a
vida. Ele era ainda uma alma vivente.
Em segundo lugar, para entender o
que ocorreu no caso de Eutico e da criança ressuscitada por
Elias e Eliseu, precisamos nos lembrar que a Bíblia vê a
morte como uma criação ao reverso. Por ocasião da
criação, o homem se torna uma alma vivente quando o
corpo, feito do pó da terra, começa a respirar em
resultado do soprar divino do fôlego de vida no seu interior. Por
ocasião da morte, uma pessoa cessa de ser uma alma vivente
quando o corpo dá o último suspiro e retorna ao
pó. No caso de Eutico e das crianças, a
respiração deles milagrosamente retornou e assim
fizeram-se novamente almas viventes.
Paulo
e a Alma. Em comparação com o Velho Testamento, ou
mesmo os Evangelhos, o emprego do termo alma-psychê nos escritos de Paulo
é raro. Ele emprega o termo apenas 13 vezes19 (incluindo
citações do Velho Testamento) para referir-se ao corpo
físico (Rom. 11;3; Fil. 2:30; 1 Tess. 2:8), uma pessoa (Rom.
2;9; 13:1), e a sede da vida emocional (Fil. 1:27; Col. 3:23;
Efé. 6:6). É digno de nota que Paulo nunca emprega
psychê-alma para denotar a vida que sobrevive à morte. A
razão poderia ser o temor de Paulo de que o termo psychê-alma pudesse ser
entendido erradamente pelos conversos gentios segundo o ponto de vista
grego da imortalidade inata.
Para assegurar que a nova vida em
Cristo seria vista inteiramente como um dom divino, e não como
uma posse inata, Paulo emprega o termo pneuma-espírito, em lugar de
psychê-alma. Mais tarde
neste capítulo, examinaremos o emprego que Paulo faz do termo
“espírito”. O apóstolo certamente reconhece uma
continuidade entre a vida presente e a ressurreição da
vida, mas uma vez que ele a vê como um dom de Deus e
não como algo encontrado na natureza humana, emprega, em vez
disso, pneuma-espírito.20
Na sua famosa passagem sobre a
ressurreição em 1 Coríntios 15, Paulo demonstra
que emprega alma-psychê
de acordo com o sentido veterotestamentário de vida
física. Ele explica que o primeiro Adão tornou-se “alma
vivente” e o último Adão (Cristo) “espírito [pneuma] vivificante”. Ele aplica a
mesma distinção à diferença entre o corpo
presente e o corpo da ressurreição. Escreve ele:
“Semeia-se corpo natural [psychikon,
“físico”-VKJ] ressuscita corpo espiritual [pneumatikon]”. O presente corpo
é psychikon,
literalmente “almoso” derivado de psychê-alma,
denotando um organismo físico sujeito à lei do pecado e
da morte. O futuro corpo ressurreto é pneumatikon, literalmente
“espiritual”, derivado de pneuma-espírito,
com o sentido de um organismo controlado pelo Espírito de Deus.
O corpo ressurreto é
chamado “espiritual”, não por ser não-físico, mas
por ser governado pelo Espírito Santo, em lugar de impulsos
carnais. Isso se torna evidente quando notamos que Paulo aplica a mesma
distinção entre o natural-psychikos e o espiritual-pneumatikos para com a vida
presente em 1 Coríntios 2:14, 15. Aqui Paulo distingue entre o
homem-psychikos natural, que
não é guiado pelo Espírito de Deus, e o homem
espiritual [pneumatikos], que
é guiado pelo Espírito de Deus.
Nenhuma
Imortalidade Natural. É evidente que para Paulo a
continuidade entre o corpo atual e o futuro deve encontrado, não
no sentido ampliado de alma que encontramos nos evangelhos, mas no
papel do Espírito de Deus que nos renova em novidade de vida
tanto agora quanto por ocasião da ressurreição. Ao
dar enfoque ao papel do Espírito, Paulo nega a imortalidade da
alma. Para ele é muito importante esclarecer que a nova vida do
crente, tanto no presente quanto no futuro, é inteiramente um
dom do Espírito de Deus. Nada há inerentemente imortal na
natureza humana.
A expressão “imortalidade
da alma” não ocorre na Escritura. A palavra grega comumente
traduzida como “imortalidade” em nossas versões em inglês
na Bíblia é athanasia.
Tal termo ocorre somente duas vezes no Novo Testamento, a primeira vez
em ligação com Deus, “o único que possui a
imortalidade” (1 Tim. 6:16). Obviamente, imortalidade aqui significa
mais do que existência infindável. Significa que Deus
é a fonte de vida (João 5:26) e todos os outros seres
recebem vida eterna Dele.
A segunda vez, a palavra
“imortalidade-athanasia”
ocorre em 1 Coríntios 15:53, 54 em relação com a
natureza mortal, que se reveste da imortalidade por ocasião da
ressurreição: “Porque é necessário que este
corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o
corpo mortal se revista da imortalidade [athanasia]. E quando este corpo
corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é
mortal se revestir de imortalidade [athanasia],
então se cumprirá a palavra que está escrita:
Tragada foi a morte pela vitória”. Paulo não está
falando da imortalidade natural da alma, mas da
transformação de mortalidade para imortalidade que os
crentes experimentarão quando Cristo retornar. As
implicações desta passagem são claras: a natureza
humana não é concedida com qualquer forma de imortalidade
natural, porque é perecível e mortal. A imortalidade
não é uma possessão presente; é um dom a
ser concedido aos crentes por ocasião da vinda de Cristo.
Na filosofia de Platão, a
alma é considerada indestrutível, porque partilha de uma
substância eterna incriada que o corpo não possui.
É lamentável que o dualismo platônico cegou a mente
até mesmo de grandes reformadores como Calvino, que chegou ao
ponto de dizer que “dificilmente alguém, exceto Platão,
corretamente afirmou a substância imortal [da alma]”.21
Ele prossegue: “Na verdade, a partir da Escritura temos já
ensinado que a alma é uma substância incorpórea;
agora precisamos acrescentar que, conquanto apropriadamente não
seja espacialmente limitada, contudo, estabelecida no corpo, ali reside
como numa casa; não somente animando todas as partes e tornando
seus órgãos adequados e úteis para suas
ações, mas também pode ocupar o primeiro lugar em
governar a vida do homem, não somente com respeito aos deveres
de sua vida terrena, mas ao mesmo tempo despertá-lo a honrar a
Deus”.22
É difícil crer que
um estudante tão dedicado da Bíblia como Calvino poderia
interpretar tão grosseiramente os ensinos bíblicos
concernentes à natureza humana. Isso serve para nos lembrar
quão facilmente a mente humana pode tornar-se tão
condicionada pelo erro que deixa de discernir a verdade
bíblica. Na Bíblia, a alma não é uma
“substância incorpórea e imortal”, mas vida física
e regenerada, criada e sustida por Deus e Dele dependente para sua
existência.
Não há qualidade
inerente na natureza humana que possa tornar uma pessoa
indestrutível. A Esperança Cristã é
baseada, não na imortalidade da alma, mas na
ressurreição do corpo. Se desejarmos empregar a palavra
“imortalidade” com referência à natureza humana, falemos,
não da imortalidade da alma, mas da imortalidade do corpo (a
pessoa integral) por meio da ressurreição. É a
ressurreição que concede o dom da imortalidade ao corpo,
ou seja, sobre a pessoa do crente.
Alma
Como Aspecto Mortal da Natureza Humana. A
definição paulina do corpo presente como psychikon-físico
(literalmente “almoso”), ou seja, corruptível e mortal,
claramente mostra que ele identifica a alma com o aspecto físico
e mortal de nossa existência humana. Isto está em harmonia
com a visão veterotestamentária da alma-nephesh como o aspecto
físico e mortal da vida. É evidente que a
noção de imortalidade da alma acha-se totalmente ausente
dos ensinos de Paulo e da Bíblia como um todo. Mas essa
definição de alma oferece um problema. Como se pode
conciliar a noção de que os seres humanos são
mortais por natureza com a declaração de Paulo em Romanos
5:12 de que a morte veio a este mundo “pelo pecado”, e não por
causa da natureza física mortal humana?
A solução dessa
aparente contradição deve ser achada no reconhecimento de
que, como declarado por Wheeler Robinson, “Paulo concebia o homem como
sendo mortal por sua natureza original, mas com a possibilidade de
imortalidade; isto, contudo, ele perdeu quando foi expulso do
Éden, e, portanto, da árvore da vida, que nutriria nele a
imortalidade; assim a morte veio mediante o pecado”.23
Paulo não explica como o
homem, mediante a desobediência, perdeu a possibilidade de
tornar-se imortal. Sua preocupação é mostrar como
Cristo nos redimiu da trágica conseqüência do pecado,
a morte. Os ensinos de Paulo, entretanto, dão apoio ao que ele
pode ter visto como duas verdades complementares: a real mortalidade da
natureza humana, por um lado, e a justiça dessa mortalidade como
penalidade pela desobediência humana.
Alma
e Espírito. A distinção entre alma e
espírito aparece em duas outras importantes passagens
neotestamentárias que precisamos considerar brevemente. A
primeira é 1 Tessalonicenses 5:23, e a segunda é Hebreus
4:12. Escrevendo aos tessalonicenses Paulo declara: “O mesmo Deus de
paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo,
sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de
nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tess. 5:23).
Alguns apelam a este texto para
defender o ponto de vista de que o homem foi criado como um ser
tripartite na criação, consistindo de um corpo, uma alma
e um espírito, cada qual como uma entidade separada. Os
católicos reduzem os três em dois fundindo o
espírito com a alma. O novo Catecismo
da Igreja Católica refere-se a este texto para explicar
que “‘espírito’ significa que desde a criação o
homem é disposto a um fim sobrenatural e que sua alma pode
graciosamente ser erguida acima de tudo quanto merece para
comunhão com Deus”.24 Para os católicos, o
espírito e a alma são essencialmente um, porque é
o espírito que cria cada alma como uma entidade espiritual,
imortal. Como o Catecismo expõe: “A Igreja ensina que toda alma
espiritual é criada imediatamente por Deus--não é
‘produzida’ pelos pais--e também é imortal: não
perece quando se separa do corpo por ocasião da morte”.25
Esse ensino católico
tradicional ignora o ponto de vista holístico fundamental da
natureza humana. De acordo com a Bíblia, a alma não
é uma substância imortal que se separa do corpo quando da
morte, mas a vida física e mortal que pode tornar-se imortal
para aqueles que aceitam o dom de Deus da vida eterna. Tornar o
Espírito subserviente à suposta natureza “espiritual” e
imortal da alma significa ignorar que uma função vital do
Espírito de Deus é conceder vida a nossos corpos mortais:
“Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a
Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus
dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos
mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita”
(Rom. 8:11).
Devemos observar, primeiramente,
que 1 Tessalonicenses 5:23 não é uma
declaração doutrinal, mas uma oração. Paulo
ora para que os tessalonicenses possam ser plenamente santificados e
preservados irrepreensíveis até a vinda de Cristo.
É evidente que quando o apóstolo ora para que o
espírito, alma, e corpo dos tessalonicenses sejam preservados
irrepreensíveis não está ele tentando dividir a
natureza humana em três partes, mais do que Jesus quis dividir a
natureza humana em quatro partes quando declarou: “Amarás, pois,
o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Marcos
12:30).
“Espírito,
Alma, e Corpo”. A chave para entender a referência de
Paulo a “espírito, alma, e corpo” em 1 Tessalonicenses 5:23
é o fato de que o apóstolo está-se dirigindo a
cristãos fiéis que, enquanto ainda estão na carne
(corpo), possuem duas naturezas: a natureza adâmica original
recebida por ocasião do nascimento (a alma) e a nova natureza
espiritual criada dentro deles pelo poder capacitador do
Espírito. A natureza adâmica, como vimos anteriormente,
é chamada de “alma-psychê”
e denota os vários aspectos da vida física associados com
a alma na Bíblia. A natureza espiritual é chamada
“espírito” porque é o Espírito de Deus que renova
e transforma a natureza humana. O corpo é, logicamente, a parte
exterior, visível da pessoa.
A oração de Paulo
pelos tessalonicenses para manterem sua “alma-psychê” irrepreensível
e íntegra para a vinda de Cristo significa que eles não
deviam viver somente para a vida física (Mat. 6:25; Atos 20:24),
que é ameaçada pela morte, mas também pela vida
superior, eterna que transcende a morte. Semelhantemente, a
oração de Paulo para que os tessalonicenses mantenham
seus corpos saudáveis e irrepreensíveis significa que
não deviam dar satisfação “à
concupiscência da carne” (Gál. 5:16) ou produzir “as obras
da carne” tais como fornicação, impureza, e
lascívia (Gál. 5:19).
Finalmente, a oração
de Paulo para que eles mantenham seu espírito íntegro e
irrepreensível significa que seriam conduzidos pelo
Espírito (Gál. 5:18) e produziriam “o fruto do
Espírito” como amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade,
fidelidade (Gál. 5:22). Destarte, a oração de
Paulo para que os tessalonicenses conservem o corpo, alma e
espírito íntegros e irrepreensíveis não tem
intenção de alistar os componentes estruturais da
natureza humana, mas realçar o estilo de vida integral daqueles
que aguardam a vinda de Cristo. A distinção entre os
três é ética, e não ontológica.
O segundo texto em que o mesmo
contraste aparece entre alma e espírito se acha em Hebreus 4:12:
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do
que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de
dividir alma [psychê] e
espírito [pneuma],
juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e
propósitos do coração”. A questão aqui
é se a Palavra de Deus separa a alma e espírito ou se
penetra ambos. Edward Schweizer acertadamente observa que “uma vez que
é difícil imaginar a divisão de juntas e medulas,
o texto está provavelmente dizendo que a Palavra penetrou o pneuma [espírito] e a psychê [alma] como o fez com
juntas e medulas”.26
Tendo em mente que a alma e o
espírito denotam, respectivamente, os aspectos físicos e
espirituais da vida humana, o texto declara que a Palavra de Deus
penetra e escrutiniza toda a existência humana, mesmo os mais
íntimos recessos de nosso ser. O estudo da Escritura nos revela
se nossos desejos, aspirações, emoções e
pensamentos são inspirados pelo Espírito de Deus ou por
considerações carnais egoístas. O texto
simplesmente diz que a Palavra de Deus penetra-nos o íntimo de
modo a trazer à luz os motivos secretos de nossas
ações.
De certo modo esta passagem corre
paralelamente ao que Paulo declara em 1 Coríntios 4:5: “O Senhor
. . . não somente trará à plena luz as coisas
ocultas das trevas, mas também manifestará os
desígnios dos corações”. Portanto, ninguém
tem razão para interpretar Hebreus 4:12 como ensinando uma
distinção estrutural na natureza humana entre a alma e o
espírito.
As passagens acima que
distinguem entre alma e espírito nada
têm a dizer com respeito à imortalidade da alma. Elas
não sugerem que um membro do par poderia sobreviver separado do
outro por ocasião da morte, ou que se refiram a
substâncias diferentes. Pelo contrário, o papel do
Espírito de Deus como o agente de renovação moral
nesta vida presente e da ressurreição para a vida eterna
ao final nega a noção de imortalidade da alma porque a
única imortalidade é a que nos é concedida pelo
Espírito de Deus ao final.
A
Alma Como Lugar de Sentimento e Raciocínio. A
discussão precedente demonstrou que o termo “alma-psychê” é geralmente
empregado no Novo Testamento para denotar a vida física que pode
tornar-se vida eterna quando vivida pela fé por causa de
Cristo. Poucos exemplos existem em que o termo alma-psychê
é usado como o centro de sentimento e a fonte dos pensamentos e
ações. Os cristãos de Antioquia estavam
perturbados com falsas instruções procedentes de pessoas
que estavam “transtornando as vossas almas” (Atos 15:24). Aqui a “alma-psychê” refere-se à
mente dos crentes que estavam confusos por instruções
desorientadoras.
Um uso semelhante do termo se acha
em João 10:24 onde os judeus perguntam a Jesus: “Até
quando nos deixarás a mente [“alma-psychê”-VKJ] em suspenso? Se
tu és o Cristo, dize-o francamente”. Aqui a “alma-psychê” é a mente com
que decisões são feitas em favor ou contra Cristo. A alma
como mente pode ser influenciada para o bem, como também para o
mal. Portanto, lemos que Paulo e Barnabé estavam em Antioquia
“fortalecendo as almas-psychê
dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé”
(Atos 14:22). Neste caso, as almas são as pessoas que eram
influenciadas e movidas em pensamento e sentimento.
Em Lucas encontramos um exemplo
interessante em que “alma” refere-se tanto a atividades físicas
quanto psíquicas. O homem rico cuja terra havia produzido em
abundância, assim se expressou: “Então direi à
minha alma”-psychê: Tens
em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe,
e regala-te (12:19). Embora aqui a ênfase seja sobre o
aspecto físico da vida, tal como o comer, beber e alegrar-se, o
fato de que a alma expressa satisfação sugere uma
função física. No verso seguinte, Deus pronuncia o
Seu juízo sobre tal alma satisfeita: “Mas Deus lhe disse: Louco,
esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:20). O texto sugere
que a vida ou morte da alma será, por fim, o dom ou a
punição da parte de Deus.
Todos os evangelhos
sinópticos relatam a famosa declaração de Cristo
onde a alma é empregada como um perfeito paralelo do
coração: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo
o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu
entendimento e de toda a tua força” (Marcos 12:30; cf. Mateus
22:37; Lucas 10:37). Nessa declaração, citada de
Deuteronômio 6:5, o coração, alma, mente e
força são cada qual empregadas para expressar o
amorável comprometimento emocional e racional para com Deus.
Conclusão.
Nossa pesquisa do emprego neotestamentário do termo “alma-psychê” indica que não
há suporte para a noção da alma como uma entidade
imaterial e imortal que sobrevive à morte do corpo. Nada
há na palavra psychê-alma que mesmo remotamente deixe
implícita uma entidade consciente capaz de sobreviver à
morte do corpo. Não só deixa o Novo Testamento de
endossar a noção de imortalidade da alma, como
também claramente mostra que a alma-psychê denota a vida
física, emocional e espiritual. A alma é a pessoa como um
ser vivo, com sua personalidade, apetites, emoções e
habilidades racionais. A alma descreve a pessoa integral como viva e,
assim, inseparável do corpo.
Descobrimos que apesar de Cristo
ter expandido o sentido de alma-psychê
para incluir o dom da vida eterna recebida por aqueles que estão
dispostos a sacrificar sua vida terrena por Ele, nunca sugeriu que a
alma é uma entidade imaterial, imortal. Pelo contrário,
Jesus ensinou que Deus pode destruir a alma, bem como o corpo (Mat.
10:28) dos pecadores impenitentes.
Paulo jamais emprega o termo “alma-psychê”
para denotar a vida que sobrevive à morte. Em vez disso, ele
identifica a alma com nosso organismo físico (psychikon) que está sujeito
à lei do pecado e da morte (1 Cor. 15:44). Para assegurar que
seus conversos gentios entendam que nada é inerentemente imortal
na natureza humana, Paulo emprega o termo “espírito-pneuma” para descrever a nova vida
em Cristo que o crente recebe inteiramente como um dom do
Espírito de Deus tanto agora quanto na
ressurreição.
PARTE II: A
NATUREZA HUMANA COMO ESPÍRITO
O estudo precedente do ponto de
vista neotestamentário da alma-psychê
humana revelou como Cristo expandiu o sentido do Velho Testamento de nephesh como vida física
para incluir também o dom da vida eterna. O que é
verdadeiro para a alma humana o é também em muitas
maneiras para o espírito humano. A vinda de Cristo contribuiu
para revelar o sentido e função mais amplos do
espírito-ruach na
redenção do homem, segundo o Velho Testamento. O
significado de espírito-pneuma
como princípio de vida é ampliado para incluir o
princípio de nova vida de regeneração moral
tornada possível mediante a redenção em Cristo.
O espírito-pneuma
é em grande medida
sinônimo de psychê,
sendo ambas as palavras freqüentemente usadas intercambiavelmente
no Novo e Velho Testamentos. Entretanto, parece haver uma
diferença entre ambas. “Espírito” é com
freqüência empregada para Deus enquanto “alma” nunca
é usada assim. A utilização das duas palavras no
geral sugere que “espírito” representa sobretudo a
orientação de uma pessoa no que respeita a Deus, enquanto
a “alma” constitui a orientação de uma pessoa para com os
seus semelhantes. Definindo de modo diverso, a alma geralmente descreve
o aspecto físico da existência humana, enquanto o
espírito denota o aspecto espiritual da existência humana
(o eu interior) que traduz a relação de uma pessoa com o
mundo da eternidade. Para apreciar o sentido e função
neotestamentários do espírito-pneuma na natureza humana, é
importante primeiro compreender o papel do Espírito na vida e
ministério de Cristo.
Cristo,
o Homem do Espírito. O Novo Testamento em algum sentido
real identifica a Cristo com o Espírito na obra da
salvação. Como o segundo Adão, Cristo tornou-se um
“espírito vivificante” (1 Cor. 14:45). O Espírito de Deus
torna-se o Espírito de Cristo: “enviou Deus aos nossos
corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba,
Pai” (Gál. 4:6). O “Espírito de Deus” habitando nos
crentes é visto intercambiavelmente com o “Espírito de
Cristo” em Romanos 8: 9, 10. O Espírito é tão
identificado com a vida e ministério de Cristo que Paulo pode
declarar: “O Senhor é Espírito” (2 Cor. 3:17).
O Espírito que habita em
Cristo também habita na pessoa que está “em Cristo” (Rom.
8:2). “O próprio Espírito testifica com o nosso
espírito que somos filhos de Deus” (Rom. 8:16). O efeito
imediato da redenção é a concessão do
Espírito “. . . que habita convosco e está em vós”
(João 14:17). O Espírito que habita num crente não
é uma alma imortal destacável, mas um poder divino que
regenera a vida presente, tornando a pessoa uma nova criatura (Rom.
7:6; Gál. 6:8).
Cristo
é o Homem do Espírito por Excelência. Ele
foi concebido pelo Espírito Santo (Mat. 1: 18, 20; Luc. 1:35).
Quando do Seu batismo o Espírito Santo desceu sobre Ele na forma
de uma pomba (Mar. 1:10; Atos 10:38). Após Seu batismo, Cristo
“foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto” (Luc. 4: 1, 2). No
Espírito, Ele confrontou o diabo no deserto (Mat. 4:1). Mais
tarde “Jesus, no poder do Espírito, regressou para a
Galiléia” (Luc. 4:14). Em Seu discurso inaugural, apresentado na
sinagoga de Nazaré, Cristo aplicou a Si a predição
de Isaías da unção do Messias pelo Espírito
Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me
ungiu para evangelizar aos pobres. . . . Hoje se cumpriu a Escritura
que acabais de ouvir” (Luc. 4: 18, 21). Capacitado pelo Espírito
Santo, Cristo “andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os
oprimidos do diabo” (Atos 10:38).
O
Espírito de Deus e o Espírito Humano. Como o
Espírito de Deus, mediado através de Cristo, se relaciona
com o espírito humano? Qual é a relação
entre o espírito como princípio animador de vida,
presente em toda pessoa vivente, e o Espírito como
princípio regenerador da vida moral ativa na vida dos
crentes? A resposta a estas indagações se encontra
no reconhecimento de que tanto os aspectos físico e
moral-espiritual da vida precisam do Espírito para sua
existência. É por ser o homem um ser vivente animado pelo
sopro do Espírito de Deus que ele é capaz de receber o
Espírito Santo.
No Velho Testamento encontramos
numerosos textos segundo os quais o espírito-ruach é o
fôlego de Deus que concede e sustém a vida humana. A mesma
função do espírito-pneuma é expressa no Novo
Testamento. Por exemplo, Tiago diz: “Porque assim como o corpo sem
espírito é morto, assim também a fé sem
obras é morta” (Tiago 2:26). Semelhantemente, Apocalipse 11:11
fala do espírito-pneuma
de vida que entrou nos corpos mortos e eles reviveram e se ergueram.
Destarte, todo ser humano tem o espírito transmissor de vida da
parte de Deus dentro em si. Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo,
“voltou-lhe o espírito, ela imediatamente se levantou” (Luc.
8:55). Já fizemos notar que o espírito que retornou era o
fôlego de vida de Deus que fez a garota uma pessoa vivente outra
vez.
O espírito como
princípio da vida física finalmente chegou a significar a
fonte da vida psíquica, racional. Assim, o termo espírito
é empregado para representar a sede do pensamento, sentimento e
raciocínio, a disposição interior ou
caráter do crente. Isso dá conta de muitos empregos do
termo “espírito” tanto no Velho quanto no Novo Testamento. “O
espírito do homem é agitado (Ez. 2:2), ou perturbado
(Gên. 41:8); regozija-se (Luc. 1:47), ou é quebrantado
(Êxo. 6:9); prontifica-se (Mat. 26:41), ou é endurecido
(Deut. 2:30). Um homem pode ser paciente em espírito (Ecl. 7:8),
altivo de espírito ou pobre de espírito (Mat. 5:3). A
necessidade de governar o espírito é declarada (Prov.
25:28). É o espírito do homem que busca a Deus (Isa.
26:9), e ao espírito do homem é que o Espírito de
Deus
habitando no íntimo dá testemunho (Rom. 8:16)”.27
A Atividade do Espírito na
Humanidade.
Sendo que o espírito-pneuma
é o verdadeiro eu interior de uma pessoa, é com o
espírito que um crente serve a Deus (Rom. 1:9). Uma pessoa com o
espírito é capaz de desfrutar comunhão com Deus (1
Cor. 6:17). A oração e a profecia são
exercícios do espírito humano (1 Cor. 14:32). A
graça de Deus é concedida sobre o crente na esfera do
espírito (Gál. 6:18). A renovação é
experimentada no espírito (Efé. 4:23). Mediante o
Espírito, Deus testemunha ao espírito dos crentes de que
são filhos de Deus (Rom. 8:16).
Tanto os aspectos físico e
psíquico da vida precisam do espírito para sua
existência, e assim o termo razoavelmente pode ser aplicado tanto
ao princípio geral da vida física quanto ao
princípio regenerador da vida moral. A nova natureza é
certamente um novo princípio de vida, mas é um
princípio essencialmente da vida moral que se manifesta numa
santa disposição de caráter. É
difícil estabelecer o exato relacionamento entre o
espírito como princípio de vida e o espírito como
princípio regenerador da vida moral.
Por exemplo, algumas passagens em
Romanos 8 tornam difícil decidir se o termo “Espírito”
deve ser escrito com “E” maiúsculo para designar o
Espírito Santo, ou com um “e” minúsculo quando
referindo-se ao espírito humano redimido e renovado. Talvez
Paulo tencionava permitir-nos ler suas palavras de qualquer desses
modos. Os versos 5 a 9 não perdem nada de seu profundo
significado se esse intercâmbio é permitido. “Os que se
inclinam para a carne cogitam das cousas da carne; mas os que se
inclinam para o Espírito, das cousas do Espírito” (vs
5.). “Vós, porém, não estais na carne, mas no
Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em
vós” (vs. 9).
A ligação entre os
dois parece ser encontrada no fato de que o espírito que toda
pessoa possui como um princípio transmissor de vida capacita os
crentes a serem receptivos e responsivos à
operação do Espírito Santo em sua vida. Noutras
palavras, é o espírito como sede da vida psíquica
e racional (o eu interior) , com o qual Deus capacitou cada pessoa, que
torna possível ao Espírito de Deus habitar nos seres
humanos. W. D. Stacey destaca este aspecto ao dizer: “Todos os homens
têm pneuma [o
espírito] desde o nascimento, mas o pneuma [espírito]
cristão, em comunhão com o Espírito de Deus,
adquire um novo caráter e uma nova dignidade (Rom. 8:10)”.28
O
Espírito Humano Capaz de Receber o Espírito de Deus.
O espírito humano não tem poder para regenerar-se.
Não é uma faísca divina que pode ser avivada como
uma chama de fogo. Antes, é uma capacidade que Deus concedeu a
toda pessoa para experimentar o poder regenerador de Seu
Espírito. Quando uma pessoa é nascida de novo pelo
Espírito de Deus, sua natureza “natural” (psychikos) torna-se “espiritual” (pneumatikos) (1 Cor. 2:14, 15).
O espírito humano que
é obediente a Deus experimenta o poder do Espírito de
Deus que guia e transforma. Comunhão com Deus é
conseguida pelo espírito humano mediante o Espírito de
Deus. Claude Tresmontant descreve essa função do
espírito-pneuma: “O
espírito do homem, seu pneuma,
é aquilo que dentro dele lhe permite um encontro com o Pneuma [Espírito] de Deus.
É a parte de um homem que pode entrar em diálogo com o
Espírito de Deus, não como um estranho, mas como um
filho: ‘O próprio Espírito testifica com o nosso
espírito que somos filhos de Deus’ (Rom. 8:16)”.29
O espírito humano capacita uma pessoa a servir a Deus: “Porque
Deus, a quem sirvo em meu espírito-pneuma, no evangelho de seu Filho .
. ”. (Rom. 1:9). A sentença “sirvo em meu espírito”
sugere que o espírito é uma capacidade mental e volitiva
que capacita uma pessoa a servir a Deus. Poderíamos dizer que o
espírito humano foi designado por Deus para unir-se com o
Espírito Santo. Em razão de ser o homem espírito-pneuma, significando um ser vivo
animado pelo fôlego do Espírito de Deus (ruach-pneuma), que é capaz de
receber o Espírito-pneuma
Santo e assim chegar a um relacionamento íntimo e vivo com Deus.
Henry Barclay Swete explica a
orientação humana para com o Espírito Santo: “O
Espírito Santo não cria o ‘espírito’ no homem;
está potencialmente presente em todo homem, mesmo se
rudimentarmente e não desenvolvido. Todo ser humano tem
afinidades com o espiritual e eterno. Em cada indivíduo da
raça o espírito do homem que está nele (1 Cor.
2:11) responde ao Espírito de Deus, na medida em que o finito
pode corresponder-se com o infinito; . . . Mas conquanto o
Espírito de Deus encontre no homem uma natureza espiritual em
que pode operar, o espírito humano se acha numa
condição tão imperfeita e depravada que uma
completa renovação, mesmo recriação, se faz
necessária (2 Cor. 5:17)”.30
Permitir ao Espírito de
Deus renovar e transformar nossa vida não é renunciar a
nossa própria personalidade, mas trazê-la submissa. Em
harmonia com o Velho Testamento, o Novo Testamento vê a natureza
humana holisticamente, onde o corpo, alma, e espírito são
partes integrais do mesmo ser. O espírito é uma
força, inseparável do fôlego e da vida (Lucas 8:55;
23:46) que renova a mente (Efé. 4:23) e capacita uma pessoa a
tornar-se uma nova criatura, “e vos revistais do novo homem, criado
segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da
verdade” (Efé. 4:24).
O
Espírito Como Renascimento Espiritual. O Espírito
de Deus é o agente ativo da criação e
recriação. Vimos que no Velho Testamento a
criação do homem é atribuída ao
Espírito de Deus. O homem existe como alma vivente por causa do
fôlego de Deus (Gên. 2:7). A recriação na
ordem moral é também a obra do Espírito. Somos
lembrados da visão dos ossos secos de Ezequiel que retornaram
à existência mediante o Espírito de Deus. Os ossos
secos, que representam “toda a casa de Israel” (Eze. 37:14) em sua
condição foi trazida de volta à vida, ou seja, ao
renascimento espiritual pelo Espírito de Deus: “Porei em
vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei
na vossa própria terra. Então sabereis que eu, o Senhor,
disse isto, e o fiz, diz o Senhor” (Eze. 37:14).
No Novo Testamento, a
transformação moral realizada pelo Espírito Santo
é descrita mais completamente do que no Velho Testamento, de
modo
especial nos escritos de João e Paulo. Os dois apóstolos
descrevem este processo em formas diferentes, contudo complementares.
João concebe a transformação moral interior como
renascimento e Paulo como nova criação. As duas
metáforas, como veremos, são complementares, cada uma
designada a ajudar-nos a compreender a nova vida operada pelo
Espírito Santo.
No Evangelho de João, Jesus
compara a transformação moral realizada pelo
Espírito Santo a um renascimento. Falando a Nicodemos, Jesus
diz: “Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da
água e do Espírito, não pode entrar no reino de
Deus” (João 3:5). Ser nascido do Espírito é
contrastado com ser nascido da carne: “O que é nascido da carne,
é carne; e o que é nascido do Espírito, é
espírito” (João 3:6). O nascimento físico
está de acordo com a carne (kata
sarka), colocando uma pessoa num nível horizontal de
existência natural. O nascimento espiritual é “de cima”
(João 3:3) pelo Espírito, colocando uma pessoa num
nível vertical de existência pelo poder habilitador do
Espírito.
Na noite de Sua
ressurreição Jesus “soprou sobre eles [os
discípulos], e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”
(João 20:22). Essa ação, que assinalou a
recriação dos discípulos, faz paralelo à
primeira criação do homem, quando Deus soprou-lhe o
fôlego de vida. A criação e
recriação, nascimento e renascimento, são atos do
Espírito, porque, como Jesus explicou, “espírito é
o que vivifica” (João 6:63). Isto é verdade tanto no que
tange à vida física quanto espiritual.
O Espírito é a fonte
imediata de vida mediada através de Cristo. “Se alguém
tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura,
do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse
com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele
cressem; pois o Espírito até esse momento não fora
dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado”
(João 7:37-39). Cristo é a fonte meritória do
Espírito, porque mediante Seu sacrifício
expiatório Ele pode conceder o Seu Espírito transmissor
de vida ao crente. É por isso que Paulo fala do “Espírito
da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Rom.
8:2).
Sumariando, podemos dizer que
conquanto João não mencione o espírito do homem
como tal, ele o visualiza como cumprido e realizado pelo
Espírito mediante o qual Cristo concede nova vida, um
renascimento espiritual, ao crente. Em certo sentido, o significado
último do fôlego de Deus como fonte da vida física
é revelado e cumprido na nova vida tornada possível pelo
“Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2). Em parte alguma
João identifica o Espírito transmissor de vida com uma
alma imaterial, imortal, capaz de destacar-se do corpo. A
função do espírito é simplesmente operar um
renascimento espiritual, isto é, uma transformação
moral da pessoa inteira do crente. Não há dualismo em
João entre um corpo material, mortal, e uma alma espiritual,
imortal, porque o Espírito traz vida nova à pessoa
integral.
O
Espírito Como Nova Criação. Paulo descreve
a transformação moral realizada pelo Espírito,
não como um renascimento, mas como uma “nova
criação” (2 Cor. 5:17; cf. 1 Cor. 6:11; Gál. 3:27;
6:15; Efé. 4:24). As duas metáforas cobrem essencialmente
a mesma idéia. Paulo atribui importância vital ao papel do
Espírito na vida do crente. Isto é indicado pelo fato de
que em suas cartas ele se refere ao espirito 146 vezes, em
comparação com somente 13 referências à
alma. Wheeler Robinson corretamente afirma que pneuma-espírito é “a
palavra mais importante no vocabulário psicológico de
Paulo, talvez em seu vocabulário como um todo”.31 A
razão é que Paulo está preocupado em mostrar que
salvação é exclusivamente um divino dom de
graça mediado pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus”
(Rom. 8:2), e não a posse natural de uma alma imortal.
Salvação não
é a remoção do espírito ou da alma do corpo
ou do mundo em que o corpo vive, mas uma renovação do
corpo mediante o poder capacitador do Espírito. Portanto, a
descrição de Paulo da vida cristã é em
grande medida feita em termos do poder capacitador do Espírito
para o crente viver segundo a vontade revelada de Deus. O
apóstolo explica que Cristo veio “a fim de que o preceito da lei
se cumprisse em nós que não andamos segundo a carne, mas
segundo o Espírito” (Rom. 8:4).
Andar segundo o Espírito
significa pôr a mente nas “coisas do Espírito” (Rom. 8:5),
ou seja, viver em conformidade com os princípios de vida que
Deus revelou, em vez de sê-lo de acordo com os desejos da carne.
“Andai no Espírito, e jamais satisfareis à
concupiscência da carne” (Gál. 5:16). Caminhar segundo a
carne (kata sarka) significa
cumprir “as obras da carne” tais como “prostituição,
impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades,
porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões,
facções, invejas, bebedices, glutonarias, e cousas
semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como
já outrora vos preveni, que não herdarão o reino
de Deus os que tais cousa praticam” (Gál. 5: 19, 20). Em
contraste, caminhar segundo o espírito (kata pneuma) significa
produzir “o fruto do Espírito”, representado por “amor,
alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,
mansidão, domínio próprio” (Gál. 5:22, 23).
Os efeitos da nova
criação exercidos na vida do crente pelo Espírito
Santo são manifestos especialmente num relacionamento de
filiação; numa fé e esperança
inabaláveis; num ardente amor pelos irmãos; e num ousado
testemunho por Cristo. Mediante o Espírito, tornamo-nos membros
da família de Deus. “E porque vós sois filhos, enviou
Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho,
que clama: Aba, Pai” (Gál. 4:6).
O Espírito instila no
crente fé e esperança em Cristo. “E o Deus da
esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que
sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo”
(Rom. 15:13; cf. Gál. 3:14; 5:5). A nova vida do Espírito
é manifesta especialmente no espírito de amor fraternal
que flui de Cristo para a vida do crente. “Ora, a esperança
não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos
corações pelo Espírito Santo, que nos foi
outorgado” (Rom. 5:5; cf. 15:30; Col. 1:8; 2 Cor. 6:6). O
Espírito comunica força para sofrer por causa de Cristo.
“Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque
sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus”
(1 Ped. 4:14).
Finalmente, o Espírito
é a miraculosa força comunicadora de vida da terceira
Pessoa da Divindade que operará a ressurreição do
corpo. “Se habita em vós o Espírito daquele que
ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a
Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os
vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em
vós habita” (Rom. 8:11; cr. 1 Cor. 6:14; 2 Cor. 3:6; Gál.
6:8). Tal como o Espírito esteve em operação na
primeira criação (Gên. 2:7), assim estará na
ressurreição final. No capítulo 4 vemos que a
Bíblia em parte alguma sugere que o corpo ressuscitado
será religado a uma alma desincorporada. Em vez disso, a
Bíblia ensina que este corpo terreno será ressuscitado
num “corpo espiritual-pneumatikos”
(1 Cor. 15:44), ou seja, uma pessoa inteiramente dominada pela
força-vital do espírito divino.
A
Carne e o Espírito. O contraste que Paulo faz entre a
carne e o Espírito tem levado muitos a crer que o
apóstolo distingue entre o corpo material, mortal e a alma
imortal, espiritual.32 Essa interpretação
ignora o fato de que a antítese paulina entre a carne e o
espírito não é uma dualidade de substâncias
metafísicas, mas um contraste de orientação
ética-religiosa.
O contraste mais acentuado
entre carne e espírito acha-se na
primeira parte de Romanos 8. Aqui Paulo contrasta destacadamente os que
vivem “segundo a carne” com os que vivem “segundo o Espírito”.
“Porque os que se inclinam para a carne cogitam das cousas da carne;
mas os que se inclinam para o Espírito, das cousas do
Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o
do Espírito, para a vida e paz” (Rom. 8:5, 6).
A primeira coisa a assinalar nesta
e em passagens semelhantes (Gál. 5:16-26) é que Paulo
nunca emprega as palavras gregas para “corpo” e “alma” (soma e psychê). Em vez disso, ele
sempre emprega um conjunto diferente de termos, como sejam, sarx e pneuma que são traduzidos
como “carne” e “espírito”. Se Paulo tivesse em mente
realçar a distinção entre o corpo mortal e a alma
imortal, ele teria usado as palavras gregas soma (corpo) e psychê (alma) que eram
padrão na doutrina dualística grega. Mas o que Paulo
tinha em mente era algo inteiramente diferente, em
conseqüência, ele emprega um conjunto diferente de palavras
para expressá-lo.
Não pode haver
dúvida de que para Paulo “a carne” e “o Espírito”
representam, não duas partes separadas e opostas da natureza
humana, mas duas diferentes orientações éticas.
Isso se faz claro quando se compara sua lista das “obras da carne”
(Gál. 5:19, 20) com o “fruto do Espírito” (Gál.
5:22, 23). Aqui novamente as duas listas mostram que “carne” e
“Espírito” representam, não duas partes separadas e
opostas da natureza humana, mas dois tipos diferentes de estilo de
vida. Os pecados atribuídos à carne, tais como
“idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes,
iras, discórdias, dissensões, facções,
invejas” nada têm a ver com impulsos físicos. “Poderiam
muito bem ser praticados por um espírito desincorporado”.33
Charles Davis claramente
expõe o significado bíblico de carne e espírito,
dizendo: “Ele [Paulo] é plenamente hebreu em sua
cosmovisão; ele via o homem simplesmente como uma unidade.
Conseqüentemente, sua antítese de carne (sarx) e espírito (pneuma) não constitui uma
oposição entre matéria e espírito, entre
corpo e alma. ‘Carne’ não é parte do homem; mas o homem
integral em sua fraqueza e mortalidade, em seu distanciamento de Deus,
em sua solidariedade com a criação corrupta e pecaminosa.
‘Espírito’ é o homem como aberto à vida divina e
como pertencendo à esfera do divino, o homem sob a
influência e atividade do Espírito. Carne e
espírito são dois princípios ativos que afetam o
homem e estão em luta dentro dele”.34
Numa linha semelhante de
pensamento, George Eldon Ladd escreve que “carne” refere-se ao homem
“como um todo, visto em suas falhas, oposto a Deus. Esse emprego
é um desenvolvimento natural do emprego
veterotestamentário de basar [carne], que é o homem visto
em sua fragilidade e fraqueza perante Deus. Quando isto é
aplicado ao reino ético, torna-se o homem em sua fraqueza
ética, isto é, a pecaminosidade perante Deus. Sarx [carne] representa, não
uma parte do homem, mas o homem como um todo--não regenerado,
caído, pecaminoso”.35
Carne e Espírito
representam respectivamente o poder da morte e o poder da vida que
podem operar dentro de uma pessoa. Oscar Cullmann oferece esta
iluminadora comparação entre ambas: “‘Carne’ é o
poder do pecado ou o poder da morte. Abrange o homem exterior e
interior conjuntamente. Espírito (pneuma) é o seu grande
antagonista: Carne e espírito são poderes ativos, e como
tal operam dentro de nós. A carne, o poder da morte, entrou no
homem com o pecado de Adão. Entrou no homem
completo, interior e exterior, de tal modo que está bem
intimamente ligado com o corpo. O homem interior acha-se menos ligado
à carne; conquanto mediante a culpa este poder da morte tenha se
apossado mais e mais do homem interior. O espírito, por outro
lado, é o grande poder de vida, o elemento da
ressurreição; o poder de Deus da criação
nos é dado mediante o Espírito Santo”.36 O
poder animador do Espírito Santo é manifesto nesta vida
presente em nosso “homem interior [que] se renova de dia em dia” (2
Cor. 4:16) pelo poder transformador do Espírito
(Efé. 4:23, 24).
A
Carne Como Natureza Pecaminosa Humana. A carne-sarx representa a natureza humana
não-regenerada, pecaminosa, mas não porque o pecado
reside na natureza humana do corpo, em vez de sê-lo na natureza
“espiritual” da alma. Afinal de contas, o corpo de carne é o
templo do Espírito (1 Cor. 6:9), um membro de Cristo (1 Cor.
6:15), e um meio de glorificar a Deus (1 Cor. 6:20). A razão por
que a carne-sarx representa a
natureza humana caída e pecaminosa é que ela representa a
fragilidade humana que pode tornar-se um instrumento do pecado.
O sentido de “carne”, com o
significado de “mundo”, é ambivalente em Paulo como na
Bíblia em geral. A carne e o mundo, como criados por Deus para o
apropriado desfrute da humanidade, são bons (Gên. 1:18,
21, 25, 31). Mas quando a carne e o mundo negam sua
condição de coisas criadas por Deus contra Ele se rebelam
reivindicando independência e auto-suficiência,
então tornam-se maus.É nesse sentido que carne (natureza
carnal) e mundanismo são sinônimos de pecaminosidade.
Poderíamos dizer que “a carne-sarx”
é neutra quando se refere à vida de uma pessoa no mundo,
mas designa a pecaminosidade quando se descreve uma pessoa vivendo para
o mundo e permitindo que o mundo governe toda a sua vida e conduta.
É evidente, portanto, que a
antítese entre “a carne” e “o Espírito” nada tem a ver
com o dualismo corpo-alma. A carne por si mesma não representa a
parte da natureza humana (o corpo) que se alega ser má, e o
espírito não representa a parte da natureza humana que
supostamente é boa (a alma). Quando empregadas numa forma
negativa, “a carne” significa o tipo de pessoa em quem a vida inteira,
tanto física quanto psíquica, está fora do rumo,
centralizada sobre o eu, antes que sobre Deus. Semelhantemente, “o
espírito” representa não meramente a parte espiritual da
natureza humana, mas o tipo de pessoa em quem a vida integral, tanto
física quanto psíquica, é dirigida a Deus antes
que ao eu. O contraste entre “carne” e “espírito” é
ético, não ontológico.
É lamentável que
muitos tenham entendido errado a Paulo neste ponto. A razão para
isto é a falha em entender que para Paulo, e para a
Bíblia como um todo, o que corrompe uma pessoa não
é o corpo ou a carne, mas o pecado. A carne pode tornar-se um
instrumento do pecado, e como tal afeta o corpo e a alma, tal como sua
contrapartida, o Espírito, transforma o corpo e a alma.37
“O inimigo derradeiro do Espírito de Deus não é a
carne, mas o pecado, do qual a carne se tornou o instrumento fraco e
corrupto”.38
Conclusão.
Nosso estudo do emprego neotestamentário do termo
“espírito-pneuma”
revelou que o espírito, à semelhança da alma,
não é um componente espiritual independente da natureza
humana que opera à parte do corpo. Pelo contrário, o
espírito é o princípio de vida que anima o corpo
físico e regenera a pessoa integral.
Descobrimos que o significado e
função do Espírito expandem-se com a vinda de
Cristo, que é identificado com o Espírito na obra da
salvação. O significado do espírito-pneuma como um princípio de
vida é expandido para incluir o novo princípio de vida de
regeneração moral, tornado possível mediante a
redenção de Cristo. O Espírito sustém tanto
os aspectos da vida física quanto moral-espiritual.
A transformação
moral realizada pelo Espírito Santo é descrita mais
plenamente no Novo Testamento do que no Velho Testamento. João e
Paulo descrevem este processo com duas metáforas diferentes,
contudo complementares. João concebe a
transformação moral interior como renascimento; Paulo,
como nova criação.
O “Espírito-pneuma”
é a palavra mais
importante do vocabulário de Paulo porque serve para mostrar que
a salvação é exclusivamente um dom divino de
graça mediado pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus”
(Rom. 8:2), e não a posse natural de uma alma imortal. Em parte
alguma o Novo Testamento identifica o Espírito comunicador de
vida com uma alma imaterial, imortal, capaz de separar-se do corpo.
A função do
Espírito não é suster uma alma imortal,
espiritual, mas suster tanto a vida física quanto espiritual.
Tanto a criação quanto a recriação,
nascimento e renascimento, são ações do
Espírito, porque, como Jesus explicou, “é o
Espírito que dá vida” (João 6:63).
A antítese paulina entre “a
carne” e “o Espírito” nada tem a ver com o dualismo corpo-alma.
Os dois representam, não partes separadas e opostas da natureza
humana, mas duas orientações éticas diferentes de
uma pessoa: viver uma vida centralizada no eu versus viver uma vida
centralizada em Deus. Em suma, podemos dizer que o espírito,
à semelhança da alma, descreve, não uma entidade
separada da natureza humana, mas um aspecto da totalidade dessa
natureza.
PARTE III: A
NATUREZA HUMANA COMO CORPO
O sentido de corpo-soma ou de
carne-sarx no Novo Testamento
é
semelhante às palavras correspondentes do Velho Testamento
(corpo-geviyyah e carne-bashar), examinadas no
capítulo anterior. Em seu emprego literal, o termo “corpo”
descreve a realidade concreta da vida humana que consiste de carne e
sangue. No Novo Testamento, contudo, “corpo-soma” é empregado maiormente
num sentido figurado para denotar a pessoa como um todo (Rom. 6:12;
Heb. 10:5), a natureza humana corrupta (Rom. 6:12; 8:11; 2 Cor. 4:11),
a Igreja como o corpo de Cristo (Efé. 1:23; Col. 1:24), o corpo
ressurreto dos remidos (1 Cor. 15:44), e a presença espiritual
de Cristo simbolizada pelo pão e vinho (1 Cor. 11:27). Para o
propósito de nossa investigação, focalizamos
primariamente na perspectiva neotestamentária do corpo humano em
relação à pessoa total.
Cristo
e o Corpo Humano. Para apreciar a consideração
positiva do Novo Testamento do corpo humano, precisamos refletir sobre
sua doutrina central da encarnação. Por exemplo, o
evangelho de João anuncia no início que o eterno Filho de
Deus “se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). A
própria idéia de que o eterno Filho de Deus entrou no
tempo e espaço humanos e assumiu uma natureza humana plena,
incluindo um corpo, era incompreensível para a mente grega. De
fato, o gnosticismo, um influente movimento sectário
cristão, influenciado pelo dualismo grego, rejeitava abertamente
a encarnação de Cristo. Isso ilustra vigorosamente a
diferença entre a visão bíblica holística
da natureza humana, que dá valor ao corpo, e a visão
dualística grega, que considera o corpo como a prisão da
alma a ser descartada com a morte.
Qualquer pessoa que aceite
plenamente a doutrina neotestamentária da
encarnação nunca pode acusar os escritores do Novo
Testamento de denegrir o corpo humano ou a ordem física. O fato
de que o divino Filho de Deus assumiu um corpo humano a fim de viver
sobre a Terra comunica dignidade e importância ao corpo e a todo
o reino físico.
É também
significativo observar que o mesmo Verbo eterno mediante o qual tudo o
“que foi feito se fez” (João 1:3) por ocasião da
criação veio ao mundo para redimir e restaurar não
só a “alma”, mas o homem integral e o mundo inteiro. “Este
é o significado da estranha doutrina de
ressurreição do corpo, a qual, mais do que qualquer outra
coisa, horrorizava e causava repugnância no mundo grego. Esta
doutrina servia para realçar, na forma mais vigorosa
possível, o ponto de vista do Novo Testamento de que não
é alguma parte do homem (sua ‘alma’ racional) que se destina
à eternidade, mas a pessoa integral que tem o seu lugar no
propósito de Deus”.39
A doutrina da
ressurreição do corpo, que é examinada no
capítulo 7, ensina que nossa natureza física e o mundo
material que desempenham um papel vital em moldar nossa
existência terrena, têm significação eterna
no divino esquema de coisas. Isto nos ensina, como Ronald Hall
acertadamente diz, que “mesmo no além-túmulo, o corpo
não é um mero adorno do espírito, mas um elemento
essencial no ser de uma pessoa. É dificil entender por que Paulo
centralizava a fé na crença da ressurreição
se ele tivesse outra idéia. Se ele pensasse, por exemplo, que a
salvação tivesse que ver somente com uma alma
desincorporada liberta do corpo, certamente não teria insistido
tanto no tema da ressurreição do corpo; ele teria se
contentado com a noção grega de uma alma imortal”.40
A crença na
ressurreição do corpo está firmada na
ressurreição corporal de Cristo. “Se Cristo não
ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis
nos vossos pecados” (1 Cor. 15:17, 18). A encarnação de
Cristo num corpo humano e a ressurreição num corpo
glorificado (João 20:27) nos fala que o corpo tem
significação eterna no propósito divino para este
mundo. Diz-nos que o corpo não é uma prisão
temporária ou campo de testes para as “almas” destinadas
à aniquilação final. Antes, fala-nos que o corpo
é nossa personalidade total que Deus se compromete a preservar e
trazer de volta à vida no dia da ressurreição.
A ressurreição do
corpo é necessária para a vida no mundo por vir em vista
de que o Novo Testamento nunca aceitou a crença na imortalidade
da alma. A vida sem o corpo é inconcebível. Uma vez que o
corpo é nossa existência humana concreta, sua
ressurreição é indispensável para assegurar
uma personalidade e vida plenas na nova terra.
A
Fé Cristã é “Materialística”. Nestas
alturas vale a pena lembrar que a esperança do Velho Testamento
para o mundo por vir é extremamente “materialística”.
Enquanto os gregos estavam na expectativa de um escape final da alma
desta terra para uma região etérea, os crentes do Velho
Testamento estavam aguardando o estabelencimento do reino de Deus sobre
este planeta (Dan. 2:44; 7:27). O reino messiânico trará a
consumação da história humana sobre a Terra de
acordo com o propósito criativo de Deus.
A mesma crença é
proeminente no Novo Testamento. Cristo desceu a este mundo para redimir
tanto o homem quanto a criação sub-humana (Rom. 8:22, 23)
e Ele retornará à Terra para estabelecer uma nova ordem
física. “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro
céu e a primeira terra passaram, e o mar já não
existe” (Apo. 21:1). A terra inteira, inclusive o corpo humano,
não é aniquilada, mas aperfeiçoada. “E lhes
enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já
não existirá, já não haverá luto,
nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram” (Apo. 21:4).
“Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia
do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o
seu esposo” (Apo. 21:2).
A renovação final da
Terra é o correspondente cosmológico da doutrina da
ressurreição do corpo. Assim como o crente individual ao
final não escapará do corpo, mas receberá um corpo
imperecível (1 Cor. 15:53), também os remidos não
serão arrebatados para sempre deste planeta para o céu,
mas serão estabelecidos sobre a Terra, restaurada a sua
perfeição original como o lugar do reino glorioso e
eterno de Deus.
“Não há
sugestão aqui”, escreve D. R. G. Owen, “de ‘almas’
desincorporadas penosamente buscando o seu caminho rumo aos céus
no alto, para ali existirem por toda a eternidade como puros
‘espíritos’. Bem o contrário é o que temos: Deus
desce até o homem; o Verbo tornou-se carne; o céu desce
à Terra; a cidade santa desce a partir de Deus no céu. .
. . Assim, ao final da Bíblia, em sua doutrina das
últimas coisas, como no princípio, em sua doutrina das
primeiras coisas, o significado eterno de todo o reino físico
é inegavelmente assegurado”.41
Owen conclui fazendo notar que “as
implicações deste materialismo bíblico para a
antropologia bíblica--implicações sublinhadas pela
doutrina da ressurreição do corpo em
oposição à doutrina da imortalidade da alma
separada--são as seguintes: primeiro, o ‘corpo’ é um
aspecto essencial da personalidade humana e não uma parte
destacável que finalmente será posta à parte; e,
em segundo lugar, a pessoa integral, e não uma ‘alma’
desincorporada, destina-se à vida eterna”.42
O
Corpo Como a Pessoa Integral. No Novo Testamento, o corpo-soma não é algo
exterior que se apega ao eu real de uma pessoa (a alma), mas denota a
pessoa inteira. Isso leva Rudolf Bultmann a afirmar: “O homem
não tem um soma
[corpo]”.43 Conquanto haja umas poucas passagens em
que o corpo ou a carne sejam contrastadas com a alma ou o
espírito, tais contrastes não têm o fito de dividir
a natureza humana em duas entidades diferentes. Antes, descrevem
diferentes aspectos da pessoa total.
O corpo-soma pode denotar a
pessoa inteira.
Por exemplo, quando Paulo diz: “ainda que entregue o meu próprio
corpo para ser queimado” (1 Cor. 13:3), ele obviamente está se
referindo a sua pessoa integral. Semelhantemente, quando diz, “esmurro
o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo
pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1
Cor. 9:27) ele quer dizer que está se colocando sob controle. O
oferecimento do corpo como um sacrifício vivo (Rom. 12:1)
significa a submissão do próprio eu a Deus. O desejo de
Paulo de que “em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia,
como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no
meu corpo, quer pela vida, quer pela morte” (Fil. 1:20) significa
honrar a Cristo na totalidade de seu corpo. Em referências como
essas, o corpo representa a pessoa integral como responsável por
certos atos.
A existência corpórea
é o modo normal e apropriado de ser. Destarte, o corpo é
um elemento essencial da existência humana. A vida do corpo
não é contrastada com a vida da alma ou do
espírito, como se o corpo fosse um obstáculo à
plena realização da vida superior da alma ou
espírito. O corpo pode tornar-se um obstáculo quando
é usado como um instrumento do pecado, mas não é
um impedimento em si mesmo. O corpo não é necessariamente
mau, porque é parte da boa criação de Deus. Isto
é também indicado pelo fato de que nenhum mal esteve
presente em Cristo, conquanto Ele fosse participante de nosso corpo
humano.
O
Corpo Como Instrumento de Pecado. Sendo corruptível e
mortal (Rom. 6:12; 8:11; 2 Cor. 4:11), o corpo pode tornar-se um
instrumento do pecado. Isso explica por que Paulo fala do “corpo desta
morte”. “Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo
desta morte?” (Rom. 7:24). Aqui o quadro mental do apóstolo
não é físico, mas ético. A morte é o
domínio do pecado revelado na vida física da qual uma
pessoa é livrada mediante a regeneração, pela
fé em Cristo. Uma vez que o pecado pode reinar em nosso corpo
mortal (Rom. 6:12), o corpo visto como instrumento do pecado pode ser
chamado de “corpo do pecado” (Rom. 6:6) e “corpo desta morte” (Rom.
7:24). Assim, é necessário que um crente mortifique “os
feitos do corpo” (Rom. 8:13) por viver de acordo com o Espírito.
Isto não significa mortificação do corpo em si,
mas a renúncia de atos pecaminosos.
Uma vez que o corpo se torna um
instrumento de pecado, o alvo da vida cristã é exercer
domínio próprio sobre ele para impedi-lo de dominar a
vida espiritual de alguém. Paulo estabelece esta verdade
claramente em 1 Coríntios 9 onde compara a si mesmo com um
atleta que treina com rigorosos exercícios de domínio
próprio para impedir que seu corpo tenha predomínio sobre
sua vida espiritual. “Mas esmurro o meu corpo, e o reduzo à
escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha
eu mesmo a ser desqualificado” (1 Cor. 9:27).
O domínio próprio
sobre o corpo é conseguido especialmente por consagrá-lo
a Deus como um sacrifício vivo (Rom. 12:1). Isto é
obtido, não mediante práticas ascéticas e
mortificação do próprio corpo, mas por
fazê-lo sensível aos ditames da Palavra de Deus. O
cristão reconhece que o seu corpo é a
habitação do Espírito Santo (1 Cor. 6:19).
Cultivar a presença do Espírito Santo no corpo de
alguém significa fazer todos os nossos prazeres e atividades
físicos subservientes a objetivos espirituais.
Conclusão.
O corpo no Novo Testamento denota a pessoa total, tanto literalmente,
como na realidade concreta da existência humana, e figuradamente,
na submissão da pessoa à influência do pecado ou do
poder do Espírito Santo. O Novo Testamento vê o corpo como
um aspecto essencial da pessoa inteira que não é
destacável da alma, nem pode ser descartado.
O significado do corpo no
Novo Testamento é reforçado
pela encarnação de Cristo que tomou um corpo humano a fim
cumprir Sua missão redentora sobre a Terra. A
encarnação de Cristo num corpo humano e Sua
ressurreição num corpo glorificado (João 20:27)
nos falam que o corpo tem significação eterna no
propósito redentor e criativo de Deus. Isso é confirmado
pela ressurreição do corpo, o que nos fala que mesmo na
nova terra, o corpo será uma parte essencial da existência
humana.
Figuradamente, o corpo é
empregado no Novo Testamento numa forma ambivalente. Por um lado, pode
tornar-se um “corpo do pecado” (Rom. 6:6) e o “corpo desta morte” (Rom.
7:24), quando se torna um instrumento do pecado. Por outro lado, pode
tornar-se o templo do Espírito Santo (1 Cor. 6:19) e o meio de
glorificar a Deus (1 Cor. 6:20), quando se torna um instrumento no
serviço de Cristo. A redenção significa,
não
a remoção da alma do corpo, mas a renovação
do corpo (a pessoa inteira) nesta vida presente e a
ressurreição do corpo (a pessoa inteira) no mundo por vir.
PARTE IV: A
NATUREZA HUMANA COMO CORAÇÃO
O coração-kardia
no Novo Testamento é
empregado com a mesma ampla gama de sentidos que encontramos no Velho
Testamento (leb e lebab). Não precisamos
delongar-nos no estudo do significado e empregos do termo
coração no Novo Testamento. Essencialmente, o
coração-kardia
representa a vida interior integral de uma pessoa em seus vários
aspectos. Denota, como no caso de espírito, o centro emocional,
intelectual e espiritual de uma pessoa. O fato de que o
“coração” e o “espírito” são empregados
numa maneira semelhante mostra novamente o ponto de vista
holístico bíblico da natureza humana, onde uma parte da
natureza humana pode ser empregada com referência à
pessoa integral.
O
Coração É a Sede das Emoções.
Tanto as boas quanto as más emoções brotam do
coração. O coração sente alegria
(João 16:22; Atos 2:26; 14:17), temor (João 14:1),
sofrimento (João 16:6; 2 Cor. 2:4), amor (2 Cor. 7:3; 6:11; Fil.
1:7), cupidez (Rom. 1:24), anseio (Rom. 10:1; Luc. 24:32), e desejo
(Rom. 1:24; Mat. 5:28; Tia. 3:14). Paulo expressou o desejo de seu
coração pela conversão de seus irmãos
judeus (Rom. 10:1). Ele escreveu aos coríntios com
“angústia de coração” (2 Cor. 2:4). Instou os
coríntios a abrirem o coração para recebê-lo
e a seus companheiros em amor (2 Cor. 7:2).
O Coração é a
Sede da Atividade Intelectual. Jesus disse que “Nem todo o que me diz:
Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que
faz a vontade de Meu Pai que está nos céus” (Mar. 7:21) e
“Raça de víboras, como podeis falar cousas boas, sendo
maus? porque a boca fala do que está cheio o
coração” (Mat. 12:34). Paulo exorta todo homem a dar
liberalmente “como propôs em seu coração” (2 Cor.
9:7). Os “olhos do coração” devem ser iluminados
(Efé. 1:8) para entender a esperança cristã.
As decisões têm sua origem no coração (Luc.
21:14; Atos 11:23).
Às vezes é Deus Quem
influencia a decisão dos corações humanos: “Porque
em seus corações incutiu Deus que realizem o seu
pensamento, o executem à uma e dêem a esta o reino que
possuem, até que se cumpram as palavras de Deus” (Apo. 17:17).
Às vezes é o diabo quem o faz: “Durante a ceia, tendo
já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes,
filho de Simão, que traísse a Jesus . . . ” (João
13:2). Outras vezes o coração é sinônimo de
consciência: “Amados, se o coração não nos
acusar, temos confiança diante de Deus” (1 João 3:21). Os
gentios possuem uma lei, escrita em seus corações que os
capacita a distinguirem entre o bem e o mal (Rom. 2:14, 15).
O
Coração Como Sede da Experiência Religiosa.
Deus se comunica com uma pessoa no coração. Ele pesquisa
o coração humano e o põe à prova (Luc.
16:15; Rom. 8:27; 1 Tes. 2:4). Deus escreve a Sua lei no
coração humano (Rom. 2:15; 2 Cor. 3:2; Heb. 8:10). Ele
abre o coração humano (Luc. 24:45; Atos 16:14). Ele
resplandece em nossos corações para nos dar luz do
conhecimento de Jesus Cristo (2 Cor. 4:6). A paz de Deus mantém
nossos corações e mentes em Cristo (Fil. 4:7). O
Espírito de Deus é derramado em nossos
corações (Rom. 5:5; 2 Cor. 1:22; Gál. 4:6).
Cristo habita o nosso
coração e nele atua por meio da fé (Efé. 4:
17, 18). O coração cristão é purificado e
santificado mediante a fé e o batismo (Atos 15:9; Heb. 10:22). O
coração é purificado (Mat. 5:8) e fortalecido por
Deus (1 Tes. 3:13). A paz de Cristo pode reinar no
coração (Col. 3:15). O coração recebe as
primícias do Espírito (2 Cor. 1:22).
Virtudes cristãs são
atribuídas ao coração. O amor é associado
com o coração (2 Tes. 3:5; 1 Ped. 1:22). A
obediência se liga ao coração (Rom. 6:17; Col.
3:22). O perdão deriva do coração (Mat. 18:35). A
gratidão reside no coração (Col. 3:16). A paz de
Deus habita no coração (Fil. 4:7). Acima de tudo, o amor
por Deus e pelo semelhante procede do coração (Mar.
12:30, 31; Luc. 10:27; Mat. 22:37-39).
Os exemplos de textos há
pouco citados indicam claramente que a palavra “coração”
é empregada para descrever a vida interior da pessoa total. Isso
leva Karl Barth a concluir que “o coração não
é meramente uma parte mas a realidade do homem, tanto
integralmente da alma, quanto integralmente do corpo”.44 O fato de que
o coração representa a vida interior total de uma pessoa
em grande parte como também se dá com o espírito,
revela novamente a perspectiva holística bíblica da
natureza humana.
A visão dualística
que atribui as funções morais e espirituais da natureza
humana à alma é desacreditada pelo fato de que tais
funções são igualmente atribuídas ao
coração e ao espírito. Isto é
possível porque, como vimos, na Bíblia a natureza
é uma unidade indissolúvel e não uma
composição de diferentes “peças”. A visão
holística bíblica da natureza humana nega a possibilidade
de que a alma exista e atue como uma entidade distinta, imaterial
à parte do corpo.
Apoio
de Eruditos Para o Ponto de Vista Holístico. Como um
breve apêndice a nossa pesquisa do ponto de vista bíblico
da natureza humana, cito, como exemplos, alguns dos numerosos eruditos
de diferentes persuasões que apóiam o ponto de vista
holístico bíblico, que nega a crença na
imortalidade da alma.45
Em vários de seus livros,
William Temple, Arcebispo de Canterbury, afirma o ponto de vista
holístico bíblico da natureza humana e declara ser
“antibíblica a noção da indestrutibilidade natural
da alma individual”.46 Ele escreveu: “O homem não
é imortal por natureza ou direito; mas ele é capaz da
imortalidade e lhe é oferecida a ressurreição dos
mortos e a vida eterna se ele desejar recebê-la de Deus e nos
termos de Deus”.47
Na “Conferência Ingersoll
Sobre a Imortalidade do Homem”, apresentada na Capela Andover da
Universidade Harvard, o teólogo suíço Oscar
Cullmann acentuou a diferença fundamental entre a doutrina
cristã da ressurreição e o conceito grego da
imortalidade da alma. Disse ele: “A alma não é imortal.
Deve haver uma ressurreição para ambos [corpo e alma];
pois desde a Queda o homem inteiro é ‘semeado
corruptível’”.48 Essa famosa conferência,
que mais tarde foi publicada em forma de livro, sob o
título Immortality of the
Soul or Resurrection of the Dead?, [Imortalidade da Alma ou
Ressurreição dos Mortos?] provocou violenta hostilidade
de parte de alguns que acusaram Cullmann de ser um “monstro que se
deleita em causar angústia espiritual”.49 Um autor
declarou: “O povo francês, morrendo por falta do Pão da
Vida, em vez disso teve oferecido pedras, se não serpentes”.50
Tais reações violentas exemplificam quão
difícil é para as pessoas reexaminarem crenças que
há muito adotaram.
Em seu livro Basic Christian
Teachings [Ensinos
Cristãos Básicos], o teólogo luterano Martin
Heinechen rejeita como “falso dualismo” a noção de que
por ocasião da criação “Deus fez uma alma, que
é a pessoa real, e então deu a essa alma uma lar
temporário num corpo, feito de pó da terra. . . . O homem
deve ser considerado uma unidade. . . . O dualismo cristão
não tem que ver com alma e corpo, mente eterna e coisas que
passam, mas o dualismo de Criador e criatura. O homem é uma
pessoa, um ser integral, um centro de responsabilidade, apresentando-se
diante do Criador e Juiz. Ele não tem vida ou imortalidade
dentro em si mesmo”.51
No The Pocket Commentary of the Bible
[Comentário da Bíblia de Bolso], Basil F. C. Atkinson,
bibliotecário da Universidade Cambridge, escreve, com
relação a Gênesis 2:7: “Às vezes se
têm pensado que a concessão do princípio de vida,
como nos é apresentado neste verso, implica em imortalidade do
espírito ou alma. Têm-se dito que ser feito à
imagem de Deus envolve imortalidade. A Bíblia nunca diz isso. Se
envolvesse imortalidade, por que não envolve igualmente
onisciência e onipotência, ou qualquer outra qualidade ou
atributo do Infinito? . . . . Ao longo da Bíblia o homem,
é concebido como feito de pó e cinzas, uma criatura
física, a quem o princípio de vida é concedido por
empréstimo. Os pensadores gregos tendiam a pensar no homem como
sendo uma alma imortal aprisionada num corpo. A ênfase é o
oposto à da Bíblia, mas, encontrou um vasto lugar no
pensamento cristão”.52
Alguns eruditos católicos
também reconhecem que o conceito tradicional da imortalidade
natural da alma não é um conceito bíblico. Claude
Tresmontant, um erudito francês católico dominicano,
contrasta a “ressurreição” bíblica da pessoa
integral com o ponto de vista dualístico tradicional. Escreve
ele: “Mas o ensino judaico-cristão sobre a
ressurreição é uma questão bem diferente.
Não significa que uma parte do homem--sua alma--será
liberada por ter a outra parte descartada--seu corpo material; o ensino
bíblico deixa implícito que o homem total é salvo”.53
Em The Biblical Meaning of Man
[O
Sentido Bíblico do Homem], Dom Wulstan Mork, que é
também um erudito católico dominicano, desafia a
posição dualística tradicional da natureza humana
e insta o leitor a recuperar a perspectiva holística
bíblica. Escreve ele: “O homem bíblico, portanto o homem
como revelado na Bíblia, é uma unidade de carne, alma, e
espírito, não uma tricotomia, nem uma dicotomia de corpo
e alma”. Ele prossegue fazendo observar que a Bíblia
vê o homem “como um todo, um ponto de vista salutar para
descrever um viver integral e balanceado, radicalmente relacionado com
Deus, a humanidade e toda a criação. Precisamos dessa
perspectiva hoje, para contrafazer uma atitude platônica ainda na
espreita, e corrigir uma aceitação da
situação humana por demais natural e secularizada”.54
Mork acredita que uma recuperação da perspectiva
holística bíblica da natureza humana contribuirá
para uma “atitude mais salutar para com a pessoa humana, e, de fato,
para com a questão em geral”.55
Reinhold Niebuhr, renomado
teólogo americano e professor por longo tempo no
Seminário Teológico Union, contrasta o ponto de vista
holístico bíblico da natureza humana com o ponto de vista
dualístico clássico. Ele conclui: “Todas as provas
plausíveis e não-plausíveis para a imortalidade da
alma são esforços da parte da mente humana para
compreender e controlar a consumação da vida. Todos
tentam provar de um modo ou de outro que um elemento eterno na natureza
do homem é digno e capaz de sobrevivência além da
morte. Mas toda técnica mística ou racional que busca
criar o elemento eterno tende a negar o significado histórico da
unidade de corpo e alma; e com isso o sentido de todo o processo
histórico com suas infinitas elaborações dessa
unidade’”.56
Em seu livro The Christian Hope [A
Esperança Cristã], o teólogo luterano T. A.
Kantonen observa que “tem sido característica do pensamento
ocidental desde Platão distinguir radicalmente entre a alma e o
corpo. O corpo supostamente é composto de matéria,
enquanto a alma o é de espírito. O corpo é uma
prisão da qual a alma é libertada por ocasião da
morte para levar avante sua primeira existência
não-física. Daí o tema da vida após a morte
ter sido uma questão de demonstrar a imortalidade, a capacidade
desafiadora da morte da alma. O corpo é de pouca
conseqüência. Esse modo de pensar é inteiramente
estranho à Bíblia. Em perfeita harmonia com a Escritura e
rejeitando decididamente a visão grega, o Credo dos
Apóstolos não diz, ‘Creio na Imortalidade da Alma’, mas
‘Creio na ressurreição do corpo’”.57
Em seu impressionante estudo sobre
o ponto de vista bíblico da natureza humana, intitulado Body and Soul [Corpo e Alma], R. G.
Owen, ex-reitor do Trinity College, da Universidade de Toronto, oferece
uma penetrante análise do contraste entre o ponto de vista
dualístico grego e a posição holítica
bíblica da natureza humana. Owens descobre que o homem na
Bíblia é um “todo psico-somático unificado” e que
“não pode haver parte destacável do homem que sobrevive
à morte física”.58 “A Bíblia”, ele
escreve, “presume que a natureza humana é uma unidade; no Novo
Testamento ensina que o destino final do homem envolve a
‘ressurreição do homem’”.59 Owens
propõe que “a velha doutrina da imortalidade da alma separada
deve agora ser tranqüilamente posta no lugar dos espíritos
que partiram”.60
Emil Brunner, bem conhecido
teólogo suíço, acha o ponto de vista
dualístico da natureza humana irreconciliável com a
perspectiva holística bíblica. Ele escreve: “Em alguma
parte da fé cristã deve ter havido alguma abertura pela
qual essa doutrina estranha pôde penetrar. Certamente, segundo a
perspectiva bíblica, somente Deus é que possui
imortalidade. A opinião de que nós homens somos imortais
em razão de nossa alma ser de uma essência
indestrutível, em vista de ser divina, é, de uma vez por
todas, irreconciliável com a visão bíblica de Deus
e do homem”.61
Brunner discute várias
implicações negativas dessa concepção
dualística da natureza humana. Primeiramente, ele assinala que o
efeito do dualismo “não é meramente tornar a morte
inócua, mas também tirar do mal o seu aguilhão.
Assim como a morte afeta somente a parte inferior do homem, igualmente
se dá isso com o mal. O último consiste apenas no sensual
e impulsivo. Eu próprio não sou verdadeiramente
responsável pelo mal, somente minha parte inferior, que é
como se estivesse ligada a meu melhor, mais elevado e verdadeiro ser. O
mal, assim, não é ato do espírito, nem rebeldia do
eu contra o Criador, mas meramente uma natureza sensual ou impulsiva
que não foi amansada pela mente. Em suma, o mal é a
ausência de mente, não o pecado”.62
Uma segunda conclusão a que
se chega é que “o homem em seu ser espiritual e mais elevado
é divino, não tem caráter de ser criado. Deus
não é seu criador, Deus é o todo de que o
espírito humano constitui apenas uma parte. O homem é um
participante do divino no sentido mais direto e literal. Daí,
uma vez que essa forma de retirar do mal o seu aguilhão corre
necessariamente paralelo com deixar a morte inócua mediante o
ensino a respeito da imortalidade, esta solução ao
problema da morte revela-se em irreconciliável
oposição com o pensamento cristão”.63
Em seu livro I Believe in the Second
Advent [Creio
no Segundo Advento], Stephen H. Travis, um respeitado teólogo
britânico, reconhece que se fosse pressionado a escolher entre
“punição eterna” e “imortalidade condicional”, ele
optaria pela última. A primeira razão que ele dá
é que a “imortalidade da alma é uma doutrina
não-bíblica derivada da filosofia grega. No ensino
bíblico o homem é ‘condicionalmente imortal’--isto
é, ele tem a possibilidade de tornar-se imortal se receber a
ressurreição ou imortalidade como um dom de Deus. Isso
deixaria implícito que Deus concede a ressurreição
àqueles que O amam, mas os que a Ele resistem perdem a
existência”.64
Travis faz notar que “o velho
conceito da alma, que costumava ser a salvaguarda da passagem da pessoa
desta vida para a próxima, tem sido em grande medida abandonada
no pensamento moderno. A natureza do homem é tida como uma
unidade; ele não consiste de duas partes, um corpo físico
que morre e uma alma que prossegue vivendo para sempre. Sua ‘alma’ ou
‘eu’ ou ‘personalidade’ é simplesmente uma função
do cérebro. Destarte, quando o cérebro morre, a pessoa
morre, e nada é deixado para adentrar-se noutra vida”.65
Bruce Reichenbach, filósofo
americano, examina a natureza humana em seu livro Is Man the Phoenix? [Seria o Homem
Fénix?]. Ele conclui que “a doutrina de que o homem como pessoa
[alma] não morre apresenta dificuldades particulares para o
dualista cristão. Um fato é que isso aparentemente
contraria os ensinos da Escritura. . . . [Ele cita vários
textos]. Cada uma destas e de numerosas outras passagens indicam que
cada um de nós, como pessoa, deve morrer. Não há
indício de que a única coisa sobre que se fala a respeito
é a destruição do organismo físico, e que a
pessoa real, a alma, não morre mas prossegue vivendo”.66
Donald Bloeseh, proeminente
erudito evangélico, dá apoio à mesma
conclusão, dizendo: “Não existe imortalidade inerente da
alma. A pessoa que morre, inclusive aquele que morre em Cristo,
defronta a morte tanto do corpo quanto da alma”.67 Anthony
Hoekema, teólogo calvinista, concorda: “Não podemos
apontar a nenhuma qualidade inerente no homem ou a qualquer aspecto do
homem que o torne indestrustível”.68 F. F. Bruce,
respeitado erudito britânico, especialista em Novo Testamento,
adverte que “nosso pensamento tradicional sobre uma ‘alma que nunca
morre’, que tanto deve à herança greco-romana, torna-nos
difícil apreciar o ponto de vista [holístico] de Paulo”.69
Murray Harris, erudito
bíblico americano, conclui seu artigo sobre
“Ressurreição e Imortalidade” declarando: “O homem
não é imortal porque possui ou é uma alma. Ele se
torna imortal porque Deus o transforma erguendo-o dentre os mortos”.70
Ele explica que enquanto o pensamento platônico tornou a
imortalidade “um atributo inalienável da alma, . . . a
Bíblia não contém nenhuma definição
da constituição da alma que implique sua
destrutibilidade”.71
Em sua dissertação
doutoral “O Sheol no Velho Testamento”, Ralph Walter Doermann conclui
sua análise do ponto de vista veterotestamentário da
natureza humana por dizer: “É evidente da perspectiva hebraica
da unidade psíco-somática do homem que havia pouco
espaço para a crença na ‘imortalidade da alma’. Ou a
pessoa completa vivia ou a pessoa inteira sucumbia à morte.
Não havia existência independente para o ruach
[espírito] ou para o nephesh
[alma] à parte do corpo. Com a morte do corpo o ruach [espírito] impessoal
‘retorna para Deus que o deu’ (Ecl. 12:7) e a nephesh [alma] é
destruída, conquanto esteja ainda presente, num sentido muito
débil, nos ossos e no sangue”.72
H. Dooyeweerd, filósofo
holandês calvinista, critica agudamente a visão
dualística da natureza humana. Ele rejeita tal perspectiva
não só porque “a idéia de uma substância
centralizada na razão humana (ou seja, a alma) está em
conflito com a confissão de corrupção radical da
natureza humana, mas também porque a separabilidade da alma do
corpo suscita vários problemas”. Um dos problemas que ele
menciona é a impossibilidade para a “alma” levar avante
atividades, uma vez esteja separada do corpo, porque as
funções psíquicas estão indissoluvelmente
ligadas ao relacionamento temporal total e às
funções do corpo.73
Conclusão.
Chegamos ao final de nossa pesquisa de quatro palavras proeminentes
empregadas no Velho Testamento para descrever a natureza humana, quais
sejam, alma, espírito, corpo e coração.
Descobrimos que o Novo Testamento expande o sentido
veterotestamentário desses termos à luz dos ensinos e do
ministério redentor de Cristo.
No Novo Testamento, a “alma-psychê”
não é uma entidade imaterial e imortal que sobrevive
à morte do corpo, mas a pessoa total como um corpo vivo, com sua
personalidade, apetites, emoções e habilidades de
raciocínio. A alma-psychê
denota a vida física, emocional e espiritual. Cristo ampliou o
sentido de alma-psychê
para incluir o dom da vida eterna recebida por aqueles que estão
dispostos a sacrificar sua vida terrena por Ele, mas nunca sugeriu que
a alma seja uma entidade imaterial, imortal. Pelo contrário,
Jesus ensinava que Deus pode destruir a alma, tanto quanto o corpo
(Mat. 10:28) dos pecadores impenitentes.
Paulo nunca emprega o termo
“alma-psychê”
para denotar a vida que sobrevive à morte. Em vez disso, ele
identifica a alma com nossa natureza física (psychikon), que se sujeita à
lei do pecado e da morte (1 Cor. 15:44). Para assegurar que seus
conversos gentios entendiam que nada há de imortal na natureza
humana por si mesma, Paulo empregou o termo “espírito-pneuma” para descrever a nova vida
em Cristo, a qual o crente recebe integralmente como um dom do
Espírito de Deus tanto agora quanto na
ressurreição.
O “espírito-pneuma”,
como a alma, não
é um componente independente, espiritual da natureza humana que
atua à parte do corpo, mas o princípio de vida que anima
o corpo físico e regenera a pessoa inteira. Descobrimos que o
sentido e função do Espírito são expandidos
com a vinda de Cristo, que é identificado com o Espírito
na obra da salvação. O significado do espírito-pneuma como princípio de
vida é ampliado para incluir o princípio de nova vida de
regeneração moral tornado possível mediante a
redenção de Cristo.
O Espírito sustém
tanto os aspectos físicos quanto morais da vida. A
transformação moral realizada pelo Espírito Santo
é descrita mais plenamente no Novo Testamento do que no Velho
Testamento. João e Paulo descrevem este processo com duas
metáforas diferentes, contudo complementares: renascimento e
nova criação.
O Espírito-pneuma
é a palavra mais
importante do vocabulário de Paulo sobre este tópico
porque serve para demonstrar que a salvação é
exclusivamente um dom divino de graça mediado pelo
“Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2) e não uma
posse natural de uma alma imortal. Em parte alguma o Novo Testamento
identifica o Espírito transmissor de vida com uma alma
imaterial, imortal capaz de desligar-se do corpo.
A função do
Espírito não é suster uma alma espiritual,
imortal, mas apoiar tanto nossa vida física quanto espiritual.
Tanto a criação quanto a recriação, o
nascimento e o renascimento, são atos do Espírito porque
Jesus explicou: “o Espírito é o que vivifica”
(João 6:63). O espírito, à semelhança da
alma, descreve, não uma entidade separada da natureza humana,
mas a pessoa integral como sustida e transformada pelo Espírito
de Deus.
O corpo no Novo Testamento denota
a pessoa inteira, tanto literalmente, na realidade concreta da
existência humana, quanto figurativamente, na submissão da
pessoa à influência do pecado ou ao poder do
Espírito Santo. O sentido do corpo humano no Novo Testamento
é reforçado pela encarnação de Cristo num
corpo humano e por Sua ressurreição num corpo glorificado
(João 20:27).
O corpo tem
significação eterna no propósito criativo e
redentor de Deus. A redenção significa, não a
remoção da alma do corpo, mas a renovação
do corpo como a pessoa integral nesta vida presente, e a
ressurreição do corpo como a pessoa integral no mundo por
vir. “O corpo não é o túmulo para a alma, mas um
templo do Espírito Santo, o homem não é completo
à parte do corpo”.74 Assim, mesmo na nova terra, o
corpo será parte essencial da existência humana porque os
remidos existirão, não como almas desincorporadas, mas
como pessoas ressuscitadas em corpo.
O coração no Novo
Testamento representa a vida interior integral de uma pessoa. Denota, a
exemplo do Espírito, as funções emocionais,
intelectuais e espirituais de alguém. O fato de que tais
funções são igualmente atribuíveis ao
coração e ao espírito revela que o Novo
Testamento, à semelhança do Velho, considera a natureza
humana como uma unidade indissolúvel, não como uma
composição de diferentes “peças”.
Sumariando nossa pesquisa da
perspectiva da natureza humana tanto no Velho quanto no Novo
Testamento, podemos dizer que a Bíblia é coerente ao
ensinar que a natureza humana é uma unidade indissolúvel,
onde o corpo, alma e espírito representam diferentes aspectos da
mesma pessoa, e não diferentes substâncias ou entidades
atuando independentemente. Esta perspectiva holística humana
remove a base para a crença na sobrevivência da alma por
ocasião da morte do corpo.
O ponto de vista holístico
da natureza humana que encontramos na Bíblia levanta muitas
indagações importantes: o que acontece quando uma pessoa
morre? Acaso a pessoa completa, corpo, alma, e espírito, perece
por ocasião da morte de modo que nada sobrevive? Se assim
é, por que a Bíblia fala da ressurreição
dos mortos? Qual é o estado dos mortos entre a morte e a
ressurreição, um período geralmente conhecido como
estado intermediário? Qual é a natureza do corpo
ressurreto? Será semelhante ou diferente do corpo presente?
Estas são algumas das perguntas que devemos responder nos
capítulos que se seguem.
Notas do
Capítulo 3
1. Uma
pesquisa bastante abrangente da literatura intertestamentária
que trata com a natureza e destino humanos acha-se em H. C. C.
Cavalin, Life after Death: Paul’s
Argument for the Resurrection of the Dead in I Corinthians; Part 1: An
Inquiry into the Jewish Background (Lund: Holland 1974). Outro
estudo erudito é o de George Nickelsburg Jr. em Resurrection, Immortality, and Eternal Life in
Inter-testamentary Judaism (Cambridge, 1972).
2. 2 Baruch
30, citado
de R. H. Charles, The Apocrypha and
Pseudepigrapha of the Old Testament in English with Introductory
and Critical Explanatory Notes to the Several Books (Oxford,
1913), p. 498.
3. Comentando
sobre este texto, R. H. Charles escreveu: “Esta imortalidade
condicional do homem aparece também em 1 Enoque 69:l 1;
Sabedoria 1:13, 14; 2 Enoque 30:16, 17; 4 Esdras 3:7” (Ibid., p. 477).
4. Ibid., p. 49. De
acordo com R. H.
Charles, “Este é o exemplo atestado mais antigo desta
expectativa nos últimos dois séculos AC”. (Ibid., p. 10).
5. Ibid., p. 538.
6. Ver 4 Macabeus
10:15;
13:17; 18:18; 18:23.
7. Ver 4 Macabeus
9:8,32; 10:11,15; 12:19; 13:15.
8. H. Wheeler Robinson,
The Christian Doctrine of Man (Edimburgo,
1952), p. 74.
9. Basil F. C.
Atkinson,
Life and Immortality (Taunton,
Inglaterra, S. D.), p. 12.
10. John A. T.
Robinson, The Body: A
Study of Pauline Theology (Londres,
1966), p. 23.
11. Edward
Schweizer, “Psyche,”
TheologicalDictionary of the New
Testament, ed., Gerhard Friedrich, (Grand Rapids, 1974), Vol. 9,
p. 640.
12. O dado
numérico
é fornecido por Basil F. C. Atkinson (nota 9), p. 14.
13. Edward Schweizer
(nota 11),
p. 644. (Ver também pág. 653).
14. Robert A. Morey,
Death and the
Afterlife
(Mineápolis, 1984), p. 152.
15. Oscar Cullmann,
“Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead?” in Immortality and Resurrection. Death in the
Western World: Two Conflicting Currents of Thought, ed. Krister
Stendahl (Nova York, 1968), pp. 36-37.
16. Edward William
Fudge, The Fire
That Consumes (Houston,
l989), p. 173.
17. Ibid., p. 177.
18. Edward Schweizer
(nota 11),
p. 646.
19. O dado
numérico
é fornecido para Edward Sehweizer (nota 11), p. 648, n. 188.
20. Este ponto de
vista
é expresso por Edward Schweizer (nota 11), p. 650.
Semelhantemente, Tony Hoff observa que “Paulo nunca emprega psychê para a vida que
sobrevive à morte [porque] ele estava ciente da possibilidade
dessa exata distorção durante esse tempo. Ele sabia que a
presença de uma tradição platônica iria
confundir particularmente os conversos gentílicos” (“Nephesh and the Fulfillment It
Receives as Psyche” in Toward a
Biblical View of Man: Some Readings, ed. Arnold H. De Graff e
James H. Olthuis [Toronto, 1978], p. 114).
21. John Calvin, Institutes of the
Christian Religion, trad.
F. L. Battles (Filadélfia, 1960), Vol. 1, p. 192.
22. Ibid.
23. H. Wheeler
Robinson (nota
8), p. 122.
24. Catechism of the Catholic Church
(Roma, 1994), pp. 93-94.
25. Ibid., p. 93.
26. Edward Schweizer
(nota 11),
p. 651.
27. W. White,
“Spirit,” The
Zondervan Pictorial Encyclopedia of
the Bible, ed. Merrill C. Tenney (Grand Rapids, 1978), Vol. 5,
p. 505.
28. David W. Stacey,
The Pauline
View of Man (Londres,
1956), p. 135
29. Claude
Tresmontant, A Study of
Hebrew Thought (Nova
York, 1960), p. 107.
30. Henry Barclay
Swete, The Holy
Spirit in the New Testament
(Londres, 1910), p. 342.
31. Wheeler Robinson
(nota 8),
p. 109.
32. Ver por exemplo,
Robert A.
Morey (nota 14), p. 62; W. Morgan, The
Religion and Theology of Paul (Nova York, 1917), pp. 17ss. Uma
apresentação clássica da
interpretação dualística de carne e
Espírito se encontra em O. Pfleiderer, Primitive Christianity (Nova York,
1906), Vol. 1, pp. 280ss. Ver também a dissertação
de Mary E. White, “The Greek and Roman Contribution,” in The Heritage of Western Culture,
ed. R. C. Chalmers (Toronto, 1952), pp. 19-21. Ela argumenta que o
contraste entre carne e espírito deriva do dualismo grego e “tem
resultado em muitos séculos de mortificação da
carne antes que o equilíbrio é restaurado” (p. 21).
33. D. E. H.
Whiteley, The Theology
of St. Paul (Grand
Rapids, 1964), p. 39.
34. Charles Davis,
“The
Resurrection of the Body,” Theology
Digest (1960), p. 100.
35. George Eldon
Ladd, A Theology of
the New Testament
(Grand Rapids, 1974), p. 472.
36. Oscar Cullmann
(nota 15),
pp. 25-26.
37. Para uma
iluminadora
discussão sobre o entendimento do dualismo de Paulo, ver Ronald
L. Hall, “Dualism and Christianity. A Reconsideration”, Center Journal (outubro de 1982),
pp. 43-55.
38. H. Wheeler
Robinson (nota
8), p. 117.
39. D. R. G. Owen, Body and Soul (Filadélfia,
1956), p. 171.
40. Ronald Hall
(nota 37), p.
50.
41. D. R. G. Owen
(nota 39), p.
174.
42. Ibid., pp. 174-175.
43. Rudolf Bultmann,
Theology of the
New Testament (Nova
York, 1951), p. 194.
44. Karl Barth, Church Dogmatics (Edimburgo,
1960), Vol. 3, parte 2, p. 436.
45. Para uma
pesquisa
abrangente de líderes eclesiásticos e eruditos que ao
longo da história cristã têm mantido a visão
holística da natureza humana e assim a imortalidade condicional,
ver os monumentais dois volumes de LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers:
The Conflict of the Ages Over the Nature and Destiny of Man
(Washington, D. C., 1965).
46. William Temple, Christian Faith
and Life (Londres,
1954), p. 81.
47. William Temple, Man, Nature and
God (Londres,
1953), p. 472.
48. Oscar Cullmann
(nota 36),
p. 28.
49. Ibid., p. 47.
50. Ibid.
51. Martin J.
Heinecken, Basic
Christian Teachings
(Filadélfia,1949), pp. 37, 133.
52. Basil F. C.
Atkinson, The Pocket
Commentary of the Bible
(Londres, 1954), Part 1, p. 32.
53. Claude
Tremontant, St.
Paul and the Mystery of Christ (Nova
York, 1957), pp. 132-133. Os itálicos foram adicionados. Numa
linha de pensamento semelhante, Y. B. Tremel, erudito dominicano
francês, faz uma notável admissão: “O Novo
Testamento obviamente não concebe a vida humana após a
morte filosoficamente ou em termos da imortalidade natural da alma. Os
autores sagrados não pensam na vida por vir como o termo de um
processo natural. Pelo contrário, para eles é sempre o
resultado de salvação e redenção; depende
da vontade de Deus e da vitória em Cristo” (“Man Between Death
and Resurrection,” Theology Digest
[outono de 1957], p. 151).
54. Dom Wulstan
Mork, The Biblical
Meaning of Man
(Milwaukee, WI, 1967), p. x.
55. Ibid., p. 49.
56. Reinhold Niebuhr, The Nature and
Destiny of Man
(Nova York, 1964), p. 295. Itálicos adicionados.
57. T. A. Kantonen, The Christian
Hope
(Filadélfia, 1954), P. 28.
58. Derwyn R. G.
Owen, Body and
Soul: A Study of the Christian
View of Man (Filadélfia, 1956), p. 27.
59. Ibid., p. 29.
60. Ibid., p. 98.
61. Emil Brunner, Eternal Hope
(Filadélfia,
1954), p. 106. Itálicos adicionados.
62. Ibid., p. 101.
63. Ibid.
64. Stephen H.
Travis, I Believe in
the Second Coming of Jesus
(Grand Rapids, 1982), p. 198.
65. Ibid., p. 163.
66. Bruce R.
Reichenbach, Is Man the
Phoenix? A Study of immortality
(Grand Rapids, 1978), p. 54.
67. Donald G.
Bloesch, Essentials of
Evangelical Theology
(São Francisco, 1979), Vol. 2, p. 188.
68. Anthony Hoekema,
The Bible and
the Future (Grand
Rapids, 1979), p. 90.
69. F. F. Bruce,
“Paul on
Immortality,” Scottish Journal of
Theology 24, 4 (novembro de 1971), p. 469.
70. Murray Harris,
“Resurrection and Immortality: Eight Theses,” Themelios 1, no. 2 (primavera de
1976), p. 53.
71. Ibid.
72. Ralph Walter
Doermann,
“Sheol in the Old Testament,” (Dissertação doutoral, Duke
University, 1961), p. 205.
73.
H.
Dooyeweerd, “Kuypers Wetenschapsleer,”
Philosophia Reformata, IV, pp. 199-201, como citado por G. C.
Berkouwer, Man: The Image of God
(Grand Rapids, 1972), pp. 255-256.
74. Anthony A.
Hoekema, The
Bible and the Future (Grand
Rapids, 1979), p. 91.