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Vegetarianismo – Um Debate Interessante
Reo M. Christenson*
Dois artigos da publicação Spectrum, da AAF [Association of Adventist Forums – Associação de Fóruns Adventistas], discutem o tema da alimentação ideal para o cristão segundo perspectivas contrastantes, tendo por base a Bíblia, pesquisas científicas e conceitos filosóficos. Os argumentos aqui confrontados podem nos ajudar a decidir sobre essa questão em bases mais seguras e equilibradas, respeitando-se as preferências e entendimento de outros que tenham hábitos alimentares diferentes dos nossos, sem por isso serem menos dedicados a Deus emenos reconhecidos como Seus filhos. Foram extraídos da edição de fevereiro de 1981 da referida revista.Alimentação Ideal:
Estão os Vegetarianos Adventistas Sendo Intelectualmente Honestos?
O vegetarianismo é uma das crenças favoritas da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Por tratar-se de uma posição singular, não compartilhada por qualquer outra denominação protestante (quanto eu saiba), recebe grande destaque por muitos adventistas—e pelas publicações oficiais da igreja. E uma vez que um interesse crescente pelo vegetarianismo tem-se manifestado ultimamente pelo mundo todo, parece que os adventistas se enchem de orgulho de terem sido “pioneiros” em advogar os méritos de um estilo de vida vegetariano. Para muitos, a estrita adesão a isso é uma das melhores indicações de que a pessoa é de fato um fiel membro da igreja e está conscienciosamente se preparando para o retorno de Cristo. A não adesão é tida por alguns como sinal certo de um relapso espiritual, ou de alguém teimoso que se recusa respeitar e obedecer a luz que foi dada à igreja sobre tal assunto. Refeições vegetarianas são, em geral, um requisito obrigatório em reuniões oficiais.
O fato, porém, é que dentre todas as crenças adventistas, o vegetarianismo é a de menor respaldo bíblico. É notável, tendo em vista o peso que freqüentemente se lhe atribui, que essa crença não conte com uma única passagem de admoestação clara e insofismável tanto no Velho quanto no Novo Testamento para apoiá-la. De igual importância a este questionamento é o fato que o tratamento dado pela igreja à evidência tanto bíblica quanto científica, no que se refere ao comer carne, demonstra um perturbador desrespeito aos requisitos básicos da integridade intelectual.
O empenho por encontrar apoio bíblico indireto (já que não há direto) ao vegetarianismo focaliza-se grandemente sobre o seguinte raciocínio: o regime alimentar de Deus designado ao homem era vegetariano; nenhuma carne devia ser consumida no Jardim do Éden**. Os filhos de Israel foram repreendidos por desejarem carne enquanto vagueavam pelo deserto; quando estava “a carne ainda entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, . . . se acendeu a ira do Senhor contra o povo” (Núm. 11:33). Daniel e seus companheiros adotaram uma dieta vegetariana de preferência a participarem da porção do rei, e “No fim dos dez dias, a sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei”. (Daniel 1:15). João Batista, cuja missão era chamar o povo a um preparo para a vinda do Messias e é visto como um precursor de nossa missão hoje, subsistia comendo gafanhotos e mel silvestre. Paulo, alguns dizem, recomendou contra o comer carne advertindo-nos a não comerem carne “com o sangue nela”, uma vez que a carne não pode ter seu sangue plenamente drenado antes de ser consumida. Esse seria basicamente um conselho vegetariano.Quão conclusiva é essa evidência bíblica? E quão seletiva o seria, tomando a Bíblia como um todo? Uma vez que a morte não fazia parte do esquema divino de coisas, é razoável presumir que o vegetarianismo fosse na verdade a prática dietética do Éden. A fim de comer carne, animais, pássaros ou peixes tinham que morrer, e a morte somente surgiria como punição pelo pecado. Não fica claro nessa situação se o vegetarianismo era melhor
para a saúde do homem ou simplesmente uma conseqüência necessária de um mundo que não conhecia a morte. Por outro lado, uma vez surgido o pecado, as carnes limpas foram comidas com específica aprovação de Deus. De fato, boa parte do alimento consumido pelos levitas, que eram ministros de Deus ao Seu povo, consistia de carne sacrificada para os pecados do homem. Se o Senhor entendesse que uma dieta vegetariana promovesse o bem-estar espiritual do homem, é curioso que os Seus líderes espirituais deviam subsistir tão destacadamente com o consumo de carne. E os israelitas, como pastores de ovelhas e gado, sempre foram comedores de carne, como numerosas referências vetero-testamentárias atestam.
Quanto significado deve-se atribuir ao fato de que os filhos de Israel inapropriadamente “desejaram” carne, e que o Senhor os puniu por esse desejo? Se lermos as várias passagens associadas com esse evento, aprendemos que os israelitas também desejaram os pepinos, melões e cebolas (Núm. 11:5). A lógica determinaria que se fosse pecado ansiar por comer carne, seria igualmente pecado desejar esses alimentos vegetais. Parece bastante claro, contudo, que a ofensa dos israelitas era a sua insatisfação com o que o Senhor lhes havia dado—o maná. Revelavam um espírito de queixumes e amargura, uma grande ingratidão a despeito do regime alimentar perfeito que lhes foi dado pelo Senhor. E esse espírito é que constituiu o seu pecado.
Em lugar de se “contaminarem” com as carnes e vinho da mesa real, Daniel e seus amigos desejaram “legumes a comer e água a beber”. Receberam o alimento que preferiram, e os resultados foram gratificantes (Dan. 1:12-15). Mas por que, de fato, eles foram vegetarianos durante esse período? Só podemos especular, logicamente, mas seja notado que os babilônios não faziam distinção entre carnes limpas e imundas. Nem em seus matadouros cumpriam os requisitos da lei mosaica. Isso podia muito bem responder pelo desejo dos jovens hebreus em limitar-se a um regime vegetariano. Seja como for, não parece que Daniel fosse vegetariano como prática estabelecida. Em Daniel 10:3, o profeta refere-se a um período em que estava em lamentação, quando “manjar desejável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras”. A interpretação mais razoável deste texto é que Daniel ungiu-se e comeu carne após terem-se passado as três semanas. Se você diz: “Não comerei sobremesa por três semanas”, o pressuposto natural é de que você recomeçará a comer sobremesa após terem-se findado as três semanas.
João Batista, enquanto pregava no deserto, mantinha um regime vegetariano. Mas seria a dieta vegetariana de João Batista mais significativa do que o regime não-vegetariano de Jesus? É o exemplo do servo maior do que o do seu Mestre? Jesus não só deixou de endossar o vegetarianismo, mas repetidamente sancionou o comer carne—por parábola, ação, milagres e por exemplo. Na parábola do filho pródigo, o pai celebrou o retorno de seu filho desviado matando um bezerro cevado. Isso não respalda diretamente o consumo de carne, mas uma vez que Jesus podia formular Suas parábolas como desejasse, o fato de ter incluído carne como parte das festividades que celebravam o retorno do pródigo de uma vida pecaminosa não deixa de ter valor comprobatório. Ademais, quando Jesus fez a pergunta se um pai daria uma serpente ao filho que lhe pedisse um peixe, está claramente comparando algo desejável com uma coisa indesejável.
Estamos todos cientes de que um dos maiores milagres de Jesus envolveu a multiplicação de peixes, quando os 5.000 foram alimentados. Caso Ele desejasse sugerir que uma dieta vegetariana seria preferível, poderia ter somente multiplicado os pães e dramaticamente destacando tal ponto de vista. Ele, porém, não agiu assim. Após Sua ressurreição, ajudou Pedro e alguns outros discípulos a conduzirem uma expedição de pesca excepcionalmente bem sucedida: [“Lançai a rede à direita do barco e achareis” (João 21:6)]. E conquanto estivesse Se preparando para ascender ao Pai, comeu carne quando o grupo de pescadores veio à terra.Jesus teve numerosas oportunidades para recomendar o vegetarianismo, mas declinou de fazê-lo. Todo aspecto de Sua vida tendo tinha algo a ver com regime alimentar apóia o consumo de carne, não a prática vegetariana. Afinal, não é Sua vida o exemplo máximo para seguir? Pode-se quase sentir o desapontamento inconfessável de muitos adventistas quanto ao exemplo de Jesus—se Ele ao menos tivesse sido vegetariano!***
Paulo admoesta os judeus conversos a se absterem de “carnes sacrificadas aos ídolos, sangue e coisas estranguladas”. Seria este um sutil endosso ao vegetarianismo? Evidentemente, não. Enquanto liberava esses crentes duma multidão de restrições mosaicas, ele lhes recorda que os requisitos mosaicos permanecem em efeito quanto à ingestão de sangue e de carne que não havia sido apropriadamente sangrada. E ele não desejava dar nenhum apoio simbólico ao culto aos ídolos permitindo que se comesse carnes sacrificadas aos ídolos. Se comer carne fosse proibido por causa de não ser o sangue sempre totalmente drenado da carne, os israelitas violariam as ordenanças divinas mesmo quando comendo carne ao estilo kosher. Mas Paulo estava claramente tentando descartar exigências mosaicas desnecessárias para os cristãos, antes que torná-las mais rigorosas.
Falando-se de Paulo, a propósito os vegetarianos não costumam citar sua advertência de que “nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé . . . e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças” (1Timóteo 4:3). Quantos de nós se sentiriam à vontade, mesmo numa reunião religiosa, se este verso fosse citado quando o vegetarianismo estivesse sendo discutido?
Há outra evidência bíblica a considerar. Êxodo 16:2 reza: “Ao crepúsculo da tarde, comereis carne, e, pela manhã, vos fartareis de pão, e sabereis que eu sou o Senhor, vosso Deus”. Deuteronômio 12:15 declara: “Porém, consoante todo desejo da tua alma, poderás matar e comer carne nas tuas cidades, segundo a bênção do Senhor, teu Deus”. Ambos esses versos parecem associar o comer carne com as bênçãos e prodigalidade de Deus.
Não somente Moisés permitiu expressamente a ingestão de carnes limpas, mas também os três mensageiros do Senhor enviados para assegurar a Abraão e Sara que ela iria dar à luz um filho em sua idade avançada, consumiram “um novilho, tenro e bom” (Gên. 18:7). Presumivelmente, aqueles eram anjos disfarçados em seres humanos. Não se espera que anjos enviados por Deus se conduzam de molde que O desagrade.
Ainda mais enfático é o fato de que quando Deus ordenou que corvos alimentassem Elias, “junto ao ribeiro de Querite”, poderia tê-los ordenado levar para Elias qualquer alimento que desejasse. Escolhendo, porém, dentre a imensa variedade de substâncias comestíveis sobre a Terra, Ele preferiu fazer os corvos levarem a Elias “pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer” (1 Reis 17:6). Tenha-se em mente que ter sido isso antes de que ter sido levado ao céu num “carro de fogo, com cavalos de fogo”. (2 Reis 2:11). Ou seja, ele comeu carne enquanto se preparava para a trasladação. Sem dúvida, se Deus concedesse a Elias uma dieta de frutas, nozes e verduras, os vegetarianos adventistas iriam jubilosamente declarar isso como clara evidência da preferência divina por um regime alimentar vegetariano para os Seus filhos. Contudo, esse episódio da vida de Elias é cuidadosamente evitado quando se discute o vegetarianismo.
Em suma, se é razoável presumir que o vegetarianismo fosse o regime alimentar preferível para o homem caído, é igualmente razoável—levando-se em conta todas as evidências—concluir que um regime que inclua carne foi a dieta preferida por Deus para o homem caído e para aqueles que foram tão vitoriosos na vida espiritual como Elias, para não falar do próprio Cristo.
Há, aparentemente, total falta de suporte bíblico confiável para o vegetarianismo. Devemos, porém, praticá-lo por ter-se tornado o alimento cárneo mais doentio nesta época, sendo, daí, menos adequado ao consumo humano? Poderia ser possível, contudo não há base científica para comparar a qualidade da carne de hoje com a de séculos anteriores. Mesmo nesse ponto, a evidência como um todo não apóia as alegações dos vegetarianos.
De fato, aditivos, poluição de rios, lagos e oceanos têm muitas vezes causado preocupação quanto à segurança de comer alimentos do mar. Mas há também apreensão a respeito do consumo de frutas e vegetais em vista dos vastos montantes de produtos agrotóxicos aplicados sobre plantações nestes tempos. Ademais, a aflotoxina—derivado de um fungo que se desenvolve em amendoins e outros grãos armazenados—é um dos carcinógenos mais letais conhecidos pelo homem. William Tucker observou que “o câncer de estômago é abundante em nações subdesenvolvidas da Ásia e África” (200 vezes mais elevada do que nos EUA), acredita-se que em razão da presença dessa substância na alimentação popular.1 Tucker aduz que “a maior quantidade de aflotoxina já encontrada nos Estados Unidos pela Food and Drug Administration foi numa jarra de ‘manteiga de amendoim natural’”.2 Se carne pode ser perigoso para a saúde sob certas circunstâncias, também os grãos e a manteiga de amendoim o seriam.
Quanto a segurança dos produtos cárneos, é importante observar que a tuberculose, outrora muito comum entre o gado, foi em grande parte eliminada nos Estados Unidos. Isso se dá também com a doença de Bang e a febre aftosa. Muitas outras doenças em animais e aves são minimizadas pelo regime alimentar cuidadosamente preparado e pelas modernas práticas veterinárias. Em tempos passados, por outro lado, a carne preparada para o consumo humano não era refrigerada, o que inevitavelmente produzia deterioração e contaminação. Também ficava normalmente exposta a moscas, poeira e contaminantes variados que atualmente podem ser evitados em grande escala. E conquanto nenhuma pessoa bem informada acredite que as práticas de inspeção governamental sejam plenamente adequadas, certamente são muito superiores à total falta de inspeção que antes prevalecia.Não se está advogando que a igreja abandone sua crença de que a carne pode algum dia tornar-se tão doentia ou contaminada que seu uso deva ser abandonado. Esse dia poderá chegar. Mas quase não existe nenhuma evidência indiscutível de que tal dia já está sobre nós. Conquanto alguns escritores não adventistas recomendem um regime vegetariano, a evidência deles é quase inteiramente retórica e especulativa, antes que cientificamente comprovada.
Todavia, não tem a ciência moderna vindicado o vegetarianismo, agora que sabemos sobre colesterol e sua relação com o consumo de gordura animal? A resposta é “não”. O que a ciência moderna tem feito é lançar dúvida sobre a conveniência de se comer carne gordurosa. Mas não demonstrou a inconveniência de comer quantidades de carnes magras, carnes brancas (de aves) e peixes. Provavelmente, 99 por cento dos nutricionistas americanos recomendam esses tipos de carne como complemento saudável da alimentação.
Uma vez que Deus aprovou especificamente o consumo de carnes limpas, não devemos descartar a possibilidade de que Ele sabia o que fazia. Consideremos algumas evidências recentes. Consumer Reports, um periódico de grande autoridade, destacou que a vitamina B12 é raramente encontrada em alimentos vegetais.3 “Pode surgir um problema entre pessoas que comem pouca ou nenhuma proteína animal”, continuam os editores, “particularmente se sua dieta for elevada em grãos cereais”. Acrescentam que o trigo contém fitatos, que podem tornar o zinco “indisponível para absorção pelo organismo”.4 E acrescentam que “o organismo absorve só cerca de cinco por cento do ferro em fontes vegetais, comparado com cerca de 15 por cento de carnes e peixe. . . . Se você come pouca carne, aves ou peixe, pode já ser deficiente em ferro ou, pelo menos, estar indo nesse rumo. Se for vegetariano estrito . . . o seu consumo de ferro pode ser insuficiente para suas necessidades”.5 A evidência claramente indica que um regime alimentar estritamente vegetariano é um tanto quanto perigoso.
O melhor que os vegetarianos podem fazer é citar evidência de que eles podem ter um regime alimentar adequado sem carne se comerem ovos, e tomarem leite. No entanto, esse é um frágil suporte para o vegetarianismo, uma vez que é igualmente possível ter um regime adequado sem manteiga de amendoim, por exemplo, ou vegeburgers, macarrão e queijo.
Argumenta-se, às vezes, que o consumo de carne devia ser desencorajado porque envolve um negócio cruel e sangrento—os matadouros. Muitas pessoas sensíveis não apreciam essa prática. Mas que o consumo de carne requer matança dificilmente representaria uma nova descoberta; Abraão, Moisés, Elias, Jesus e Deus, o Pai, sem dúvida estavam cientes do que se passa durante as preliminares de servir-se um bife ou um filé. Contudo, eles aprovaram o consumo de carne. Teriam agido insensivelmente ou até sadicamente ao sancionarem uma prática que sensibilidades mais delicadas em nossos dias rejeitam?
Finalmente, o consumo de carne, seja a carne doentia ou não, de algum modo se choca com o desenvolvimento espiritual? As virtudes cristãs florescem mais prontamente quando uma pessoa limita sua alimentação a um regime vegetariano ou ovo-lacto-vegetariano? Se o comer carne constitui um impedimento para a saúde e crescimento espiritual, Deus certamente iria, nas 1.000 páginas das Escrituras, ter-nos advertido contra o seu consumo. Teria Deus dado a Elias uma alimentação que fosse prejudicial a seu bem-estar espiritual? Poderia Jesus ser apropriadamente considerado perfeito, se o Seu exemplo incentivasse os Seus seguidores a consumirem alimentação que militava contra as mais elevadas consecuções espirituais? É verdade, Deus pode fazer revelações progressivas de Sua vontade para o homem, mas não em conflito com Suas revelações prévias: luz adicional, sim; luz contraditória, não.O mais perturbador quanto à atitude da maioria dos vegetarianos adventistas é a seletividade bastante flagrante com que reúnem evidências para respaldar seus pontos de vista. Um poucos versos bíblicos são citados, recebendo uma interpretação altamente questionável, e todos os outros versos bíblicos sobre o tema são simplesmente ignorados. Alguns poucos escritores contemporâneos sobre saúde que os apoiam são citados, enquanto reconhecidas autoridades que discordam destes são desconsiderados. É isso coerente com a integridade intelectual? Se os cristãos vegetarianos exibem menos honestidade intelectual e justiça no trato com as Escrituras e evidência científica do que os não-vegetarianos, fica-se a perguntar se o vegetarianismo está de fato promovendo o seu desenvolvimento espiritual.
Em geral a igreja crê que se devem estudar todos os textos bíblicos quanto a certo assunto antes de chegar a conclusões doutrinárias. Por que não aplicar isso ao consumo de carne? Os médicos adventistas tipicamente não tiram conclusões sem estudar toda a evidência médica relevante. Por que deveria o consumo de carne ser tratado de modo inteiramente diverso, sobretudo em vista de estarem envolvidas evidências científicas?
Há alguns que chegam a alegar: “A evidência não apoia ainda a crença de que comer carnes magras, aves e peixe é prejudicial à saúde, mas tenho fé de que esse dia ainda chegará”. Mas temos o direito de angustiar-nos quando pessoas citam evidência científica e escriturística com parcialidade enganosa para reforçar um ponto de vista predileto. A honestidade intelectual é uma virtude bem apropriada para ser manifestada pelos cristãos.
A Sra. Ellen G. White escreveu certa vez que “antes de aceitar qualquer doutrina ou preceito, devemos requerer um claro ‘assim diz o Senhor’ em seu apoio”.6 Quanto maior ênfase a isso, então, não devia a igreja dedicar ao manter uma crença que não só carece de fundamentação bíblica como ainda se confronta com um impressionante conjunto de evidência bíblica contrária? Como um povo tido por “da Palavra”, esta é uma questão que deve ser encarada de frente.NOTAS E REFERÊNCIAS
* Reo M. Christenson, é professor de Ciência Política na Universidade Miami, Oxford, Ohio. Ele é autor de um livro de texto popular sobre Ciência Política. Artigo traduzido de Spectrum, Vol. 11, no. 3, págs.2-6.
Notas do Tradutor:
** Há ainda quem lembre que no Éden os primeiros pais não trajavam roupas. Haveria isso de inspirar uma “Reforma do Vestuário” que defenda o uso mínimo de roupa ou nudez total como ideal para o cristão?
*** Os registros bíblicos sobre a alimentação de Cristo falam de ter Ele comido peixe, mas sabe-se que, para cumprir plenamente a lei, Jesus também deve ter comido carne de carneiro, o cordeiro pascal que se esperava ser comido por todo israelita no dia apropriado, cf. Êxo. 12:11, Núm. 9:2; Deut. 16:2, etc.Notas Bibliográficas:
1 William Tucker, “Of Mites and Men”, Harpers, agosto de 1978, pág. 56.
2 Ibid., pág. 56.
3 “Nutrition As Therapy”, Consumer Reports, janeiro de 1980, pág. 24.
4 Ibid., pág. 23.
5 “Do Women Need Iron Supplement?” Consumer Reports, setembro de 1978, pág. 504.
6 The Great Controversy, pág. 595.
EM DEFESA DO VEGETARIANISMO
Barry Casey*Tem sido conceito bem típico do adventismo que uma pessoa é vegetariana porque a Bíblia parece recomendá-lo e porque a “mensagem da saúde” o requer. Os adventistas, talvez contra a vontade, acham-se tentando explicar as leis deuteronômicas de saúde juntamente com sua inclinação particular pela reforma de saúde para um público secular que não entende bem a questão. Na realidade, até poucos anos atrás, o vegetarianismo era provavelmente considerado pela maioria das pessoas uma excentricidade limitada a uns poucos fanáticos religiosos, cultuadores da natureza e indivíduos pálidos com mania de regras de saúde.
Muito da ignorância social sobre o vegetarianismo se desfez na última década em vista da fenomenal ascensão dos esportes participativos, um mercado maciço de produtos dietéticos e publicações sobre saúde, bem como a crescente conscientização ecológica.
Não é mais tão difícil como antes solicitar uma refeição vegetariana em muitos restaurantes. Chega a ser quase “chic” ser vegetariano nos meios onde se faz obrigatório praticar o “cooper”, trajar roupas de ginástica e tomar somente água mineral. A sociedade finalmente viu a luz. Isso significa que todos nós que fomos criados como vegetarianos, e nos sentíamos ligeiramente embaraçados a respeito disso, “saímos do esconderijo” e admitimos que temos sido vegetarianos praticantes pela maior parte de nossas vidas.
Contudo, convicções dietéticas e religiosas não são as únicas razões para ser vegetariano. De fato, há firmes razões no que tange aos direitos dos animais e iniqüidades entre as nações afluentes e o Terceiro Mundo são argumentos mais poderosos em favor do vegetarianismo para uma sociedade secular do que convicções religiosas. Nesse aspecto, esta dissertação tratará primeiramente com algumas das questões éticas envolvidas nos direitos e sofrimentos dos animais, e, em segundo lugar, com fatores econômicos e políticos envolvidos na produção e consumo de carne. Argumentarei, ademais, que com base nos argumentos esboçados neste artigo, o consumo de carne em nossa sociedade afluente é imoral.
A questão dos direitos dos animais liga-se intimamente à natureza deles. E ainda surge outra questão–se os direitos dos animais, caso tenham algum, implica obrigações ou deveres de parte dos humanos para com tais seres. Tradicionalmente, resposta a essas perguntas têm tomado a forma de mais perguntas que buscam estabelecer que capacidades se requerem antes de se poder dizer que um animal tem direitos e que outros têm deveres para com ele, e, novamente, determinar que animais dispõem de tal capacidade.
Três capacidades têm sido consideradas essenciais antes que possa ser dito que uma criatura, humana ou não-humana, tem direitos. Uma delas pode-se chamar senciência—a capacidade tanto para o prazer quanto para a dor; outra é a racionalidade—a capacidade da razão; e ainda outra é a autonomia—a capacidade de fazer livres escolhas com base na ação da vontade.
A filosofia tem considerado essas capacidades em variados graus de importância, geralmente com más conseqüências para as relações entre os animais e os seres humanos. O primeiro interesse filosófico pela questão surge com Aristóteles, escrevendo no quarto século AC, que declarou que os animais inferiores têm muito em comum com os humanos, inclusive a capacidade de obter nutrimento, reproduzir-se, estar consciente do mundo mediante os seus sentidos, e sentir, lembrar-se, imaginar e desejar. Segundo Aristóteles, os seres humanos somente possuem capacidade para raciocinar, sendo, assim, a racionalidade a característica diferenciadora entre os humanos e os animais.O raciocínio aristoteliano de Tomás de Aquino com respeito à natureza e direitos dos animais foi formulado sobre a premissa de que a racionalidade é a característica que torna os seres mais ou menos perfeitos. Quanto mais perfeito é um ser, mais poder e direito tem de empregar essas criaturas ou coisas abaixo dela para seus próprios objetivos e propósitos. Assim, os animais se valem de plantas; os seres humanos podem usar plantas e animais; os anjos podem usar plantas, animais e seres humanos; e Deus, por ser Ele o “Intelecto Puro”, pode usar tudo e todos. Os animais, de fato, foram excluídos desse sistema moral em vista de lhes faltar racionalidade e atacam os seres humanos por razões outras que não justiça, “cuja consideração pertence somente à razão”.1 Destarte, os seres humanos podem matar e comer animais para alimentação como um direito que lhes foi concedido por Deus. E o que dizer sobre o sofrimento e crueldade para com os animais?
Aquino não tinha lugar em seu esquema de moral para erros cometidos contra os animais porque acreditava que esses seres simplesmente não dispunham de qualquer direito natural e especial por si mesmos (os direitos naturais sendo aqueles intrínsecos a sua espécie, e direitos especiais sendo os que lhe são conferidos por alguém mais). Para Aquino, direitos pressupõem a capacidade de raciocinar. Assim, conquanto os animais sejam (como crê Aquino) sencientes, a sua incapacidade de raciocinar significa que eles não têm direitos. Os seres humanos, ____________
* Barry Casey completava estudos de pós-graduação em Teologia Sistemática na Claremont Graduate School ao escrever
este artigo. Embora com dados da década de 70, as questões aqui tratadas não deixam de ser aplicáveis ao nosso tempo.portanto, não têm deveres—isto é, nenhum dever direto—de tratar os animais bondosamente. Aquino, no entanto, concedeu que os seres humanos têm um dever indireto de abster-se de praticar crueldade contra os animais, uma vez que tais atos, imaginava ele, conduziria a crueldade contra os seres humanos.
A influência de Aquino tem sido duradoura e difundida. Em meados do séc. XIX, o Papa Pio IX proibiu o estabelecimento de uma Sociedade para a Prevenção da Crueldade aos Animais em Roma com base no fato de que tal medida implicaria que os seres humanos tinham deveres para com os animais.3
Duas objeções podem imediatamente ser feitas quanto à teoria de Aquino. Em primeiro lugar, pode-se concordar com ele em que os seres humanos têm deveres para com as criaturas racionais, mas objetar por dizer que há evidência de que alguns animais superiores têm razão e, portanto, direitos; destarte, temos certos deveres para com eles. Outra objeção, e de maior importância, é levantada por certos filósofos como Plutarco, Jeremy Bentham, e Albert Schweitzer, e reivindica que a indagação importante não é: “Que seres são racionais?”, mas: “Que seres têm senciência?” Segundo tal perspectiva, os seres humanos têm dever e obrigação diretos para com os animais de não lhes causar dor desnecessária. Essa compreensão tem muito a oferecer, como veremos mais tarde.
A objeção de Aquino aos direitos dos animais baseava-se primariamente na falta de racionalidade dos animais; Descartes, filósofo francês do século XVII, alegava que os animais não tinham nem racionalidade, nem senciência, nem autonomia, negando desse modo todas as qualidades que Aristóteles propunha com respeito à natureza dos animais. De fato, Descartes sustentava que os animais eram meros autômatos, máquinas destituídas de alma ou mente, não conscientes de coisa alguma. Portanto, o grunhido de um porco cortado com uma faca seria meramente uma reação mecanicista.
Há uma linha direta de Descartes aos primeiros experimentos dos séculos XVII e XVIII na vivisecção de animais, quando cães eram pregados vivos em tábuas pelas patas e cortados ao meio para que os movimentos de seu sistema circulatório pudessem ser estudados. As asserções de Descartes permitiam aos cientistas raciocinarem que os gritos dos animais não expressavam verdadeira dor, mas tratavam-se de meros mecanismos de resposta.
Segundo o filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, os seres humanos não têm obrigações para com os animais porque esses não são agentes morais conscientes e não têm a capacidade de agir pelo livre arbítrio. Ele cria que os animais são meros meios para um fim, e o fim é a própria humanidade. À semelhança de Aquino, Kanta acreditava que a crueldade para com os animais não era algo bom para a natureza humana uma vez que poderia conduzir a crueldade contra os humanos, não havendo necessidade de se agir bondosamente para com os animais. Tal atitude foi descrita pelo filósofo Peter Singer como “especiesismo”, um termo que encontramos especialmente aplicável ao tipo de atitude para com os animais que a maioria de nós abriga. Singer compara o especiesista ao racista e declara: “Semelhantemente, o especiesista permite que os interesses de sua própria espécie supere os interesses maiores de outras espécies”.3
Fe minha perspectiva, a resposta definitiva a Kant veio em 1780 de Jeremy Bentham, que, em sua Introduction to the Principles of Morals and Legislation [Introdução aos Princípios de Moral e Legislação] declarou: “A questão não é, podem eles raciocinar? Nem, podem eles falar? Mas, podem eles sofrer?”4 Partindo dos princípios utilitários de Bentham, Singer escreve: “Se um ser sofre, não pode haver justificativa moral para recusar levar esse sofrimento em consideração”.5 Isso demarca claramente a linha entre a posição de Aquino e Kant por um lado, e de Bentham e Singer, por outro. “É por isso que”, conclui Singer, “o limite da senciência . . . é a única fronteira defensável da preocupação pelos interesses de outros”.6
Levar a sério o sofrimento dos animais significa considerá-los como tendo interesses e direitos próprios. Significa destronar a atitude kantiana profundamente arraigada que reivindica os animais meramente para os usos e fins dos seres humanos. Significa reconhecer que os animais sofrem como as pessoas sofrem, que a tortura e matança de animais é tão indefensável quanto nossa tortura e massacre de uns aos outros.Minha tese é de que os direitos impõem uma reivindicação sobre outros e pressupõe obrigações e deveres para aqueles que os possuem. O filósofo Joel Feinberg definiu um direito como “uma reivindicação de algo e contra alguém, o reconhecimento daquilo que é buscado para por regras legais ou institucionais, ou no caso dos direitos morais, pelos princípios de uma consciência iluminada”.7 Se aplicamos esta definição ao caso dos direitos dos animais, defrontamos três objeções de imediato.
Primeiramente, como Aquino e Kant alegavam, os direitos são somente atribuíveis a seres que têm a capacidade intelectual de raciocinar e fazer escolhas morais. Sendo que os animais não raciocinam, não podem ter direitos. Nossa resposta a isso é que a última palavra sobre capacidade de raciocínio dos animais ainda não foi declarada. Quem sabe o que podemos vir a descobrir com respeito aos níveis de consciência dos animais e sua capacidade de raciocínio? Se verdadeiramente não alcançamos ainda o fim de nosso conhecimento a respeito da natureza animal, não parece razoável privar os animais de seus direitos com base no fato de que eles não têm a mesma capacidade dos humanos.
Uma segunda objeção a nosso ponto de vista é de que os animais não sabem terem reivindicações ou direitos, assim não podem reivindicar em favor ou contra outros seres por iniciativa própria. Mas neste ponto, por analogia, temos de nos lembrar dos casos de criancinhas e dos insanos ou deficientes que têm um representante para falar por eles num tribunal e sustentar seus direitos. Contra a objeção de que os animais não podem decidir ser representados pode-se dar o exemplo de pessoas defendidas num tribunal por um advogado designado pelo governo, a despeito de sua possível relutância em serem representadas por essa pessoa em particular.
Uma objeção final é de que os animais não têm interesses, um ponto que discutimos anteriormente.
“Posse de interesses”, comenta Feinberg, “de modo algum confere automaticamente qualquer direito particular ou mesmo seja que direito for a um ser. O que faz é revelar que o ser em questão é o tipo de ser ao qual direitos morais ou legais podem ser atribuídos sem absurdo conceptual”. Conquanto os interesses dos animais possam ser pequenos comparados com os dos humanos, são suficientemente óbvios para tornar significativos diálogos de interesses e direitos. Os animais certamente sentem dor e prazer, e parece também terem propósitos, desejos, e um certo senso de conhecimento sobre si.
Creio, então, que os animais têm interesses e, portanto, também contam com direitos. Esses direitos pressupõem que os humanos têm obrigações de honrar os animais e que temos direitos diretos para com os próprios animais. Uma citação final de Feinberg expressa isso sucintamente: “Devíamos tratar os animais humanitariamente mas também devemos fazê-lo por causa do próprio animal, para que tal tratamento seja algo que devemos aos animais como a eles devido, algo que pode ser reivindicado por eles, algo cuja recusa em cumprir seria uma injustiça e um erro. . . .”9
Conquanto eu concorde quanto ao corpo principal do argumento de Feinberg, iria mais adiante para dizer que como seres criados feitos pelo propósito de Deus, os animais têm um direito intrínseco à vida. Tal posição é uma reinterpretação da afirmativa de Agostinho segundo a qual as coisas e seres criados têm um valor intrínseco em virtude de sua criação pelas mãos do Criador.10 É também expresso pelo eco desse sentimento por H. Richard Niebuhr na frase: “Seja o que há, é bom”.11 Isso impõe aos humanos, como mordomos da terra, a responsabilidade de salvaguardar e proteger a liberdade da interferência de animais selvagens, tratar animais domesticados com bondade e impedir sofrimento desnecessário, e, finalmente, quando for necessário matar, que seja procedida do modo mais indolor possível. Também significa que a matança de animais para alimentação devia ser feita somente quando absolutamente necessário para a sobrevivência dos seres humanos. Isso descarta a matança por esporte e para a mera satisfação do paladar humano. A questão de usar animais em pesquisa não pode merecer séria atenção nesta discussão exceto para dizer que a regra geral da menor dor possível se aplica, e que a pesquisa deve ser feita com animais somente quando os resultados de tal pesquisa afeta direta e vitalmente a sobrevivência e bem-estar dos seres humanos.
Embora a crueldade aos animais seja errada, pode haver caos em que se justifique causar dor a eles, tal como pode ser correto em alguns casos infligir dor aos seres humanos. Não obstante, como James Rachels declara: “deve haver uma boa razão para causar o sofrimento, e a razão justificadora deve ser correspondentemente poderosa”.12 Rachels prossegue citando um exemplo do desnecessário e terrível sofrimento de gatos da raça civet que são mantidos na escuridão de abrigos aquecidos até morrerem. Em resultado do torturante calor, que atinge 110 graus Fahrenheit, um almíscar é produzido em seus órgãos genitais que é então removido e utilizado em perfumes. Muitas pessoas considerariam a renúncia ao uso de perfumes como uma forma de protestar contra esse sofrimento um preço baixo a pagar, mas o mesmo argumento pode ser usado com força ainda maior no caso de animais criados para produção de carne.
Agora nos dedicaremos a argumentos mais diretos contra o comer carne, com base nos métodos e práticas da “criação intensa”, cujo resultado é o sofrimento extremo de literalmente milhões de animais cada ano.
As associações que a maioria das pessoas têm quanto à carne em seus supermercados locais raramente envolve imagens de animais reais. Se as pessoas pararem para pensar no processo todo, provavelmente terão vagas noções de um breve instante de dor para os animais ao final de uma vida razoavelmente feliz. Pelo contrário, o matadouro é freqüentemente um bem-vindo escape de uma vida miserável para a maioria dos animais criados para a produção de carne. A indústria da carne é um negócio de bilhões de dólares, e os desamparados animais são tratados como máquinas produtoras de alimento, antes que seres vivos.Há três fatores na criação intensiva que inevitavelmente causam aos animais grande proporção de sofrimento: métodos de criação, de transporte, e de matança. Conquanto os dois últimos sejam certamente áreas com crônicas deficiências, os métodos de criação como praticados neste país [N.T.: o autor se refere aos EUA, onde, em geral, a situação é bem melhor do que em outros países, sobretudo do chamado Terceiro Mundo] são os mais críticos, porque envolvem o prolongamento do sofrimento para virtualmente toda a vida animal.
O processo de transformar os animais em carne é regido primeiro de tudo pela margem de lucro. As grandes fazendas de hoje são basicamente fábricas, onde o maior número de animais que podem possivelmente ser acomodados são abrigados e alimentados ao menor custo para o fazendeiro. Em termos práticos, isso significa que o cuidado e tratamento de animais individuais é nulo, o custo de produção e competição inevitavelmente torna possível somente a atenção mais superficial.
Por exemplo, novilhos criados para corte são mantidos em compartimentos muito pequenos para que se volvam ou mesmo se deitem confortavelmente—muitas vezes passam toda a curta vida com as pernas dobradas por baixo do corpo. Uma vez que a meta da produção de animais para corte é criar os novilhos mais pesados no espaço mais curto de tempo, e manter a carne a mais branca possível, os animais são superalimentados e sub-exercitados. Isso se realiza mediante um processo que doutro modo se consideraria insalubre, mas sob essas circunstâncias opera maravilhas em adicionar peso. A fim de levar os novilhos a comerem o máximo possível, são privados de toda água, sendo sua única fonte de líquido o rico substituto de leite com que são alimentados diariamente. Sendo que os celeiros são mantidos um tanto aquecidos, os sedentos novilhos bebem muito mais do que o fariam se tivessem água disponível; esse excesso de comida os leva a suarem, perdendo umidade que precisam substituir bebendo novamente.
Em vista de que sua dieta líquida é rica em proteína e deficiente em minerais essenciais, os novilhos, em seu desespero, roem a madeira de seus estábulos para conseguirem resíduos e, se tiverem permissão de se volver, tentarão lamber a própria urina em busca de ferro, conquanto sob circunstâncias normais achem isso repugnante. Não lhes são permitidos virtualmente quaisquer movimentos, pois o exercício queimaria calorias necessárias para os dispendiosos filés de jantar e forma músculos que são duros e fibrosos.
A indústria de aves é outro exemplo primário do princípio kantiano levado ao extremo. Os frangos são criados para dois propósitos: pôr ovos e tornar-se frangos de mesa. O passo essencial nesse processo é que os avicultores reunam essas aves em superlotados abrigos, sem aberturas. Geralmente os frangos para corte são criados em gaiolas enfileiradas umas sobre as outras e alimentadas e dessedentadas automaticamente através de alimentadores suspensos do teto. À medida que os frangos crescem, ficam comprimidos, oito a dez ao mesmo tempo em gaiolas menores do que uma página de jornal.13 O estresse da superlotação e a falta de exercício e atividades naturais levam à eclosão de brigas que freqüentemente resultam nas aves mais fortes matando e comendo suas companheiras mais fracas.
O hábito de se picarem e o canibalismo são considerados “vícios” pelos avicultores, conquanto tal comportamento seja inevitável dadas as circunstâncias. Conquanto o avicultor possa pessoalmente lamentar a dureza e sofrimento causados a seus frangos pela superlotação, há pouco que se possa fazer para aliviar a situação, a menos que esteja disposto a dispensar sua margem de lucro. Na indústria avícola, a eliminação da superlotação geralmente representa a eliminação do lucro; destarte, a fim de impedir que as aves se piquem umas às outras até a morte, o avilcultor com freqüência utiliza iluminação bem rala. Outra medida mais drástica, e quase universalmente empregada, é chamada de “desbicamento” e consiste em “inserir a cabeça do frango num instrumento semelhante a uma guilhotina que corta parte de seu bico. Como alternativa a isso, a operação pode ser realizada com uma faca aquecida”.14 Embora alguns avicultores aleguem que a operação é indolor, um comitê britânico formado para examinar aspectos dessa atividade descobriu que, de fato, o processo atravessa uma camada de tecido extremamente sensível, causando severa dor.15
A vida de uma galinha poedeira dificilmente seria mais fácil do que a de um frango de corte. As poedeiras são desbicadas, forçadas a botarem ovos sobre superfícies inclinadas de gaiolas de arames lotadas com quatro a cinco outras galinhas, e sobrevivem em semi-escuridão até que sua produtividade de ovos cesse. As gaiolas de arame, conquanto extremamente desconfortáveis, têm uma justificativa econômica, segundo se alega: os respingos de excremento se esvaem pelos vãos e se acumulam no chão, de onde são recolhidos numa única operação. Desafortunadamente, os pés de um frango não são adaptados para se agacharem sobre superfícies de arame e, em conseqüência, muitos avicultores relatam casos de frangos que ficaram ancorados à superfície da gaiola em vista de que suas unhas cresceram em torno dos arames.16 Ademais, os frangos com freqüência sofrem de constantes abrasões ao terem os arames esfregando-se contra seus corpos, e marcas de sangue e porções de pele solta não são incomuns, especialmente perto de suas partes traseiras.
Estes são exemplos extraídos de pesquisa conduzida em várias granjas gigantescas pelo país.17 Juntamente com exemplos tratados anteriormente, sugerem que mesmo os métodos mais modernos e avançados de avicultura intensiva têm incentivado o lucro por cima de provocar o sofrimento a milhões de animais. O imenso apetite americano por carne requer métodos de avicultura em larga escala, o que, ao que parece, garante virtualmente que milhões de animais levem vidas de tédio e condições desnaturais na melhor das hipóteses, com sofrimento prolongado e intenso, e temor, nas piores situações.Em face da evidência, somos confrontados com o que William James chamou uma “opção forçada”—não podemos decidir. O que podemos e devemos fazer se estamos convencidos do sofrimentos dos animais criados para a indústria de carne?
Certamente, devemos tentar influenciar nossos representantes políticos a criarem legislação que regulamente com maior rigor as práticas de avicultura intensiva a fim de reduzir o sofrimento de todas as formas possíveis. Não admira que o lobby da agro-indústria é um dos mais poderosos do país, representando milhões de dólares gastos anualmente para influenciar políticos. Ademais, as ligações entre a agro-indústria e o Departamento de Agricultura dos EUA são de longa data, poderosas e cordiais. Dois exemplos recentes: Clifford Hardin, secretário de agricultura na administração Nixon, renunciou em 1970 para tornar-se diretor executivo da Ralston Purina, uma das maiores corporações do país no campo da agro-indústria; seu sucessor, Earl Butz, renunciou a uma posição na Ralston para assumir o secretariado.18 Conquanto esforços nessa área possam não ter efeitos imediatos, ainda fazem parte de um padrão mais amplo de protesto que pode finalmente fazer uma diferença.
Outra ação indireta mas substancial é criar nosso filhos como vegetarianos, e ensiná-los a respeitarem e protegerem os direitos dos animais. Ademais, apoiar organizações dedicadas a proteger a vida selvagem e o meio-ambiente pode ter ramificações internacionais, como revelou a legislação mundial contra a caça indiscriminada às baleias.
Poder-se-ia suscitar a questão de que, se meios pudessem ser criados para que os animais fossem criados, transportados e mortos de maneira humana, o que haveria de errado em comer carne? A resposta é, primeiro, que mesmo que tais métodos pudessem ser desenvolvidos, eles elevariam tanto o custo da produção de carne que somente os ricos poderiam comprar tal produto. A avicultura de larga escala é bem sucedida por causa dos métodos de produção empregados na criação de animais. Métodos humanitários simplesmente não são lucrativos, não importa quão justos possam ser para os animais envolvidos.
Em segundo lugar, não importa quão humanos sejam os procedimentos para criar e matar animais para venda de carne. É altamente improvável que se possa ter alimentação animal e continuar a considerá-los como fins em si mesmos. Se os animais são criados para o único propósito de deleitar nosso paladar, é difícil ver como podemos chegar a considerá-los mais do que criaturas apenas para nosso uso. Oliver Goldsmith, ensaísta humanitário do século XVIII, caracterizou tais pessoas ao escrever: “Eles se apiadam, e comem os objetos de sua compaixão”.19 Pela ingestão de animais, reforça-se o especiesismo contra animais que têm existido por milênios. A questão básica, afinal de contas, é que em vista de terem os animais senciência e poderem sofrer, tendo variados graus de consciência, têm direito à vida tanto quanto os humanos. A exata extensão dos direitos dos animais é uma questão em aberto, mesmo entre ardorosos conservacionista, contudo poucos argumentariam que os animais, pelo menos têm um direito intrínseco à vida. “O consumo compassivo de carne”, onde ingerir carne não é absolutamente necessário para a sobrevivência dos seres humanos, é uma contradição em termos.
Finalmente, a própria questão é somente de interesse teórico porque a situação presente e escolha com que contamos é adquirir a carne de animais que foram tratados desumanamente.
Se alguém está convencido quanto à parte que o consumo de carne desempenha na abolição dos direitos dos animais, indiscutivelmente a ação mais eficaz é tornar-se, ou permanecer, vegetariano. O vegetarianismo é uma forma de boicote e um protesto explícito contra a crueldade dos métodos de agropecuária intensiva. Para a maioria dos vegetarianos, o boicote é permanente, uma vez que raramente comem carne, após terem tomado a decisão de se tornarem ou permanecerem vegetarianos. Conquanto o número de onívoros certamente exceda o número de vegetarianos, ainda os milhares de vegetarianos não estão aumentando a demanda por carne. Ao avançarem as pesquisas sobre saúde e ao se tornar o público mais consciente das crueldades envolvidas na criação de animais para corte, o número de vegetarianos muito provavelmente aumentará. Somente do ponto de vista da preocupação com o direito dos animais, podemos ser gratos com quem quer que se abstenha de comer carne. Os fazendeiros que praticam métodos agro-pecuários intensivos o fazem devido a que é lucrativo e porque há uma tremenda demanda por carne pelos consumidores americanos. Os métodos agropecuários intensivos continuarão sendo usados na medida em que forem lucrativos, e os agropecuaristas continuarão a ter os recursos políticos para combater qualquer reformulação da legislação porque se valerão do argumento de que apenas estão propiciando ao público aquilo que este deseja.
Mas além de abster-se de comer carne, devemos também protestar vocalmente contra infringir os direitos dos animais. Conquanto o boicote do consumo de carne possa ser a medida mais eficaz a longo prazo, a persuasão e o protesto também são importantes. Num certo sentido, precisamos estar prontos “para dar uma resposta” a todos quantos nos indagarem sobre a razão de nosso protesto!
É neste ponto que temos de defrontar nosso especiesismo. É aqui que temos de atestar sinceridade quanto a nossa preocupação para com os direitos dos animais e nosso desejo de reverter a tendência dos séculos contra tais direitos. Enquanto formos consumidores de carne, estamos sendo coniventes e diretamente apoiando o especiesismo aplicado contra os animais por milênios, e perpetuando as estruturas econômicas injustas que tornam a crueldade aos animais necessário e comum. O vegetarianismo representa algo direto, eficaz e imediato que podemos fazer para contribuir, ainda que numa pequena escala, para aliviar o sofrimento dos animais.Outro fator que é de considerável significado na questão do vegetarianismo é a produção de carne economicamente eficiente versus produção de cereais e outros alimentos vegetais. Associado a isso ocorre a desigualdade de produção de alimentos entre as nações ricas, particularmente os Estados Unidos, e os países do chamado Terceiro Mundo. Quando se considera quão intimamente relacionadas e dependentes são as nações modernas entre si hoje em dia, não é necessária muita imaginação para ver porque aquilo com que um fazendeiro no Texas alimenta seu gado diretamente afeta a expectativa de vida de um bebê na Índia.
Nas últimas três décadas, a produtividade agrícola americana aumentou em 50 por cento; de fato, os Estados Unidos tiveram sua própria “revolução verde”.20 Nesse tempo, a produção de milho saltou três vezes por hectare as produções do final da década de 40 e início da de 50. Com essa abundância alimentar, pareceria que a América poderia tanto alimentar o seu povo quanto exportar uma tremenda quantidade de alimentos para nações famintas. Mas assim não se dá. Com o aumento da produtividade, o abismo econômico entre as nações do Atlântico Norte (Canadá, Estados Unidos e Europa Ocidental) e os países do “Terceiro Mundo” continua a se ampliar a um índice alarmante. Em vista de que as nações mais pobres não podiam propiciar os suprimentos de grãos e soja necessários, o fazendeiro americano enfrentou o singular problema de produzir alimento em excesso. A solução foi reduzir a produção retendo a extensão de terra usada para as plantações. O governo americano pagou aos fazendeiros $3,6 bilhões de dólares em 1972 para reter um hectare de cada quatro e meio plantados.21 Ainda assim as plantações atingiram números recordes. Um fato surpreendente e interessante nesse abismo econômico universal vem à tona quando começamos a examinar a relação da produção de carne com a produção de grãos e alimentos vegetais.
Entre os animais produtores de carne (gado, porcos, perus e frangos), o gado é destacadamente o menos eficiente na média de produção de proteína para carne. Frances Moore Lappé relata que “hoje em dia um novilho médio é capaz de reduzir 16 quilos de grão e soja para um quilo de carne em nossos pratos. E os outros 15 quilos? Tornam-se-nos inacessíveis, pois ou é empregado pelo animal para produção de energia ou para criar alguma parte de seu próprio corpo que não comemos (como pelos), ou é inteiramente perdida no esterco”.22 São requeridos 21 quilos de proteína para produzir um quilo de proteína animal para os seres humanos usarem.23 Lappé observa que a discrepância nos dados dessa média é alvo de ferrenha batalha entre os especialistas dos grupos de interesse envolvidos. A discussão gira em torno da diferença em ganho de peso que uma dieta de proteína coloca sobre um bezerro e seu peso corpóreo real. É desnecessário dizer a que chegam os dados que os produtores de grãos são consideravelmente inferiores aos dos estudos por agências governamentais! Não obstante, uma proporção média de 16:1 (dezesseis quilos de proteína em grãos para cada quilo de proteína animal) é um dado numérico operacional bem preciso.24 Lappé caracterizou o novilho como uma “fábrica de proteínas ao revés” e isso é merecido.25
Gado de outro tipo que não sejam novilhos são consideravelmente menos eficientes: os porcos consume seis vezes a proteína que dão em retorno, os perus, quatro, os frangos, três. A produção de leite é ainda mais eficiente, pois requer menos de meio quilo de grão para produzir meio litro de leite”.26
Outro modo de entender a ineficiência do gado como conversor de proteína é pela comparação com as plantas. Um hectare de cereais produz cinco vezes mais proteínas do que um hectare empregado para a produção de carne; os legumes produzem dez vezes mais; e vegetais folhudos aproximadamente 15 vezes mais.27 Admitindo-se que um hectare dedicado à produção vegetal é mais eficiente do que um empregado para a produção de carne, pode-se bem indagar para onde estão indo as tremendas colheitas neste país.
Como resultado da superprodução de plantações de proteína (milho, cevada, aveia, soja, e trigo), um mercado mundial limitado, e a crescente demanda por carne, a operação referida foi imposta para ajudar a aliviar, em parte, a pressão criada sobre o mercado mundial pelo excesso de grãos dos Estados Unidos.
Se um novilho pasta num terreno que só produz grama, ou não seja arável, então a proteína derivada desse novilho é um ganho líquido para os seres humanos, uma vez que não exigiu perda de proteínas para produzi-la. Se esse novilho, porém, é mantido num curral com milhares de outros, então precisa ser alimentado. E o que utilizamos para sua alimentação são grãos que poderiam ser utilizados como proteínas para os seres humanos.
São necessárias 150-200 kg de comida rica em proteína para engordar um novilho cevado para corte. Enquanto em 1940 somente um terço de toda o gado de corte era alimentado com grãos, pelo início dos anos 70 três quartos de todo gado comercializado era assim nutrido. A eficácia das operações com gado americano na redução das colheitas de proteína “em excesso” funcionou tão bem que “por 1973, o gado americano consumia a proteína equivalente a seis vezes a ingestão de proteína recomendada de nossa população humana”.28 Isso significa que alimentamos o gado com cerca de 90% de nossa safra de milho, cevada e aveia.Combinando os dois fatores das enormes safras consumidas pelos animais e a ineficiência dos animais em converter a proteína vegetal em proteína animal, chegamos a alguns dados estatísticos assustadores. Lappé calcula que das 140 milhões de toneladas de grãos e soja com que se alimentou o gado em 1971, somente 20 milhões de toneladas retornaram como carne. O restante, perto de 118 milhões de toneladas de grão e soja, estava inacessível para consumo humano. Isso é suficiente para propiciar a cada ser humano uma xícara de grãos por dia durante um ano.29 Quando se considera que os Estados Unidos produzem três quartos da soja mundial, torna-se evidente que o mundo não pode arcar com os dispendiosos gostos dos americanos.30
Ironicamente, enquanto alimentando com grão precioso e proteínas de soja gado a ser cevado, na verdade desperdiçamos até 20% das carcassas de gado sacrificado eliminando o excesso de gordura. Em lugar da proteína de alta qualidade servir para formar proteína animal, a verdadeira ênfase na produção de carne está nas carnes vermelhas, com um índice da USDA tendo por base a proporção de gordura presente. “O resultado dessa nutrição para obter gordura é um incrível desperdício: muito dela é simplesmente arrancada fora e descartada. . . . Em 1973, cerca de 1,3 bilhões de quilos excessivos foram eliminados de carcassas de gado de corte a nível de varejo”.31 As Nações Unidas registra que o gado nas nações afluentes de fato consomem tanto grão para alimentação quanto pessoas em países pobres consomem diretamente como comida.32
Que diferença faria para o problema da fome mundial se os americanos reduzissem o montante de grãos com que alimentam o gado e reduzissem o seu consumo de carne? Segundo Lester Brown, do Conselho de Desenvolvimento do Exterior, “se os americanos reduzissem o seu consumo só dez por cento num ano, liberariam pelos menos 12t de grãos para o consumo humano—o suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas”. Ademais, “se os americanos parassem de comer gado nutrido com grãos inteiramente, os grãos assim liberados seriam suficientes para alimentar todas as 600 milhões de criaturas da Índia e Bangladesh”.33
O desperdício de grãos e o consumo excessivo não são os únicos fatores com os quais os Estados Unidos e os países afluentes da Europa Ocidental contribuem para a crise no mundo faminto. Segundo as Nações Unidas, as nações ricas, desenvolvidas do mundo importaram, de 1955 a 1973, aproximadamente duas vezes tanto alimento em dólares de nações pobres, em desenvolvimento, quanto exportaram em retorno.34. A ironia no equilíbrio importação-exportação é que os Estados Unidos, uma das nações mais ricas do mundo, na realidade receberam, em 1972, $ 1,5 bilhão a mais de alimentos de nações em desenvolvimento do que exportou para elas. “Não se trata simplesmente de que cada dia comamos duas vezes mais proteínas do que nossos organismos necessitam. Não é simplesmente que devoremos tantas calorias desnecessárias ao ponto de 80 milhões de nós estarmos com excesso de peso. Podemos fazer todas essas coisas tolas e injustas em parte porque cada ano o mundo subdesenvolvido exporta vastas quantidades de alimento para a América do Norte!”35
Pode-se presumir que com a quantidade de produção de carne nos Estados Unidos, poderíamos estar em condições de exportar carne. Que os Estados Unidos são o maior importador mundial de carne não é de surpreender quando se considera que de 1950 a 1973 o consumo médio anual de carnes vermelhas e brancas por um americano saltou de cerca de 30 quilos para perto de 250.36 Nossa carne importada não deriva só da Austrália e Nova Zelândia, mas de muitos países da América Latina também; de fato, “a América importa uma metade de toda a carne que fica para os próprios mexicanos”.37 Isto suscita outra questão política e moral; qual seja--ao importar carne de países latino-americanos, não só os privamos de uma importante fonte atual de sua dieta, mas encorajamos e sustentamos estruturas de poder injustas dentro desses países. Na América Latina, em países como Honduras e México, o gado é possuído por somente uma pequena minoria de famílias ricas que controlam uma maioria da terra arável e colhem os lucros. Honduras, por exemplo, exporta aproximadamente 18 milhões de quilos de carne por ano para os Estados Unidos, mas virtualmente todo o lucro disso vai para uma elite que constitui 0.3% da população total, que possui 27,4% da terra cultivável.38
Seria uma atitude simplista presumir que por meramente reduzir ou cortar nosso consumo de carne, poderíamos tornar a vida mais fácil para a sobrevivência dos pobres nas nações em desenvolvimento. Há complexos fatores sociais, políticos e econômicos envolvidos que tornam soluções fáceis impossíveis. Mas tornando-nos conscientes da importância que o papel da produção e consumo de carne desempenham no mercado mundial, podemos compreender, pelo menos em parte, a seriedade dos problemas que defrontamos.Desejo tirar conclusões do modo mais claro possível sobre essas questões. Primeiramente, em razão de crer que os animais têm direitos intrínsecos à vida e, destarte, o direito de não serem explorados como um meio para os fins humanos, argumentei que é eticamente errado, de fato imoral, perpetuar os séculos de especiesismo contra os animais ao comer carne produzida por métodos de pecuária intensiva. Uma vez que virtualmente toda carne disponível através de cadeias de supermercados e outros pontos de venda é produzida maciçamente desse modo, segue-se que comer carne contribui diretamente para o sofrimento dos animais.
Em segundo lugar, argumentei que a mortandade de animais pela mera preferência do paladar humano é injustificada quando tanto alimento de outras espécie está disponível. Num país afluente como os Estados Unidos, algumas poucas pessoas precisam de carne em sua dieta para sobreviverem e levarem vidas saudáveis. Portanto, parece-me que todo o sofrimento a que os animais se submetem para satisfazer um gosto humano adquirido em muito ultrapassa a necessidade de comer carne. Desse modo, creio que é eticamente errado, na verdade imoral, que os cidadãos de países afluentes onde alimento é abundante insistam em comer carne.
Em terceiro lugar, argumentei que a crescente demanda por carne, particularmente de gado bovino, e a “revolução verde” na produção agrícola têm tendido a criar uma situação em que mais grãos estão sendo utilizados para engordar gado que é consumido diretamente pelos humanos—especialmente humanos nas áreas famintas dos países do “Terceiro Mundo”. Adicionalmente, o ineficiente desperdício de converter grãos e proteína vegetal em proteína animal não só contribui para enorme elevação de custos e ambição desmedida de uma sociedade consumista, mas afeta diretamente a vida de milhões de pobres desnutridos e famintos no “Terceiro Mundo”. Em suma, o mundo está atingindo o ponto em que não mais pode suportar que as nações afluentes consumam muito mais vezes sua parcela dos recursos e bens do mundo. Creio que isto, também, é imoral, e que um regime alimentar vegetariano é um primeiro passo para aliviar a fome mundial e minar o apoio a estruturas econômicas e políticas opressivas, tanto nos países afluentes como no “Terceiro Mundo”.Notas e Referências
1.Tomás Aquino, Summa Theologica, II, II, Q159, art. 2. Citado em, Animal Liberation, de Peter Singer (New York: Avon books,1975), p. 2020. Singer é autoridade no campo dos direitos dos animais; Animal Liberation propicia uma exposição bem mais detalhada e completa dos exemplos dados nesta dissertação. Devo a Singer o despertar minha consciência sobre os direitos dos animais—e por muito do material factual relativo aos métodos de pecuária intensiva e uso de animais.
2 Ibid., p. 203.
3 Peter Singer, “All Animals Are Equal”, in Animal Rights and Human Obligations, ed. Tom Regan e Peter Singer (Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice-Hall, 1976), p. 154. Animal Rights é uma coleção de dissertações que examina várias questões relativas aos direitos dos animais, bem como seleções da história e filosofia sobre a natureza e direitos dos animais.
4 Singer se baseia nos princípios utilitários de Bentham por todo o seu Animal Liberation, construindo o seu argumento pela igualdade dos animais no princípio de Bentham: “Cada um dando conta de um e ninguém, de mais de um”, e repetindo a indagação citada concernente à senciência, na pág. 211.
5. Regan e Singer, Animal Rights, pág. 154.
6 Ibid.
7 Joe Feinberg, “Can Animals Have Rights?” in Animal Rights, p. 190.
8 Joe Feinberg, “Human Duties and Animal Rights”, in On the Fifth Day: Animal Rights and Human Ethics, ed. Richard Knowles Morris e Michael W. Fox (Washington, D.C.: Acropolis Books, 1978), pág. 55.
9. Feinberg, Animal Rights, pág. 196.
10. Santo Agostinho, The City of God, trad. Marcus Dods, The Modern Library (New York: Random House, 1950), pág. 366.
11. H.Richard Niebuhr, Radical Monotheism and Western Culture (New York: Harper Torchbook, ed., 1970), pág. 37.
12. James Rachels, “Vegetarianism and ‘The Other Weight Problem’”, in World Hunger and Moral Obligations, ed. William Aiken e Hugh La Follette (Ewnglewood Cliffs, New Jersey: Prentice-Hjall, 1970), pág. 187.
13. Ibid., pág. 189.
14. Singer, Animal Liberation, pág. 99.
15. Report of the Technical Committee to Enquire into the Welfare of Animals Kept Under Intensive Livestock Husbandry Systems, Command Paper 2836. Citado em Animal Liberation, de P. Singer, pág. 99.
16. Ibid., pág. 106.
17. Ibid., pág. 92s.
18. Ibid., p. 166.
19. Oliver Goldsmith, Collected Works. Citado in Animal Liberation, pág. 163, de P. Singer.
20. Frances Moore Lappé, Diet For a Small Planet, nova edição revista (New York: Ballantine Books, 1971, pág. 7).
21. Ibid., pág. 9.
22. Ibid.
23. Singer, Animal Liberation, pág. 170.
24. Lappé, Diet, p. 382.
25. Ibid., pág. 7.
26. Ibid., pág. 10.
27. Ibid.
28. Ibid., pág. 13.
29. Ibid., pág. 13, 14.
30. Singer, Animal Liberation, pág. 174.
31. Lappé, Diet, pág. 17.
32. Ronald J. Sider, Rich Christians in an Age of Hunger (Downers Grove, Illinois: Inter-Varsity Press, 1977), pág. 44.
33. Singer, Animal Liberation, pág. 171.
34. Sider, Rich Christians, pág. 153.
35. Ibid., págs. 157, 158.
36. Lappé, Diet, pág. 40.
37. Sider, Rich Christians, pág. 159.
38. Ibid., pág. 160.Artigos Relacionados:
[53] IMPURO OU INSALUBRE? UMA PERSPECTIVA ADVENTISTA – Por John Brunt, 5 páginas.
Neste artigo, o autor, especialista em exegese do Novo Testamento, discute a distinção bíblica entre limpo e imundo e oferece sugestões práticas de como podemos nos valer disso dentro da filosofia adventista de reforma de saúde, sem necessidade de recorrer a argumentos à base de textos-prova de interpretação dúbia. Traduzido de Spectrum.
[51a] POR QUE ME TORNEI VEGETARIANA – Por Heather M. Bowen, 3 páginas.
A autora, pós-graduada em Ciência Animal, pela California State University, de Fresno, EUA, fala das conclusões a que chegou e as razões por ter-se tornado vegetariana após pesquisar o assunto do consumo de carne particularmente e como profissional na área.
Poderão solicitár estes artigos pelo e-mail otabrito@aol.com e lhes serão remetidos gratuitamente.