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Duas Análises da Carta Pastoral Dies Domini
do Papa João Paulo II Sobre a
Observância do Domingo

Prof. Dr. Samuele Bacchiocchi*, Ph.D., Professor de Teologia e História da
Igreja da Universidade Andrews
Tradução e Edição: César L. Pagani, da Federação Paulistana das IASD, 1998.

Caro Irmão, Líder de Nossa Igreja

            Muitos líderes de nossa igreja de diferentes partes do mundo pediram-me para examinar a Carta Pastoral do Papa João Paulo II, recentemente publicada, onde ele faz um veemente apelo em prol da renovação da observância dominical. Entre outras coisas, o pontífice insta os católicos a solicitarem aos poderes civis que promulguem uma legislação de descanso dominical para facilitar a assistência à igreja.
            Dediquei alguns dias ao exame desse significativo documento histórico, o qual merece séria consideração. Penso que você, como líder de igreja, irá apreciar a análise aqui feita.
            Talvez você possa se interessar em também conhecer algo sobre a discussão em torno do sábado que está acontecendo na Internet. Essa discussão começou em 15 de junho de 1998, quando fui convidado pela KJSL, uma emissora cristã de St. Louis, Montana, para debater com Dale Ratzlaff**, um ex-professor de Bíblia e ex-pastor adventista, que havia apresentado seus pontos de vista sobre a abrogação do sábado no Novo Concerto, e a natureza litúrgica da Igreja Adventista. De modo imparcial, a KJSL ofereceu-me, conhecendo minhas pesquisas sobre o sábado, a oportunidade de responder às afirmações de Ratzlaff, como apresentadas em seu livro O Sábado em Crise.
            Uma vez que a limitação de tempo não permitia uma discussão substancial das questões levantadas, concordamos em continuar a discussão pela Internet, tornando assim possível que milhares de pessoas ao redor do mundo se beneficiassem de uma ampla consideração dos argumentos comumente usados para negar a vigência e o valor do sábado para os nossos dias.
            Se você estiver interessado em acompanhar os debates, que por certo ainda prosseguirão por algum tempo, envie-me, através de e-mail, uma mensagem simples solicitando sua colocação numa listagem especial, para recebimento de todo o material concernente. Seis fascículos já foram editados, tratando fundamentalmente da questão: é o sábado uma instituição originária da Criação e para a humanidade, ou uma ordenança mosaica para os judeus e cravada por Cristo na cruz?
            Ficaríamos felizes em enviar esse material a você, caso peça. Nenhuma outra informação posterior será fornecida sem um pedido específico de inclusão em listagem. Respeitamos aqueles que não desejam receber massudos documentos em sua caixa de correspondência.
            Sinta-se livre para partilhar comigo suas reações à minha resposta à Carta Pastoral Papal.

Saudações Cristãs

            Sam Bacchiocchi
_______

*O Dr. Samuele Bacchiocchi foi o primeiro não-católico a graduar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana, ligada diretamente ao Vaticano, e ali defendeu uma tese que transformou depois no livro Do Sábado Para o Domingo, discutindo as verdadeiras origens do dia de repouso adotado pela maioria das igrejas cristãs.
** Por influência da publicação desse livro anti-sabático pelo ex-adventista Dale Ratzlaff, pelo menos duas denominações inteiras nos EUA que, tal como os adventistas, observavam o sábado (a Igreja de Deus do 7o Dia, e a Igreja Mundial de Deus—”Worldwide Church of God”, fundada por Herbert Armstrong), renunciaram a sua prática histórica de ter o sábado do sétimo dia como dia de culto e especial adoração a Deus.
 

Considerações Sobre a Carta Pastoral Dies Domini

            No dia 31 de maio de 1998, o Papa João Paulo II deu a público um volumosa carta (cerca de 40 páginas), onde faz um apaixonado apelo em prol do reavivamento da observância do domingo, especialmente visando à assistência à missa dominical. Esse documento tem relevante significado histórico uma vez que aborda o crítico problema da prevalecente profanação do domingo, “no limiar do Grande Jubileu do ano 2000” (#3). O papa está bem ciente de que a crise na guarda do domingo reflete a crise da Igreja Católica e do cristianismo em geral. A “surpreendente redução” da assistência aos serviços litúrgicos dominicais reflete, na visão do papa, o fato de que a fé está “enfraquecida” e “se reduzindo” (#5). Se a tendência não for revertida, poderá ameaçar o futuro da Igreja Católica, no limiar do ano 2000. O papa declara: “O dia do Senhor tem estruturado a história da igreja através de dois mil anos. Como imaginar que ele não continue a moldar o futuro?” (#30)
            Essa carta pastoral, como todos os documentos papais, foi habilmente preparada com uma introdução, cinco capítulos que examinam a importância da observância do domingo a partir de perspectivas teológica, histórica, litúrgica e social, e conclusão. Os eruditos que indubitavelmente ajudaram o Papa João Paulo II a compor a carta, devem ter sido recomendados a produzir uma ampla apresentação dos maiores assuntos concernentes ao domingo, dentro da limitação de espaço de aproximadamente 40 páginas.
Visto que uma análise detalhada desse importante documento pastoral requereria muito mais tempo e espaço do que os disponíveis, minhas observações focalizarão os três maiores pontos nele discutidos.

           1.. A conexão teológica entre o sábado e o domingo.
           2.. O suporte bíblico para a observância do domingo.
           3.. A legislação necessária para propiciar a observância dominical.

            1) A Conexão Teológica Entre o Sábado e o Domingo

            Contrariamente aos autores da Convenção Protestante e Dispensacionalista, que enfatizam a descontinuidade entre o sábado e o domingo, o Papa encontra o fundamento teológico da guarda do domingo na origem criacional e no significado do sábado. Ele escreve: “De forma a abarcar plenamente o significado do domingo, portanto, precisamos rever a grande história da Criação e aprofundar nossa compreensão da teologia do Sábado.” (#8)

Significado Criativo e Redentivo do Sábado

            As reflexões papais sobre o significado teológico do sábado são mais perceptivas e deveriam emocionar especialmente os sabatistas. Por exemplo, falando do descanso divino no sétimo dia da Criação, o papa diz: “O descanso divino no sétimo dia não alude a um Deus inativo, mas enfatiza a plenitude do que foi realizado. Ele fala, por assim dizer, da demora divina antes do “muito bom” (Gên. 1:31) que Suas mãos criaram, de forma a olhá-lo demoradamente com gozoso deleite.” (#11).
Essas profundas penetrações teológicas no significado do sábado divino como descanso de cessação para expressar a satisfação de uma obra criativa completa e perfeita, e de companheirismo com Sua criação, são desenvolvidas em certa amplitude em meu livro Divine Rest For Human Restlesness [Descanso Divino Para a Inquietude Humana], págs. 66 a 68. Por exemplo, na página 67, escrevi: “O descanso divino de Seus feitos, no sétimo dia, expressa o divino desejo de estar com Sua criação, para dar às criaturas não apenas coisas, mas a Si mesmo.” Devo confessar que estou inclinado a pensar que o Papa e/ou seus assessores podem ter lido meus dois livros Divine Rest e From Sabbath to Sunday, publicados pela Imprensa da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, Itália, e pessoalmente entregues a ele pelo Dr. B. B. Beach, diretor de Assuntos Interdenominacionais da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Beach recebeu uma carta de reconhecimento e apreciação.
            O Papa João Paulo II enfatiza corretamente o desenvolvimento teológico do sábado desde o repouso da criação (Gên. 2:1 a 3; Êxo. 20:9 a 11), até o repouso da redenção (Deut. 5:12 a 15). Ele observa que no Velho Testamento, o mandamento do sábado estava ligado “não apenas ao misterioso descanso divino após os dias da criação (conf. Êxo. 20:8 a 11), mas também à salvação que ofertou a Israel na libertação da escravatura do Egito (conf. Deut. 5:12 a 15). O Deus que repousou no sétimo dia, rejubilando-se em Sua criação, é o mesmo Deus que revela Sua glória no livramento de Seus filhos da opressão faraônica.” (#8)
Sendo um memorial da criação e da redenção, “o sábado tem, por conseguinte, sido interpretado evocativamente como um determinante elemento na espécie de ‘arquitetura sagrada’ de tempo que assinala a revelação bíblica. Ele relembra que o Universo e a história pertencem a Deus; e sem constante consciência dessa verdade, o homem não pode servir no mundo como coobreiro do Criador.” (#15)

O Domingo Como Cumprimento do Sábado

            À luz dessas profundas introspecções teológicas sobre o sábado como uma espécie de “arquitetura sagrada” de tempo que assinala a revelação bíblica das atividades criativa e redentiva de Deus, alguém se admiraria como o papa teve êxito em desenvolver uma justificativa teológica para a observância do domingo? Ele o faz argumentando que o domingo preenche as funções criativa e remissória do sábado. Essas duas funções, reivindica o papa, “revelam o significado do dia do Senhor dentro de uma visão teológica simples que funde criação e redenção.” (#17)
            “Sobre o dia do Senhor”, explica o papa, “que o Velho Testamento (sábado) liga à obra da criação (conf. Gên. 2: 1 a 3; Êxo. 20:8 a 11) e ao Êxodo (conf. Deut. 5:12 a 15), o cristão é chamado a proclamar em a nova criação e o novo concerto realizados no Mistério Pascal de Cristo. Longe de ser abolida, a celebração da criação torna-se mais profunda dentro da perspectiva cristocêntrica . . . A lembrança da libertação do Êxodo também assume seu pleno significado na morte e ressurreição de Cristo. Mais do que uma ‘substituição’ do sábado, portanto, o domingo é seu cumprimento, e, em certo sentido, sua extensão e plena expressão no ordenado desenvolvimento da história da salvação, a qual alcança sua culminação em Cristo.” (#18)
O papa sustenta que os cristãos neotestamentários “fizeram do primeiro dia após o sábado um dia festivo”, porque descobriram que as realizações criativas e redentivas celebradas pelo sábado encontraram “pleníssima expressão na morte e ressurreição de Cristo, embora seu cumprimento definitivo não ocorra até a Parusia quando Cristo retornar em glória” (#18).

Avaliação dos Argumentos Papais

            A tentativa do papa de tornar o domingo o legítimo cumprimento dos significados criativo e redentivo do sábado é bastante engenhosa, mas, desafortunadamente, falta-lhe suporte bíblico e histórico. Não há indicações, da perspectiva bíblica, de que os cristãos do NT interpretaram o dia da ressurreição de Cristo como representando o cumprimento da “plena expressão” dos significados da criação/redenção contidos no sábado. O Novo Testamento não atribui nenhum significado litúrgico ao dia da ressurreição de Cristo, simplesmente porque a ressurreição era vista como uma realidade existencial experimentada por um viver vitorioso mediante o poder do Salvador ressurreto, e não uma prática litúrgica associada à veneração ao domingo.
            Houvesse Jesus desejado que se comemorasse o dia de Sua ressurreição, teria aproveitado esse dia para torná-lo um adequado memorial desse evento. Mas, nenhuma expressão do Salvador redivivo revela qualquer intento de consagrar o dia de Sua ressurreição, a fim de torná-lo o novo dia de descanso e adoração. Instituições bíblicas tais como sábado, batismo e Ceia do Senhor, todas traçam sua origem desde o divino ato que as estabeleceu. Contudo, não há qualquer ato de Deus para um domingo semanal ou Páscoa anual como memoriais da ressurreição.
            O silêncio do Novo Testamento sobre o assunto é muito importante, uma vez que seus livros foram escritos muitos anos após a morte e ressurreição de Cristo. Se na última metade do primeiro século, o domingo houvesse sido observado como memorial da ressurreição, preenchendo as funções criativo-redentivas do sábado do Velho Testamento, poderíamos esperar encontrar algumas alusões e observâncias. A ausência de qualquer menção neotestamentária com respeito à celebração do domingo ou da Páscoa anual, indica que tais concepções se deram em período pós-apostólico, como resultado de uma interação de fatores políticos, sociais e religiosos, os quais examinei em profundidade em minha dissertação From Sabbath to Sunday, publicado pela editora da Pontifícia Universidade Gregoriana, a qual contém o imprimatur católico oficial. Se alguém estiver interessado em receber um exemplar desse trabalho, será bem-vindo ao contatar-me pelo código: samuele@andrews.edu
            Sob a perspectiva histórica, o domingo nunca foi chamado “dia da ressurreição” até o quarto século (ver, por exemplo, Eusébio de Cesaréia, “Comentário Sobre o Salmo 91”, Patrologia Graeca 23, 1168; Constituições Apostólicas 2, 59, 3). A razão óbvia é que nos primeiros séculos o domingo não era visto como o cumprimento da função criativo-redentiva do sábado.
            Iniciando no segundo século, descobrimos tentativas de se ligar o domingo à semana da criação, mas, não para torná-lo o cumprimento das realizações criadoras comemoradas pelo sétimo dia. Antes, o domingo, sendo o Dia do Sol, estava ligado ao primeiro dia da semana, porque nesse dia a luz fora criada. A criação da luz no primeiro dia proporcionou a muitos naquele tempo uma plausível justificativa para observar o Dia do Sol, o gerador de luz.
            Em sua Apologia do Imperador Antonino Pio (cerca de 150 a.D.), Justino escreve que os cristãos se reuniam no Dia do Sol para comemorar o primeiro dia da criação “no qual Deus, transformando a escuridão e a matéria primitiva, criou o mundo” (67, 7). Cristãos, como o Cardeal J. Daniélou, destacam que notou-se primeiramente a coincidência entre a criação da luz no primeiro dia e a veneração do Sol que teve lugar nesse mesmo dia (Bíblia e Liturgia, págs. 253, 255).
            O papa diz que “o pensamento cristão ligou espontaneamente a Ressurreição, que teve lugar no primeiro dia da semana, com o primeiro dia da semana cósmica (conf. Gên. 1:1,2 e 4), o qual dá forma à história da semana da criação: o dia da criação da luz (conf. 1:3 a 5)” (#24). O elo entre o primeiro dia da semana e a criação da luz pode não ter sido tão espontâneo como sugerido pelo papa. De fato, em minha tese From Sabbath to Sunday, apresentei documentos e argumentos indicando que tal laço ocorreu em sua maior parte no período pós-apostólico, quando surgiu a necessidade de justificar o abandono do sábado e a adoção do Dia do Sol.
            O desenvolvimento dessa mudança iniciou-se durante o reinado do imperador Adriano (117-138 a.D.) como resultado de uma repressiva legislação anti-semita. Em 135 a.D., Adriano promulgou uma lei que proibia categoricamente a prática do judaísmo em geral e a observância do sábado em particular. O objetivo de tal lei era liquidar o judaísmo como religião, num tempo em que os judeus experimentavam o ressurgimento das expectativas messiânicas, as quais faziam eclodir violentos levantes em várias partes do império, especialmente na Palestina (Ver From Sabbath to Sunday, págs. 178 a 182).
            Para evitar a opressiva legislação anti-semita e anti-sabática, a maioria dos cristãos adotou o Dia do Sol, porque ele permitia que mostrassem às autoridades romanas suas diferenças dos judeus e sua identificação e integração com os costumes e ciclos do império romano. Para desenvolver uma justificativa teológica da guarda do domingo, os cristãos apelaram à criação divina da luz no primeiro dia e à ressurreição do Sol da Justiça, ambos coincidentes com o Dia do Sol. Jerônimo, para citar apenas um exemplo, explica: “Se ele é chamado o Dia do Sol pelos pagãos, nós de boa vontade o reconhecemos como tal, uma vez que nesse dia a luz do mundo apareceu e nesse dia o Sol da Justiça surgiu.” (“In die dominica paschae homilia”, Corpus Christianorum, Séries Latina 78, 550, 1, 52)
            Essas considerações sugerem que os cristãos não chegaram espontaneamente ao entendimento do dia da ressurreição de Cristo como o cumprimento das realizações criativas e redentivas celebradas no sábado do sétimo dia. O liame com a semana da criação ocorreu primeiramente em virtude do fato de que a criação da luz no primeiro dia deu ensejo a que muitos pensassem ser essa uma justificativa plausível para a observância do Dia do Sol.
            Nessa conjuntura, eu gostaria de respeitosamente propor ao Papa João Paulo II algumas importantes questões: Se o sábado foi divinamente estabelecido para comemorar as realizações criativas e redentivas de Deus em favor de Seu povo, que direito tem a igreja de declarar o domingo como seu legítimo “cumprimento”, “plena expressão” e “extensão”? A tipologia do sábado, após a cruz, não era mais adequada para comemorar a criação e a redenção? Não foi o Mistério Pascal cumprido através da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, que ocorreram respectivamente na sexta, sábado e domingo?
            Por que deveria o domingo ser escolhido para celebrar o sacrifício expiatório de Cristo, quando Sua missão redentora foi completada na tarde de sexta-feira e o Salvador bradou: “Está consumado!” (João 19:30), e então descansou no sepulcro de acordo com o mandamento do sábado? Isso não sugere que tanto o descanso divino na criação como repouso redentor de Cristo na tumba ocorreram no sábado? Como pode o domingo ser investido do sentido escatológico do repouso final na restauração que aguarda o povo de Deus, quando o Novo Testamento liga tal significado ao sábado? “O descanso sabático [literalmente, “observância sabática”] foi reservado (apoleipetai) para o povo de Deus.” (Heb. 4:9) O próprio Agostinho reconhece o significado escatológico do sábado, quando, ao falar do sábado final, eloqüentemente diz que então “descansaremos e veremos, veremos e amaremos, amaremos e louvaremos.” (A Cidade de Deus, 22, 30).
Francamente, acho que a tentativa de revestir o domingo do significado escatológico e teológico do sábado, foi bem intencionada, porém mal orientada. Ela ignora as três perspectivas bíblicas do sábado: celebração da perfeita criação, completa redenção e restauração final.

             2) Apoio Bíblico Para a Observância do Domingo

O segundo capítulo da Carta Pastoral Dies Christi (O Dia de Cristo) focaliza-se em três supostas grandes razões bíblicas para a observância dominical: (1) “A ressurreição de Jesus Cristo, que teve lugar “no primeiro dia após o sábado” (Marcos 16:2; Lucas 24:1; João 20:1)” (#20); (2) As reuniões religiosas no primeiro dia da semana (conf. I Cor. 16:2; Atos 20:7 a 12; Apoc. 1:10) (#21); (3) O derramamento do Espírito Santo cinqüenta dias após a ressurreição que ocorreu no domingo (Atos 2: 2 e 3) (#28).

A Suposta Influência da Ressurreição

            Minha resposta a esses argumentos será breve porque eu os considerei amplamente nos capítulos três e quatro de minha tese. Com respeito à Ressurreição, já vimos que o Novo Testamento não atribui nenhum significado litúrgico ao dia da ressurreição de Cristo, simplesmente porque a Ressurreição era vista como uma realidade existencial experimentada mediante um viver vitorioso pelo poder do Salvador ressurreto, e não uma prática litúrgica associada à observância do domingo. Cristo não fez nenhuma tentativa de tornar memorável o dia de Sua ressurreição, quando apareceu primeiramente às mulheres e aos discípulos depois.
            A reivindicação de que a celebração da ressurreição de Cristo semanalmente, aos domingos, e na Páscoa, anualmente, desenvolveu-se a partir dos primeiros anos após a ressurreição do Senhor” (#19), não tem sustentação bíblica ou histórica. Há consenso quase que total entre os eruditos de que, pelo menos no século após a morte de Jesus, a Páscoa foi observada não no domingo pascal, como celebração da Ressurreição, mas no dia 14 de Nisã (independentemente do dia da semana), como rememoração dos sofrimentos, sacrifício expiatório e ressurreição de Jesus.
            O repúdio ao cômputo judaico da Páscoa e a adoção do domingo pascal em seu lugar é uma ação pós-apostólica atribuída, como Joachim Jeremias expressou, “à inclinação de romper com o judaísmo” (“Pasha” Theological Dictionary of the New Testament, vol. 5, pág. 903, nota 64), e para evitar, como J. B. Lightfoot explica, “mesmo qualquer semelhança com o judaísmo” (The Apostolic Fathers, vol. 2, pág. 88).
            A introdução e promoção do domingo pascal pela igreja de Roma no segundo século, ocasionou a bem-conhecida controvérsia da Páscoa (Quartodecimana), a qual levou o bispo Vítor a excomungar cristãos asiáticos (191 a.D.), por se recusarem a adotar o domingo pascal. Indicações tais como essa são suficientes para mostrar que a ressurreição de Cristo não foi comemorada em domingos semanais ou na páscoa dominical desde o início do cristianismo. Os fatores sociais, políticos e religiosos que contribuíram para a mudança do sábado para o domingo e da páscoa para o domingo pascal são discutidos extensivamente em minha tese já mencionada.

Reuniões Religiosas no Primeiro Dia da Semana

            Em sua Carta Pastoral, o Papa João Paulo II reivindica que “desde os tempos apostólicos, “o primeiro dia após o Sábado”, o primeiro dia da semana, começou a modelar o ritmo de vida dos discípulos de Cristo (conf. I Cor. 16:2)” (#21). Essa asserção não pode ser legitimamente apoiada pelos textos citados em I Coríntios 16:1 a 3 e Atos 20:7 a 11.
            O plano de depósito no primeiro dia mencionado por Paulo em I Coríntios 16:1 a 3 dificilmente poderá sugerir que “desde os tempos apostólicos, as reuniões dominicais foram para os cristãos, de fato, momentos de partilha fraternal com os pobres” (#70). O apóstolo claramente declara o propósito do seu conselho: “para que não se façam coletas quando eu for.” (I Cor. 16:2). O plano então é proposto não para realçar a observância do domingo mediante a oferta de donativos aos pobres, mas para garantir uma substancial e efetiva coleta em sua chegada. Quatro características podem ser identificadas no plano de Paulo. A oferta devia ser posta à parte periodicamente (“no primeiro dia de cada semana” -- verso 2); pessoalmente (“cada um de vós” -- verso 2); privativamente (“em casa” -- verso 2), e proporcionalmente (“conforme a prosperidade de cada um” -- verso 2). Por que Paulo aconselharia a pôr de lado o dinheiro, particularmente, em casa, se a igreja se reunia regularmente para a adoração no domingo?”
     A menção paulina do primeiro dia da semana poderia ser motivada mais pela prática do que por razões teológicas. Esperar até o final da semana ou do mês para separar alguém sua contribuição ou economias é contrário às sadias práticas orçamentárias, uma vez que poderia achar-se com os bolsos e as mãos vazias. Por outro lado, se no primeiro dia da semana, antes de planejar qualquer gasto, alguém separasse o que tencionava dar, os fundos remanescentes seriam assim distribuídos para atender a todas as necessidades básicas. O texto, portanto, propõe um planejamento semanal útil para assegurar uma contribuição substancial e ordenada em favor dos irmãos pobres de Jerusalém. Mas, extrair maior significado do texto em questão certamente o distorcerá.
            O tempo e a maneira do encontro de Trôade registrado em Atos 20:7 a 11 indica uma reunião de despedida por causa da partida de Paulo, e não uma costumeira e regular reunião dominical. Em realidade, o encontro teve início na noite do primeiro dia, o qual, de acordo com a contagem judaica, correspondia ao nosso sábado à noite, e continuou até a manhã de domingo, quando Paulo partiu. Sendo um encontro noturno ocasionado pela partida de Paulo ao raiar do dia, é dificultoso pensar-se numa observância dominical regular. O modo mais simples de explicar a passagem é que Lucas menciona o dia do encontro não porque era domingo, mas principalmente porque (1) Paulo estava “pronto para partir” (20:7); (2) o extraordinário milagre de Êutico ocorreu naquela noite e (3) ele proveu uma significativa e adicional referência cronológica para descrever o início da jornada de Paulo.
            A reivindicação de que “o livro de Apocalipse dá evidência da nomeação do primeiro dia da semana como “dia do Senhor” (Apoc. 1:10)” (#21), não pode ser apoiada pelo uso da frase no Novo Testamento ou literatura contemporânea. A primeira designação do domingo como “dia do Senhor” ocorreu por volta do final do segundo século, no evangelho apócrifo de Pedro. Esse uso não pode ser legitimamente aplicado a Apocalipse 1:10. A razão maior é que se o domingo já fosse recebido pelo nome de dia do Senhor no fim do primeiro século, quando tanto o evangelho de João como o livro do Apocalipse foram escritos, deveríamos esperar que a nova nomenclatura fosse utilizada consistentemente em ambas as obras, especialmente porque são do mesmo autor, escritas aproximadamente ao mesmo tempo e na mesma área geográfica.
 Se a nova designação “dia do Senhor” já existisse ao final do primeiro século, e expressasse o significado e a natureza da adoração no domingo cristão, João dificilmente teria tido razões para usar a frase hebraica “primeiro dia da semana” em seu evangelho. Portanto, o fato de que a expressão “dia do Senhor” ocorre no livro apocalíptico de João mas não em seu evangelho, onde o primeiro dia é explicitamente mencionado em conexão com a Ressurreição (João 20:1) e as aparições de Jesus (João 20:19 e 26), sugere que o “dia do Senhor” de Apocalipse 1:10 dificilmente poderá referir-se ao domingo (para uma discussão sobre esse texto, ver meu livro From Sabbath to Sunday, págs. 111 a 131).
 Resumindo, a tentativa da Carta Pastoral de encontrar apoio bíblico para a observância do domingo nas referências neotestamentárias (Marcos 16:2 e 9; Lucas 24:1; João 20:1), no encontro do adeus em Trôade no primeiro dia da semana; no plano particular de separação de meios mencionado por Paulo em I Cor. 16:1 a 3, e na referência ao “dia do Senhor” em Apocalipse 1:10, não é nova. Os mesmos argumentos foram repetidamente usados no passado e mostraram-se insuficientes. Um fato importante, amiúde ignorado, é que se Paulo ou qualquer outro apóstolo houvesse tentado promover a renúncia ao sábado, uma milenar instituição profundamente arraigada na consciência religiosa do povo, e a adoção em seu lugar da observância do domingo, teria enfrentado considerável oposição por parte dos cristãos judeus, como foi o caso em relação à circuncisão. A ausência de qualquer eco de controvérsia entre sábado e domingo é a mais reveladora evidência de que a introdução da observância do domingo é um fenômeno pós-apostólico.

            3) A Legislação Necessária em Prol da Observância Dominical

Na Carta Pastoral Dies Domini, o Papa João Paulo II dedica um dos cinco capítulos, o de número quatro, a enfatizar a obrigação da observância do domingo e a legislação necessária para facilitar o assentimento a tal dever.

A Base da Obrigação Moral da Observância do Domingo

            O papa entende que a obrigação moral da observância do domingo acha-se arraigada no próprio mandamento do sábado, porque, a seu ver, o domingo é o cumprimento e a plena expressão do significado criativo e redentivo do sábado. Ele escreve: “é dever dos cristãos, portanto, lembrar-se de que, embora a prática do sábado judaico tenha prescrito, sobrepujada pelo ‘cumprimento’ efetuado pelo domingo, as razões subjacentes para a guarda do dia do Senhor inscritas solenemente nos Dez Mandamentos permanecem válidas, ainda que necessitem ser reinterpretadas à luz da teologia e espiritualidade do domingo.” (#62) O papa prossegue, citando a versão deuteronômica do mandamento do sábado (Deut. 5:12 a 15).
            A tentativa de assentar a obrigação moral da observância do domingo no mandamento do sábado nunca foi bem-sucedida. A razão é que, através dos séculos, a maioria dos cristãos tem reconhecido a diferença fundamental entre os dois dias. A diferença é encontrada não apenas em seus nomes diferentes ou números, mas também em sua origem, significado e experiência.
            Em termos de origem, o sábado é uma instituição edênica, enquanto que o domingo é uma criação eclesiástica pós-apostólica. Em termos de significado teológico, o sábado na Escritura envolve perfeita criação, completa redenção e restauração final. Por contraste, o domingo, de acordo com os Pais da Igreja, inclui os três grandes significados: (1) A comemoração do aniversário da criação, especialmente a criação da luz no primeiro dia, conforme sugerido por sua analogia ao Dia do Sol; (2) a comemoração da ressurreição de Cristo, que eventualmente emergiu como a razão fundamental para a guarda do domingo; (3) o amplo campo de especulações com respeito ao significado cósmico e escatológico do oitavo dia. Tais especulações, que abundam na literatura patrística, foram destinadas a provar a superioridade do domingo, como o oitavo dia, em contraste com o sábado, o sétimo dia.
Finalmente, essas especulações foram repudiadas no quarto século, quando a necessidade de provar a superioridade do domingo não mais existia (para textos e discussão, ver From Sabbath to Sunday, págs. 278 a 301).
            Os argumentos teológicos desenvolvidos pelos Pais para justificar a guarda do domingo dificilmente apóiam a pretensão da Carta Pastoral, de que o domingo é o cumprimento do significado criativo e redentivo do sábado e, conseqüentemente, sua observância pode ser legitimamente assentada no quarto (terceiro para os católicos) mandamento.
            Em termos de experiência, a essência da observância do sábado é a consagração do tempo. Ela se cumpre pela dedicação de prioridade a Deus no pensamento e no viver do indivíduo, durante as vinte e quatro horas do sábado. Por contraste, o domingo teve origem como uma primeira hora de adoração (Justino, Apologia, 67), seguida de atividades seculares. A despeito dos posteriores esforços feitos por Constantino (321 A.D. – Lei Dominical), pelos concílios da igreja e os puritanos, para transformar o domingo num dia santo, a realidade histórica é que ele tem permanecido como uma hora de adoração ao Senhor, e não como o dia do Senhor para adoração e descanso. O reconhecimento dessa realidade histórica tem facilitado a antecipação da obrigatoriedade da guarda do domingo para a noite de sábado, uma prática que está se tornando extremamente popular, não apenas entre os católicos como entre os protestantes.
            Essas considerações sugerem que a tentativa de firmar a obrigação moral da observância do domingo sobre o mandamento do sábado está destinada a falhar, simplesmente porque teológica, histórica e existencialmente o domingo não é o sábado.

A Legislação Necessária Para Facilitar a Observância do Domingo

            A Carta Pastoral observa com correção que antes da lei promulgada por Constantino em 321 a.D., a guarda dominical não era amparada por legislação civil (#64). Em muitos casos, os cristãos assistiam aos serviços matinais e então se ocupavam no restante do dia em seus vários afazeres. Assim, a lei dominical de Constantino, como o papa destaca, não era “uma mera circunstância histórica sem nenhum significado especial para a igreja” (#64), mas uma proteção providencial que tornou possível aos cristãos observar o domingo “sem impedimentos” (#64).
            A importância da legislação civil que garante o descanso dominical é indicada pelo fato de que “mesmo após a queda do império, os concílios não cessaram de insistir sobre disposições (legislação civil) concernentes à observância dominical” (#64). À luz desse fato histórico, o papa conclui que mesmo “em nosso contexto histórico permanece a obrigação (do Estado) de assegurar que cada um tenha liberdade, repouso e relaxamento que a dignidade humana requer, juntamente com as necessidades religiosas, familiares, culturais e interpessoais que são difíceis de atender se não houver garantia de, pelo menos, um dia por semana no qual o povo possa descansar e celebrar.” (#66)
            A necessidade de uma legislação civil que garanta o descanso dominical, destaca o papa, foi reafirmada pelo Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum (1891), onde ele fala que “o descanso dominical é um direito do trabalhador que o Estado precisa garantir” (#66).
      O papa acredita que a legislação dominical seja especialmente necessária hoje, em vista dos problemas físicos, sociais e ecológicos causados pelos avanços tecnológicos e industriais. “Portanto”, conclui o papa, “nas circunstâncias particulares de nossos tempos, os cristãos devem se esforçar para assegurar que a legislação civil respeite seu dever de guardar o santo domingo”. (#67)
            De acordo com a Carta Pastoral, a legislação sobre o descanso dominical é necessária não apenas para facilitar a observância religiosa do domingo, como também para promover os valores sociais, culturais e familiares. Diz o papa: “Através do descanso dominical, as diárias preocupações e obrigações podem achar suas próprias perspectivas; as coisas materiais com as quais nos preocupamos, dão lugar a valores espirituais; no momento do encontro e livres das pressões, vemos a face das pessoas com quem convivemos.
Mesmo as belezas da Natureza, tão freqüentemente arruinadas pelo desejo humano de exploração, o qual se volta contra o próprio homem, podem ser redescobertas e apreciadas em sua plenitude.” (#67)

Avaliação do Apelo Papal a Uma Legislação Dominical

            Avaliando o apelo do Papa João Paulo II em prol de uma legislação dominical, é importante distinguir entre sua legítima preocupação pelo bem-estar social, cultural, ecológico e religioso de nossa sociedade, e as injustiças que tal legislação pode causar às minorias que, por razões pessoais ou religiosas, escolheram descansar e adorar no sábado ou em qualquer outro dia da semana.
            Convocar os cristãos a “se esforçarem para assegurar que a legislação civil respeite seu dever de guardar o santo domingo” (#67), significa ignorar que vivemos hoje numa sociedade pluralística onde há, por exemplo, cristãos e judeus que desejam observar o santo sábado do sétimo dia, e os muçulmanos, que desejam guardar a sexta-feira.
            Se os guardadores do domingo esperam que o Estado o endosse como dia oficial de descanso e adoração, os observadores do sábado, então, têm igual direito de esperar que o Estado apóie o sábado da mesma maneira. Para ser justo com os vários grupos religiosos e não-religiosos, o Estado teria que promulgar uma legislação que garantisse dias especiais de descanso e adoração às diferentes pessoas. Tal lei é inconcebível porque romperia com nossa estrutura socioeconômica.
            Leis dominicais conhecidas como “Leis azuis” estão ainda nos livros de alguns Estados americanos e representam o desagradável legado de um passado intolerante. Tais leis se têm mostrado um fracasso, especialmente porque seus intentos ocultos eram religiosos, especificamente para fomentar a observância do domingo. As pessoas se ressentem de qualquer tentativa do Estado de impor-lhes práticas religiosas. Esse é um princípio fundamental da primeira emenda da constituição americana: “O Congresso não fará nenhuma lei respeitante ao estabelecimento de religião.”
            A legislação dominical é hoje supérflua por causa da curta semana de trabalho, com um longo fim de semana de dois ou mesmo três dias. Isso já torna possível à maioria das pessoas observar seu sábado ou domingo. Problemas ainda existem, especialmente quando um empregador não está disposto a adaptar-se às convicções religiosas do trabalhador. A solução não é buscar uma legislação dominical ou sabática, mas, a exemplo da pendente lei de Liberdade Religiosa no Trabalho, incentivar os empregadores a se ajustar às convicções religiosas de seus funcionários, quando essas não provocarem inconvenientes à empresa.
            A solicitação papal em favor de uma lei de descanso dominical parece ignorar que leis dominicais não têm contribuído para resolver a crise da reduzida assistência à igreja. Em muitos países europeus, várias leis dominicais estão em vigor já por muitos anos. Muitos estabelecimentos estão fechados aos domingos. Mesmo postos de abastecimento não funcionam aos domingos, fato que tem custado muito aos desinformados turistas americanos. A decretação de leis dominicais tem facilitado a freqüência às igrejas? Absolutamente não! A verdade é que a assistência à igreja na Europa Ocidental é consideravelmente mais baixa do que nos Estados Unidos, estando em torno de 10% da população cristã. Na Itália, onde nasci, estima-se que 95% dos católicos vão à igreja três vezes na vida = quando nascem, se casam e morrem.
            O declínio moral e religioso de nossa sociedade é devido não à falta de legislação, mas à ausência de convicções morais que motivem o indivíduo a agir com retidão. A igreja deveria buscar resolver a crise da diminuta freqüência à igreja não via legislação, mas mediante renovação moral e espiritual interior de seus membros. O que muitos cristãos necessitam descobrir hoje é que o cristianismo não é meramente uma herança cultural que os mantém indo à igreja de vez em quando, mas um compromisso com Cristo. Esse compromisso é expresso de modo especial no dia de sábado, quando interrompemos nosso trabalho, de forma a permitir que nosso Salvador opere mais plena e livremente em nossa vida.
            Encerrando, eu gostaria de sugerir ao Papa João Paulo II que faça um apelo apaixonado pelo reavivamento da observância do domingo, neste tempo em que a assistência à igreja diminui a níveis alarmantes. A preocupação do papa é legítima porque os cristãos que ignoram o Senhor no dia que eles chamam de “dia do Senhor”, finalmente ignorarão a Deus em todos os dias de sua vida. Essa tendência, se não revertida, pode significar a ruína do cristianismo.
            A solução para a crise deve ser buscada, todavia, não mediante apelação ao Estado para legislar sobre o dia de descanso e adoração, mas convocando os cristãos a viver de acordo com os princípios morais dos Dez Mandamentos. O quarto mandamento convoca especificamente o cristão a lembrar-se do que muitos se têm esquecido, isto é, que o sétimo dia é santo ao Senhor nosso Deus (Êxo. 20:8 a 11). O papa reconhece que o sábado bíblico do sétimo dia é “uma espécie de arquitetura sagrada de tempo que assinala a revelação bíblica” (#15). O desafio é ensinar ao mundo essa vital verdade bíblica.
            Nossa angustiada e inquieta sociedade necessita redescobrir o sábado como “sagrada arquitetura de tempo”, que pode edificar e estabilizar nossas vidas e relacionamento com Deus. Num tempo em que muitos estão buscando paz interior e descanso nas pílulas mágicas ou lugares ficcionistas, o sábado nos convida a achar essa paz íntima e o descanso, não por meio de comprimidos ou lugares, mas através da Pessoa de nosso Salvador, que disse: “Vinde a Mim e Eu vos aliviarei.” (Mat. 11:28).

[Material  remetido pelo irmão Ozéias de Oliveira, de Osasco, SP.]

ENTREVISTA SOBRE O TEMA DO DEBATE SÁBADO/DOMINGO COM O DR. SIEGFRIED J. SCHWANTES, VETERANO PROFESSOR DE TEOLOGIA E AUTOR ADVENTISTA

Em recente visita a Washington DC. Claudinei Cândido Silva teve a oportunidade de visitar e entrevistar o Dr. Schwantes e sua esposa, em nome do Clube Brasileiro da Universidade Andrews. Abaixo, a entrevista:

(Clau) Dr. Schwantes, falemos um pouco sobre o papa, ele constitui uma ameaça?
(Schw) Podemos falar do papado, mas não do papa, pois este tem sido muito dedicado, embora a doença e a idade!
(Clau) Sim, mas há pouco tempo, o papa João Paulo II lançou uma encíclica, apresentando o domingo como dia de guarda. Isso constitui uma ameaça aos adventistas?
(Schw) O fato de santificar algum dia é muito bom, porque hoje em dia ninguém se importa com isso, mas quando ele pede apoio dos governos, para que o domingo seja guardado de forma obrigatória, aí as coisas complicam, pois ninguém deve ser coagido em sua liberdade religiosa.
(Clau) É certo que de qualquer maneira este apoio virá, principalmente por parte dos Estados Unidos da América.
(Schw) Sim é verdade, mas isso não é pra já! Não há clima no presente momento, ninguém neste país está preocupado com isto!
(Clau) Dr. Schwantes, a Igreja Católica tem força, num país com princípio histórico protestante ?
(Schw) A Igreja Católica hoje, nos EUA é a denominação religiosa de maior número de adeptos, por incrível que possa parecer.

A Igreja Católica tem nos EUA cerca de 50 milhões de adeptos
Metodista  11 milhões
Batistas do Sul  10 milhões
Batistas do Norte 8 milhões
Presbiterianos 2.5 milhões
Adventistas do 7 dia  900 mil

(Clau) E sobre o pres. Bill Clinton, sua situação não está nada boa não é?
(Schw) O comportamento moral dele é lamentável, do ponto de vista cristão, mas o povo é muito mais tolerante hoje com os deslizes de seus governantes, do que 30 anos atrás.
(Clau) Se o pres. Clinton for obrigado a deixar a presidência, como ficará a situação econômica dos Estados Unidos?
(Schw) O presidente não tem nada que ver com esta prosperidade que está havendo no país (aprox. 7 anos). Realmente, a bolsa de valores tem ido a alturas inimagináveis, altos e baixos são previstos, mas ninguém  vê que isto, o fato de estar acontecendo nesta gestão, o período das “vacas gordas” ser uma simples coincidência.
(Clau) Dr. Schwantes, há uma corrente conservadora nos EUA que luta a favor da “moral”, em que contexto podemos encaixar este fato com a economia mundial ?
(Schw) O Espírito de Profecia prescreve que os últimos acontecimentos serão rápidos e provavelmente uma crise obrigaria os países a se unir e promulgar leis para restabelecer a moralidade. O mundo não pode funcionar a menos que haja um clima de confiança, principalmente nos negócios (interesse maior no mundo capitalista).

Parabéns Dr. Schwantes, pelos 60 anos de serviço dedicados ao Senhor Jesus Cristo!

Obs.: O Dr. Schwantes foi professor na Universidade Andrews e também trabalhou no Líbano, França, México, África, Austrália, Filipinas e, é claro, também no Brasil. É também autor de vários livros, entre eles o Colunas do Caráter. –                 Claudinei Cândido Silva, Clube Brasileiro, Universidade Andrews.

[Material remetido pela amiga Susan Oliver, da Universidade Andrews]

PONDERAÇÕES:

Achei muito interessante e bem documentado o comentário do Dr. Samuele Bacchiocchi, a quem conheço pessoalmente e a quem até entrevistei para uma matéria que foi publicada na Revista Adventista de algum mês de 1979 ou 80. Mais tarde dita enrevista foi reproduzida no periódico El Centinela, editado pela publicadora adventista Pacific Press para atingir leitores hispanos. Ele é um erudito e especialista na questão do sábado x domingo e suas ponderações são muito precisas e bem fundamentadas.
Mesmo com essa análise interessante de Bacchiocchi ainda creio que o que Ellen G. White  escreveu sobre “lei dominical” deve ser interpretado à luz das páginas 33 a 35 do livro Eventos Finais. Continuo opinando que o artigo do professor adventista Jonathan Butler, “O Mundo de Ellen G. White e o Fim do Mundo”, traz a análise mais realista dessa questão. Ellen G. White tratava de questões ligadas ao seu tempo, ao observar iniciativas de ultraconservadores cristãos que queriam moralizar o país à base de legislação de cunho religioso, uma tendência hoje não observada nos EUA. Pelo contrário, quando o Congresso votou o impeachment de Clinton ante os escândalos sexuais em que se envolveu, seu conceito junto ao público cresceu, e não diminuiu. O mesmo se pode dizer sobre o futuro das uniões trabalhistas e movimento sindical (ver Eventos Finais, págs. 116, 117), fatos que tomaram rumo bem diverso das sombrias previsões atribuídas a tais movimentos, típicas de líderes religiosos conservadores do século XIX.
Voltando à questão em pauta, como confirma o Dr. Schwantes, não há a mínima evidência de que o americano esteja tão empolgado com a questão de que dia religioso deva ser observado por quem quer que seja, e um documento de recomendação pastoral do papa (não é encíclica, como alguns referem equivocadamente) não me parece que vai alterar essa cultura americana e mundial. Mesmo os católicos vão dar pouca atenção a isso, como não deram a mínima para os apelos papais contra o controle da natalidade, etc., na encíclica (aí, sim, encíclica) Humanae Vitae.
Se observarmos atentamente o cenário sobre legislação dominical descrito em O Conflito dos Séculos e outras obras escatológicas adventistas, a coisa deveria partir de baixo para cima, e não vice-versa. O povo é que estaria pressionando seus legisladores para impor uma lei dominical para moralização nacional, e não um presidente ditatorialmente estabelecendo isso, sobretudo dos Estados Unidos, nação em que o respeito aos direitos individuais e à divisão de poderes tem tido mais e mais força nestas últimas décadas. E a apatia atual do povo americano quanto a esta questão, que já empolgou alguns poucos na geração da Sra. White e dos pioneiros da fé adventista, é marcante e indiscutível, como assinalam tanto Bacchiocchi quanto Schwantes.
O motivo do documento papal, como Bacchiocchi ressalta, é exatamente a perda de influência da religião católica sobre a cultura, neste mundo secularizado, e o abandono gradual dos católicos à missa. Em  outras  palavras, em lugar de demonstrar a força da Igreja Católica, tal documento revela a sua atual fraqueza em influenciar o público católico-romano e inspirá-lo a maior assiduidade à sua reunião mais solene e importante—a missa dominical. É uma tentativa “bem intencionada” de reverter essa tendência, mas será que vai funcionar? À luz de iniciativas papais anteriores (como a fracassada campanha pela não aprovação do divórcio na Itália e Brasil) não me abalo nem um pouco com isso, embora, claro, os especuladores adventistas de plantão busquem explorar ad nauseam esse tal documento à base de uma exege bíblica de sofrível fundamentação.
Estou convencido de que o tempo vai passar, nada vai acontecer, e esses tais prenunciadores do fim vão tratar de encontrar outros motivos para explorar a boa fé e a expectativa pelo breve advento de nossa comunidade. Quando eu residia em Belo Horizonte apareceu um tal desses especuladores (parece que procedente de Franca, SP) anunciando bombásticas informações apocalípticas e deixando a irmandade de cabelos em pé. Até aí, tudo bem, pois, como disse o ministro brasileiro Pedro Malan, em resposta à indagação de uma repórter sobre certas previsões econômicas para 99, “cada um tem o direito de especular como quiser”. O problema é que esse “sincero” pregador oferece aos irmãozinhos dois vídeos cheios de suas idéias especulativas e sensacionalistas pela bagatela de R$ 40,00!  Para quem anuncia o fim para bem próximo, por que tanta ambição? Até parece que esse pessoal está mais preocupado com o fim de seus estoques de vídeos, apostilas e fitas do que com o fim do mundo. . . . Após realizar minhas conferências em nossas igrejas sobre a Trindade e como lidar com as “testemunhas de Jeová” eu oferecia um conjunto de textos e documentos fotocopiados por R$ 3,00 e ficava às vezes preocupado se isso não irá fazer falta aos irmãos mais pobres. Às vezes até deixava que alguns levassem de graça. . . .
O material do Dr. Schwantes me parece equilibrado, mas ainda contendo algo das especulações escatológicas do adventismo tradicional. Se a Igreja Católica é a maior denominação individual nos EUA, a somatória de todos os protestantes (pois ele não mencionou o dominante segmento dos pentecostais/carismáticos na sua listagem) em muito ultrapassa os números católicos. Também o número que tenho dos Batistas do Sul é de cerca de 30 milhões, e não somente 10, como ele aponta (estive pessoalmente na sede da Southern Baptist Convention, em Atlanta, GA., conversando com um ex-missionário no Brasil e outro líder de tal entidade, o diretor do “Lord’s Day Alliance” [Aliança do Dia do Senhor]).
Ademais, entre os católicos americanos há muitos de uma ala mais liberal e um tanto independente com relação ao Vaticano (como freiras que chegaram até a defender o aborto, em certas circunstâncias), sem falar nos graves escândalos que o catolicismo tem amargado naquele país, com padres e até bispos envolvidos em escândalos de abuso sexual, como apresentados muitas vezes pela imprensa americana (ver Artigo de no. 11, de nosso “Catálogo”).
Também deve-se ressaltar que a declaração de que “ele [o papa] pede apoio dos governos, para que o domingo seja guardado de forma obrigatória” não corresponde à realidade do que consta do documento papal. Os que imaginam isso estão enxergando demais, talvez pelos pressupostos da escatologia adventista anticatólica tradicional.
Uma leitura atenta desta parte do documento papal não fala absolutamente em guarda obrigatória do domingo apoiada por legislação civil, e sim em direito assegurado por lei para o descanso em pelo menos um dia da semana, o que, para os católicos, serviria excepcionalmente bem aplicá-lo ao seu dever religioso dominical. Como isso já ocorre na esmagadora maioria dos países ocidentais (sem grandes efeitos sobre a mentalidade e religiosidade do povo, como Bacchiocchi assinala), tais esforços seriam mais bem aplicáveis às nações não-cristãs ou intolerantes aos direitos religiosos de minorias. Nessas regiões é que tal direito deveria ser buscado e assegurado.
Bem, ficam aí mais algumas reflexões, mas continuemos pesquisando esses temas interessantes e observando o desenrolar dos acontecimentos.

Um grande abraço
Prof. Azenilto G. Brito

OBS.: quem desejar todo o “pacote do ‘Fórum de Debates Sobre a Lei Dominical’, basta solicitar que remeteremos gratuitamente. Inclui o artigo do Prof.  Jonathan Butler, “O Mundo de Ellen G. White e o Fim do mundo”, cópias de correspondências trocadas com líderes protestantes americanos (inclusive minha entrevista pessoal com o Rev. Jack Lowndes, Diretor do ‘Lord’s Day Alliance’ (Aliança do Dia do Senhor, dos Estados Unidos), entidades de defesa da Liberdade Religiosa, e outros materiais de ponderação e análise sobre a empolgante questão.

Para esses pedidos dirigir-se a qualquer destes e-mails: azenilto@yahoo.com.br, ou otavson@hotmail.com.

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